O Xeique de Agadir

  — Eu tenho, sim senhor.

— Então, é verdade? 

— É, sim senhor. 

— E onde ela está? 

 — Está guardada, senhor. 

 — O senhor tem uma foto dela? 

— Tenho, sim senhor. 

— Mostre ao juízo, por favor. 

— O senhor não quer ver de verdade, pessoalmente? 

— No momento, basta uma foto.

— As imagens enganam, senhor. 

— Então mostre a de verdade.

O inquirido, então, tira do bolso interno do paletó uma Ferrari último tipo, toda de ouro, e põe o objeto em cima da mesa do juiz. 

 Iiiisssto? — indaga o juiz, engasgando-se até corar, vermelho como pimentão. 

 — Sim, senhor, o senhor não gostou? Tenho outras, mas deixei em casa. Original, só essa. 

O promotor, então, entra em ação. 

— Isso aí é ouro? 

— Sim, 24 quilates. 

— O senhor tem o recibo de compra? 

— Quem disse que eu comprei? 

— O senhor não comprou? 

— Não, eu ganhei. 

O promotor esfrega as mãos; “agora pego esse cara”, pensou.

— E o senhor ganhou de quem? 

— Do Xeique de Agadir. 

 — E onde fica isso? 

 — No Marrocos, senhor.

— Isso aí não é um filme do passado? 

— Não, senhor, é uma novela da Globo escrita por Glória Magadan, com Yoná Magalhães, Leila Diniz, Marieta Severo, Márcia de Windsor etc, um time daqueles! Mas estou falando da cidade real de Agadir, no sul do Marrocos. O xeique de Agadir é meu amigo. 

— Então, prove! 

O inquirido tira, então, do outro bolso interno do paletó, um envelope em papel dourado, lacrado com cera derretida formando um belíssimo botão de rosa, vermelha como um tomate. E deposita o envelope na mesa do juiz. 

— Eu nunca abri, mas dentro dele  está uma carta com a procedência do objeto, nos mínimos detalhes, escrita de próprio punho pelo xeique de Agadir. Ele me disse que era para eu usar se algum malandro duvidasse da integridade e lisura do objeto aqui exposto. 

O juiz e o promotor engoliram em seco, trocaram um olhar de muitas dúvidas e o juiz finalmente tomou uma decisão, após longa meditação, em que seu rosto variou do vermelho ao rosa e depois ao branco dos cravos de cemitério:

— Então está bem, Sr. Fábio Luiz Lula da Silva. O Sr. está dispensado. – E voltando-se para o escrivão, determinou:

— Arquive-se. Intime-se.

Mais uma, entre tantas, que o Lulinha tirou de letra. 

Nelson Merlin é jornalista aposentado e fã de “O Sheik de Agadir”, uma das primeiras   telenovelas da TV Globo, de 1966, estrelada por atrizes inesquecíveis. 

4/8/2026

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