Uma pérola em inglês, uma pérola em português

Os italianos têm um dito, uma definição que é sonora, uma aliteração: “traduttori, traditore”. Um dito, uma definição atraente – mas, a rigor, um exagero. Nem todos os tradutores são traidores.

OK, muitas traduções traem o original. Talvez não tanto na prosa – na prosa a gente se vira. Na poesia, aí a coisa complica. Como traduzir versos para outra língua sem fugir do sentido original, mas ao mesmo tempo mantendo o ritmo, a métrica, o som das palavras, as coincidências, as aliterações, já que falei nelas?

Pois é. Não é nada, nada fácil. Mas há belos exemplos de traduções de canções que não são traições. E não são poucos.

Me encanta, por exemplo, como Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti reconstituíram a repetição de fonemas que Bob Dylan criou em “It’s All Over Now, Baby Blue”, na versão em português para Gal Costa gravar no álbum Caras & Bocas, de 1977.

Na canção de seu álbum de 1965, lá pelas tantas o então jovem fenômeno que viria a ser o primeiro compositor a ganhar o Nobel de Literatura diz: “All you seasick sailors, they are going home”. Três “s” em ssseguida, em duas palavras.

Graças ao engenho de Caetano e Péricles, Gal cantou: “Seus marinheiros mareados abandonam o mar”. Três “m” emmm duas palavras – fora dois “n” de lammmbujem.

***

Com “Só Chamei Porque te Amo”, Gilberto Gil construiu uma das mais belas traduções de letra de canção que conheço,

Tenho acordado com essa canção na cabeça em vários dos últimos dias. Não sei por quê – o que vem à nossa cabeça “não tem explicação”, para citar uma frase que Gil colocou, ali por 1987, na letra escrita por Stevie Wonder em 1984.

“I Just Called to Say I Love You” foi escrita por Stevie Maravilha quando ele estava na jovem maturidade dos 34 anos e já contabilizava 23 anos de carreira – havia sido contratado pela gravadora Motown com 11 aninhos de idade, dois a menos do que tem hoje minha netinha linda e fofa. Aos 34 anos, depois de uma carreira de imenso sucesso desde criança, após dois álbuns reconhecidos como dos mais belos, intrincados, marcantes da música pop de todos os tempos e lugares – Songs in the Key of Life (1976) e Stevie Wonder’s Journey Through The Secret Life of Plants (1979), este último um álbum duplo em que o artista toca todos, absolutamente todos os instrumentos ouvidos nas 20 faixas –, Stevie Wonder não tinha que provar mais nada.

Criou uma canção que, a rigor, a rigor, é até simples – uma balada suave, calma, em que o narrador conta para a mulher que ama que está ligando sem qualquer motivo especial – só pra dizer que a ama.

Ah, diacho, a fantástica, cheia de maravilha, wonder full (com perdão pela brincadeira) coisa do simples! Pérolas como esta canção sempre me fazem lembrar disso – pérolas, gemas, jóias, O compositor de pérolas me parece um ourives caprichosíssimo, que passa meses e meses burilando, burilando a sua jóia – até que ela fica pronta e é uma coisa tão perfeita que parece que foi simples produzi-la.

(O citado moço fanho, de voz horrorosa, premiado com o Nobel, escreveu no meio de uma canção, quando estava aí pela maturidade jovem dos 30 anos, que “in this age of fiberglass I keep looking for a gem” – nesta era da fibra de vidro, continuo procurando por uma gema. Simples assim.)

Os versos de Stevie Wonder são de uma aparente simplicidade que, diacho, é coisa de ouvires cuidadoso, paciente, perfeccionista.

Vai primeiro o original; em seguida faço uma tradução literal – e aí é que está: a tradução literal é quase forçosamente uma traição à beleza do original:

No New Year’s Day to celebrate

No chocolate covered candy hearts to give away

No first of Spring, no song to sing

In fact, here’s just another ordinary day

No April rain, no flowers bloom

No wedding Saturday within the month of June

But what it is, is something true

Made up of these three words that I must say to you

I just called to say I love you

I just called to say how much I care

I just called to say I love you

And I mean it from the bottom of my heart.

 

No summer’s high, no warm July

No harvest moon to light one tender August night

No autumn breeze, no falling leaves

Not even time for birds to fly to southern skies

No Libra sun, no Halloween

No giving thanks to all the Christmas joy you bring

But what it is, though old, so new

To fill your heart like no three words could ever do

I just called to say I love you

I just called to say how much I care, I do

I just called to say I love you

And I mean it from the bottom of my heart

I just called to say I love you

I just called to say how much I care, I do

I just called to say I love you

And I mean it from the bottom of my heart

Of my heart

Of my heart

 

No New Year’s Day to celebrate

No chocolate covered candy hearts to give away

But what it is, is something true

Made up of these three words that I must say to you

I just called to say I love you

I just called to say how much I care

I just called to say I love you

And I mean it from the bottom of my heart

I just called to say I love you

I just called to say how much I care, I do

I just called to say I love you

And I mean it from the bottom of my heart

Of my heart

Of my heart (baby, of my heart)

***

Ah, meu… Que absoluta maravilha!

Claro que traduzione, tradimento, mas lá vai:

Nenhum Dia de Ano Novo para celebrar. Nada de corações de doce cobertos de chocolate. Nenhum primeiro dia da primavera, nenhuma canção para cantar. Na verdade, é apenas mais um dia comum. Nenhuma chuva de abril, nada de flores se abrindo. Nenhum sábado de casamento no mês de junho. Mas o que é, é de verdade, e está nestas três palavras que eu preciso dizer pra você. Eu só chamei pra dizer eu te amo. Eu só chamei para dizer o quanto eu gosto. E digo isso do fundo do coração.

