Será que Mr Trump não tem coisa melhor para justificar a barbárie no Irã do que dizer que as ações conjuntas com Israel são como um jogo de guerra para proteger o povo americano de ataques iminentes dos antigos persas aos EUA?
É tão sem pé nem cabeça essa nova agressão — em meio a negociações que evoluíam muito bem, segundo o próprio Trump, para zerar o risco de o Irã desenvolver uma bomba nuclear —, que procurar explicações é como encontrar agulhas num palheiro. No caso, as agulhas saltam aos olhos.
Uma delas é a eleição para renovar o Congresso dos EUA em novembro. Nada como um inimigo externo para unir forças internas. Se Trump perder, seu governo e suas “belas” idéias vão pelo ralo. Bancar o durão na política externa pode ser uma “bela” idéia, desde que produza um “bom” machão no plano doméstico. Mas isto é um lance de altíssimo risco, já que a bandeira eleitoral dele foi não se meter em novos conflitos pelo mundo e pôr vidas americanas em risco.
E o Mr não tem feito outra coisa, da Venezuela à Faixa de Gaza, da Síria ao Irã, da Nigéria ao Líbano, fora provocações à Dinamarca, por causa da Groenlândia, à África do Sul, Canadá, Panamá, Colômbia, Brasil, México e, agora, Cuba.
Os tiros no Irã vão sair pela culatra, ainda mais se a guerra se prolongar, como parece que vai, com grandes perdas de vidas de rangers e marines se houver invasão por terra. Isto é tudo o que Mr Trump não podia querer.
Outra agulha que salta do palheiro é a inflação. Uma guerra prolongada não vai baixar os preços no futuro, como ele gostaria e precisa. Ao contrário, vai abrir outro rombo nos bolsos dos gringos, além do que o tarifaço, agora supremamente ilegal, já causou. E a gasolina subindo leva junto os outros preços domésticos. É tudo o que o Mr também não queria. Será outro tiro pela culatra, este no meio da testa.
Um terceiro tiro entre os olhos são os estragos causados pelos revides do Irã aos países que mantêm bases militares dos EUA ao longo do Golfo Pérsico, com jóias como Dubai, Doha, Bahrein, Qatar, Emirates sob fogo dos drones e mísseis iranianos.
Essas cidades e países não têm nada a ver com Trump, nem o querem por perto, mas estão pagando o pato da agressão ianque-israelense ao Irã. Isto é um desastre para o turismo na região. Além das consequências financeiras do fechamento de Hormuz para as receitas de exportação de petróleo dos emires à China, Índia, Japão, ao resto da Ásia, Oceania e aos próprios EUA.
Logo mais, todo o mundo árabe estará em pé de guerra com Mr Trump, pelos prejuízos causados aos negócios. Isto, para os árabes do petróleo, amigos tradicionais, é de máxima gravidade.
Outra agulha que salta do palheiro e acerta o baixo ventre de Mr Trump são os documentos Epstein, que Trump quer riscar do mapa atirando para todos os lados. É sua estratégia diversionista, mas até deputados republicanos estão dizendo que bombardeios no Irã não vão fazer picadinho dos papéis desse escândalo em que está metido até os cabelos.
Erros de cálculo estão levando Trump a uma sucessão de tiros a esmo contra a própria cabeça, o que, se é bom para a oposição democrata nas eleições de novembro, é péssimo para a economia americana e mundial, hoje e sempre.
Resta como motivo a China, alvo maior de toda a barafunda que Mr Trump está criando ao redor do mundo. Ele já controla o petróleo da Venezuela que vai para a China. Agora quer controlar o do Irã para também fechar as torneiras para a China. Xi Jinping não diz nada, só observa. Joga parado. O Irã não é a Venezuela… e a China tem muitas alternativas.
Algo me diz que esta versão de War só vai valer a pena se riscar o trumpismo do mapa nos EUA e no mundo. Quem viver, verá.
Nelson Merlin é jornalista aposentado e ainda sonhador,
3/3/2026
