A Espécie Humana. Capítulo 22

pai, olha o jornalzinho que o vô recebeu pelo correio.   

que engraçado!  é de alguma escola?

é.  disse o menino.  e o velho:

outro dia, quando eu voltava do banco, encontrei um senhor com um adolescente.  ele me cumprimentou sorrindo e eu perguntei

você foi meu aluno?

sim.  e me disse o nome. 

lembra-se de mim?

claro.  lembro do nome mas vocês alunos mudam muito.  e esse rapazinho é seu filho?

é.  veja, filho, este senhor foi meu professor de arte.   

de arte!  então o senhor podia responder ao meu questionário.   

que questionário?, meu filho!

pro jornalzinho da escola.  cada um da minha equipe recebeu um assunto e tem que fazer uma reportagem.  o meu é a arte moderna.   

não vamos incomodar?

claro que não!  vamos tomar um suco de frutas e eu respondo.   

então falei tudo no gravador do pequeno e hoje recebemos este jornalzinho.   

então, deixa eu ler alto, pai.  vamos lá:

o que é que o senhor pensa da arte moderna?

arte moderna?  você conhece a história da roupa nova do rei?  pois é.  a arte moderna é esse rei.  e o rei está nu.  e ninguém tem coragem de dizer que o rei está nu.  e o rei é feio.  é barrigudo, tem as tetas caídas, saco pendurado, balofo, gordo, sem graça.  olha a bunda dele!, olha a bunda dele!

escreveram bunda?, perguntou o menino.   

sim.  é a vantagem dessas escolas de hoje.   

e acabou ai?  de novo o menino.   

não.  aí eu levei a coisa a sério, falou meu pai.  e leu ele mesmo.   

a estética do masoquismo dos intelectuais:

vamos tentar ser claros e simples.  é sabido que algumas obras de arte são fáceis de serem sentidas e entendidas e outras são um pouco mais difíceis.  podemos exemplificar com música.  uma canção popular é mais fácil de entender do que Chopin, que, por sua vez é mais atraente do que uma longa sinfonia.  à medida que as pessoas se habituam, vão aceitando obras mais complexas.  isto nos leva a uma constatação: algumas pessoas são capazes de entender e sentir obras de arte que a maioria das pessoas não entende.  e isto é verdade.  houve um momento no meio do século passado em que a vaidade começou a mascarar o gosto das pessoas ditas intelectuais.  está difícil de entender?  é mais ou menos assim: eu, que compreendo a arte, sou capaz de gostar disto, sou capaz de su-por-tar esta obra de arte, coisa que a maioria das pessoas não consegue fazer.  e eis que num determinado momento a arte foi substituída pela farsa.  nós nos enganamos, eu me enganei, quem acompanhava as manifestações da cultura mundial se enganou.  os portões foram fechados.  o que vai ser feito daqui pra frente?  principalmente a música e as artes plásticas.  onde está a saída?  o dinheiro está envolvido nessa discussão.   

num resumo, quer saber o que penso da arte moderna?  atualmente, do jeito que está, é uma arte feita por adolescentes.  entre com seu pai naquele museu da esquina, há uma exposição lá, imagine que os autores daquelas obras têm entre doze e dezesseis anos.  vai ficar tudo adequado e lógico.  um copo de Monteverdi, por favor!

perdão, senhor, disse o garçom.   

é brincadeira.  acho que vamos desligar este gravador.  não seria interessante eu escrever tudo?  coisas mais simples, mais fáceis!

assim está ótimo.  muito obrigado.   

e termina aqui.  mas o final não foi assim.  ele não falou assim está ótimo, muito obrigado.  ele desligou o gravador e disse: assim está muito bom.  ninguém lê mesmo estas reportagens; a turma só quer saber das fofocas de namorado e namorada.   

A Espécie Humana, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.

Leia o capítulo anterior.

Leia a partir do capítulo O.

Continua na semana que vem.

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