Nenhuma Lua cheia para iluminar uma terna noite de agosto. Nenhuma brisa de outono, nada de folhas caindo. Nem mesmo é época de pássaros voarem para o Sul. Nenhum Sol de Libra, nenhum Dia das Bruxas. Nenhum agradecimento por toda a alegria do Natal que você traz. Mas o que é, tão novo, embora velho, pra encher seu coração como outras três letras jamais poderiam encher. Eu só chamei pra dizer eu te amo. Eu só chamei para dizer o quanto eu gosto. E digo isso do fundo do coração.

***

Há coisas que simplesmente dão certo.

Há muita obra boa que, por motivos que a gente nunca vai conhecer, não acontece, não tem reconhecimento, passa batido. E há coisas que simplesmente dão certo. “I Just Called to Say I Love You” é um exemplo perfeito.

A canção foi lançada no filme A Dama de Vermelho, uma gostosa comedinha romântica dirigida por Gene Wilder, aquele excelente ator que fez rir milhões de pessoas em filmes como Jovem Frankenstein (1974) e O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes (1975). O filme, com a beleza estonteante de Kelly LeBrock, foi um sucesso – e a música simplesmente estourou. Chegou ao primeiro lugar nas paradas de sucesso de 28 países, e foi o single mais vendido da carreira de Stevie Maravilha.

***

Gilberto Passos Gil Moreira, todo mundo sabe, é um letrista precioso. O cara tinha apenas 25 anos quando lançou seu primeiro álbum, que tinha em uma das faixas os versos “olha, lá vai passando a procissão, se arrasando feito cobra pelo chão”.

(O eventual leitor alguma já parou um momento para apreciar a beleza dessa imagem? “Lá vai passando a procissão, se arrasando feito cobra pelo chão”…)

Poeta de trocentas belos poemas musicados, Gil escolheu – entre todas as milhares e milhares e milhares de canções escritas em inglês – duas para traduzir para a Última Flor do Lácio Inculta e Bela: “No Woman, No Cry”, de Bob Marley, lançada em 1974, e esta “I Just Called to Say I Love You”.

E aqui me permito falar de coisas pessoais e intransferíveis, aquelas feito dor de dente.

Quando Gilberto Gil apresentou pela primeira vez sua versão, “Só Chamei Porque Te Amo”, em uma turnê em 1987, eu estava lá no show em São Paulo – no histórico, fantástico Auditório de Convenções do Anhembi. Não achei comprovação, mas creio que boa parte do álbum Gilberto Gil em Concerto, daquele ano de 1987, que traz 9 das canções apresentadas na turnê, foi gravada ali, no Anhembi. Minhas palmas estão registradas lá no disco.

Não tenho prazer em lembrar a moça que foi comigo nesse show, na época após o fim do meu segundo casamento, o com Regina. Namorei muito, naqueles tempos, entre Regina e Mary, e essa aí que foi comigo ao show eu deveria ter evitado. Mas tenho imenso prazer em lembrar que, no dia 22 de outubro de 1995, fomos ver o show de Gil e Stevie Wonder no Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, aquele ao lado do Ginásio do Ibirapuera, minha filha Fernanda e a mãe dela, Suely. Mary não pôde ir conosco: tinha viajado para Brasília com o governador Mario Covas, de quem era assessora de imprensa.

(Sei do detalhe da data não porque tenha prodigiosa memória, mas simplesmente porque anotei na minha agenda. “Verba volant, scripta manent”, o latinório que em bom português significa “se não anotou, dançou”.)

***

E agora, depois de tantas linhas que fugiam do tema central, chego ao que o baiano fez com a letra da Maravilha nascida no Michigan.

Claro, muita gente se lembra dela, mas, diacho… Ai vai, inteira, a maravilha, a coisa Wonder Full que Gil fez.

Não é Natal

Nem Ano Bom

Nenhum sinal no céu

Nenhum armagedom

Nenhuma data especial

Nenhum ET brincando aqui

No meu quintal

 

Nada de mais

Nada de mal

Ninguém comigo

Além da solidão

Nem mesmo um verso original

Pra te dizer

E começar uma canção

 

Só chamei porque te amo

Só chamei porque

É grande a paixão

Só chamei porque te amo

Lá bem fundo

Fundo do meu coração

 

Nem carnaval

Nem São João

Nenhum balão no céu

Nem luar no sertão

Nenhuma foto no jornal

Nenhuma nota na coluna social

Nenhuma múmia se mexeu

Nenhum milagre da ciência

Aconteceu

Nenhum motivo nem razão

Quando a saudade vem

Não tem explicação

 

Só chamei porque te amo

Só chamei porque

É grande a paixão

Só chamei porque te amo

Lá bem fundo

Fundo do meu coração

 Junho de 2026

Um comentário para “Uma pérola em inglês, uma pérola em português”

  1. Maravilha, Sérgio. Gostei imensamente de tudo. Só um reparo desta traidora: Gil não fez uma tradução. Ele fez a única coisa possível se queria conservar a poesia: recriou-a, fez outra. E confirma o que sempre pensei e disse: poesia não se traduz, recria-se.
    No caso das línguas latinas ainda é possível manter-se próximo do original. Em face da língua inglesa, para conservar a poesia, há que criar asas.

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