Três mulheres

Será que para se defender de três mulheres o sujeito precisa ter uma pistola de repetição em casa? Ou será que é para defender as três de um ataque de bandidos que poderiam aparecer de repente por lá para sequestrá-las?

Registre-se que a casa é vigiada por PMs bem armados do lado de dentro e do lado de fora. Há um carro da polícia na frente do portão e outro do lado de fora do condomínio, que é  fechado, com portaria blindada. Só um bando de malucos tentaria uma invasão.

Portanto, vou excluir a segunda hipótese, por inverossímil, e ficar com a primeira, considerando que as três mulheres estavam porraqui do fulano, após três meses trancado em casa, em prisão domiciliar supostamente humanitária, por ser um preso doente crônico.

Sim, o cara sofre de uns engulhos no estômago, arrotos que sobem pela goela acompanhado de fluídos estomacais misturados a resíduos de comida, popularmente conhecidos como refluxos gastroesofágicos. Uma coisa  que causa pneumoniabroncoaspirativa, e em casos mais graves, fibrose pulmonar incurável, que pode ser fatal. Aí os adevogados pediram ao juiz para ele ficar por uns tempos em casa, para ser cuidado pelas três mulheres. Aí o juiz, que é uma mãe, pensou: coitado, vou despachar favoravelmente, invocando razões humanitárias para o desgraçado.

E assim foi. Mas depois de um tempo, quem não aguenta mais o sujeito são as três mulheres que, a princípio, deveriam cuidar dele. Olhares ameaçadores devem ter apavorado o sujeito e ele resolveu tirar do fundo do armário uma pistola dos tempos do Exército e deixá-la bem à mão, no assento do sofá onde via televisão dia e noite, noite e dia sem parar — a mulherada não aguentava mais.

Uma hora dessas ele pensou: e se essa coisa não funcionar na hora que eu precisar? Aí pegou a dita cuja, preparou-a para o tiro e ela travou. Fez de novo e ela travou de novo. E assim foi umas quantas vezes, até que chamou o sargento do Exército que o vigiava na domiciliar, dentro de casa.

Leva essa porcaria para o conserto — disse.

Muito solícito, o sargento recolheu a arma e levou-a para dentro de seu carro, colocou-a no chão porque o porta-luvas estava muito cheio, e saiu.

No meio do caminho tinha uma blitz. Tinha uma blitz no meio do caminho. No poema de Drummond era uma pedra, mas aqui é uma blitz.

Xi — disse o policial. Que arma é essa que taí no chão?

O sargento explicou, identificou-se e tal, mas o policial, muito ciente dos seus deveres, resolveu levar tudo, o carro, o sargento e a arma, para a delegacia.

Foi todo mundo pra lá e… fedeu. O sargento explicou que a arma não mataria nem piolho de mosquito, porque ele mesmo havia retirado uma pecinha móvel e minúscula lá de dentro que, sem ela, nunca ia disparar. Quer dizer, tinha feito o preso de bobo.

O delegado achou tudo muito  insano e mandou o caso para a Polícia Federal, a PF mandou para a PGR e a PGR mandou para o juiz do caso. Um careca cabeça de ovo duro de engolir. O mesmo que tinha mandado o sujeito para a domiciliar. O mesmo, também, que foi o relator do processo em que o sujeito restou condenado por organização criminosa para matar o presidente da República recém eleito, seu vice e ele mesmo, o juiz, seu desafeto por outros casos envolvendo sua pessoa e aliados no tribunal.

Fedeu, como eu disse.

O juiz cabeça de ovo já estava com tudo pronto para prorrogar a prisão domiciliar do apenado. Foi pego de surpresa e perguntou à PGR o que fazer. Mandar de volta para a penitenciária por causa da arma ou atender ao pedido da defesa para prorrogar a domiciliar pelo tempo que achar melhor? Os termos da defesa atestam que nem os adevogados aguentam mais o sujeito.

Em meio a essa crise, eis que advém outra crise. Num acesso que para uns é de loucura, e para mim é uma farsa, a mulher do presidiário entra numas e resolve espinafrar o enteado em público. Melodramática, diz que foi destratada, maltratada, humilhada e, por fim, apunhalada pelas costas num telefonema no ano passado que só ela ouviu. Não é pouca coisa, inda mais no telefone! Um segundo enteado, foragido no exterior, veio ao socorro do primeiro, engrossando o caldo. O terceiro, acometido de prisão de ventre mental, ficou quieto e o quarto preferiu mergulhar nas águas cheias de tubarão em Camboriú, um ex-paraíso tropical no Sul do país.

Essa mulher, entre as três, quer ser presidenta da República em 2030. Vulgo “corrimão do Congresso”, onde atuou como secretária, ela fica mais ou menos contente, por enquanto, em ser senadora eleita por mulheres evangélicas das mais pudicas. Durante anos recebeu dinheiro de um serviçal do marido em sua conta bancária. Pergunta que não quer calar: o que será que ela tinha com ele?

Valha-me Deus!

E o drama continua. Adivinhe  quem pagou o pato pela pistola que o presidiário tinha em casa e o cabeça de ovo não sabia? O mordomo, ora! Quero dizer, o sargento!

É dele a culpa de transportar arma letal sem licença para tal. Até rimou… Não importa se cumpria ordens de um superior — o capitão presidiário —, que ainda não teve as insígnias cortadas a tesoura pelo STM.

E assim vamos, no país de Pindorama. Sem contar que, agora, o filho do 01 pré-candidato a presidente correu esbaforido aos EUA para dizer, em audiência pública aberta pelo governo de lá, que é contra o tarifaço porque vai prejudicar todo mundo, menos o Lula.

Oh, Deus!

Nelson Merlin é jornalista aposentado e especialista em resumir histórias cabeludas em poucas linhas. 

7/7/2026

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