Silvinha acorda, abre os olhos, fala – tudo ao mesmo tempo:
“Nossa… o laptop!” Pula da cama, escova dentes, troca a roupa, engole um Toddy, abre a porta da rua. A mãe: “Onde você pensa que vai?” “Encontrar com a Soninha, está com o meu laptop.” A mãe, cruzando os braços. “Você quer dizer, o laptop do seu pai.” “Sim, o nosso laptop.”
A agitação é porque as amigas têm um propósito. Ganhar o concurso do Clube de Contos para a Infância, que fica em seu bairro, em aprazível cidade interiorana. Encontram-se em um banco da praça. Abrem o laptop. Silvinha: “Tenho uma idéia. Um lobo que persegue uma menininha.”
Soninha: “Essa história do lobo mau com a Chapeuzinho era contada por minha bisavó.” Trocam idéias.
– Achei! – diz Silvinha. – Um Pinóquio-robô com corretor de texto, que não deixa ele mentir.”
– Você quer tirar toda a graça da história, né?
Acabam por se entender. Estão à mão os colegas de sala de sua escola. O Felipe, dentuço! Dá em Lipe, o coelho. E a Fernanda, magra e agitada? Na macaca Nanda. Gabi, gordinho? No porquinho Dinho.
E… o professor Leonardo, grandão e agitado? Renatinha olha para Ritinha. Esta para aquela. Esforçam-se para não rir. Lá estava: Leonardo, o cão São Bernardo. Proteção para todos.
Subitamente, sentem que falta algo… Ah, sim, o enredo. Primeira idéia: a macaca subiu em uma árvore e se pôs a atirar goiaba nos outros. O porquinho se uniu à perereca e ao ratinho, chamou a macaca para briga e o pau comeu, digo, começaram a brigar.
Havia um excelente cenário para inspirar isso. Um pequeno parque fechado, anexo do Clube de Contos. Um funcionário da escola levou o professor Leonardo e as duas moças para visitá-lo. Mas… na entrada deram com um porteiro que tinha uma má notícia. Um animal havia invadido o parque. Não chegara a ver se era um cachorro, um gato…
O funcionário reagiu prontamente: “Nenhum problema”. Estava acostumado a invasões feitas pela porta do parque esquecida aberta. Como garantia de que o invasor não escapasse, apanhava-o, levava no colo, bem apertado, e o atirava para a rua. Assim sendo entrou no parque determinado. Mas…. voltou logo, com as mãos abanando.
– O que aconteceu? – pergunta o professor?
O funcionário, desanimado:
– É um gambá.
Dias depois, Silvinha e Soninha chegam a cerimônia de julgamento do prêmio, como favoritas ao primeiro lugar. O incidente ocorrido no parque tinha sutil participação nisso. No entanto, um professor, Ramirez, pessoa desconfiada, mal-informada, ergue-se de sua cadeira e protesta: “Isto está me cheirando mal!”.
Sem querer, acertou em cheio.
Este conto foi originalmente publicado no blog Vivendo e Escrevendo, em 23/2/2026;
