Em um debate na quarta-feira, 23, Simone Tebet (PSB), candidata ao Senado por São Paulo, pôs o dedo na ferida: “o país corre o risco de colocar a milícia do Rio de Janeiro na Presidência da República”. O alerta provocou reações veementes de apoiadores de Flávio Bolsonaro, mas, curiosamente, não foi contestado pelos advogados da campanha do senador, que costumam litigar por pelo em ovo. Uma forma de evitar o tema na última semana antes do primeiro turno das eleições, visto que as ligações de Flávio com milicianos são incontestáveis.
Os vínculos de Flávio com a milícia são antigos. Os mais vistoso deles com o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, chefe do “Escritório do Crime” – uma gangue de matadores de aluguel que atuava junto às milícias de Rio das Pedras e Muzema, Zona Oeste do Rio -, morto (ou apagado) em um confronto policial na Bahia, há seis anos.
Estreante como deputado estadual do Rio, o primogênito de Jair Bolsonaro apresentou uma moção de louvor a Adriano. Acusado de homicídio, ele já estava em prisão preventiva havia mais de um ano quando, em 2005, Flávio não só lhe concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria do Estado, como foi pessoalmente entregá-la no Batalhão Especial Prisional da Polícia Militar.
Em sua defesa, Flávio diz que tudo isso faz mais de 20 anos e que à época Adriano era “louvado por bravura”. Mentira pura, como tantas outras do Zero Um, que continua sem ter como explicar a condecoração a um criminoso. Amparou também a família de Adriano, contratando a mulher do ex-capitão, Danielle Nóbrega, e a mãe, Raimunda Vera Magalhães, para o seu gabinete em 2010 e 2015, respectivamente. Elas só deixaram os cargos em 2018, ano em que eclodiu o escândalo das rachadinhas – desvios comprovados mas varridos para debaixo do tapete por firulas judiciais.
Em 2008, durante os debates em torno da criação da CPI das Milícias na Assembleia do Rio, Flávio chegou a defender o poder de polícia paralelo. Dizia que os grupos paramilitares se organizavam “para impedir que o tráfico imperasse nas regiões” e que policiais faziam segurança privada para complementar o salário.
De iniciativa do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), hoje candidato à Câmara Federal, a CPI das Milícias só contou com dois votos contrários: de Flávio Bolsonaro e Domingos Brazão, condenado, ao lado do irmão Chiquinho, como mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Os irmãos Brazão tiveram penas fixadas em 76 anos e três meses pelos crimes de duplo homicídio qualificado e organização criminosa armada.
O fantasma de Marielle voltou a assombrar Flávio na semana passada. Segundo investigações da Polícia Federal, o senador negociou emenda parlamentar de quase R$ 200 mil para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, também na Zona Oeste do Rio. O repasse teria sido articulado por Robson Calixto, miliciano conhecido como Peixe, assessor de Domingos Brazão. Cabe repetir: o mesmo Domingos Brazão, mentor do assassinato da vereadora e de seu motorista, e que, ao lado de Flávio, votou contra a criação da CPI das Milícias. Em nota, Flávio negou qualquer ilicitude, mas não deu um pio quanto aos diálogos incriminadores entre Peixe e Maria de Fátima, sua secretária.
Desde muito jovem, Flávio tem vida pública no mínimo controversa. Iniciou sua carreira como funcionário fantasma do PPB na Câmara dos Deputados, partido pelo qual seu pai se elegeu à época. Tinha 19 anos, estudava Direito no Rio e recebia salário em Brasília. Dois anos mais tarde, chegou ao Legislativo fluminense e lá ficou por quatro mandatos, com atuação voltada à segurança pública e, como se viu, por vezes em defesa da parte podre das polícias.
Está no Senado há quase sete anos, com baixíssimo rendimento – apenas um projeto aprovado e outro em análise na Câmara. Não apareceu para votar a proposta trumpista, afinal derrotada, de enquadrar facções criminosas como terroristas, agora incluída em seu programa de governo. E como presidente da Comissão de Segurança da Casa faltou em dois terços das sessões. De 2024 para cá, enrolou-se com o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, a quem pediu R$ 130 milhões e recebeu mais de R$ 60 milhões para, supostamente, custear o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o pai.
Seu currículo definitivamente não combina com a explosiva multiplicação de seu patrimônio. Em 2002, Flávio declarou possuir apenas um carro popular. Em 2018, R$ 1,76 milhão, que saltaram nada menos do que 370%, batendo em R$ 8,1 milhões em 2026. Diz ele que a fortuna se deve à sua atuação como advogado e empresário, embora não seja de conhecimento público causas judiciais defendidas por ele, ou negócios rentáveis além da franquia da loja de chocolates que ele detinha.
Enriquecer não é pecado. Mas no caso de homens públicos a declaração de renda tem de vir acompanhada de confissão, sob pena de alimentar suspeições. Mais ainda quando o histórico inclui relações próximas com criminosos condenados.
Ao fazer o alerta, Simone Tebet acertou em cheio.
Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 27/9/2026.
