Um ônibus atravessou sem pressa o fim de tarde que acometia um pequeno bairro de periferia, chamado Felicidade. Em frente à doceria, freou. Porta aberta, cuspiu um jovem agitado. Rosto afogueado. Da banqueta da doceria Beth viu o jeito do namorado e assustou-se. “Nossa…”
Tom entrou, sentou-se. Não abriu a boca. Ela, zelosa: “Quer uma Coc..?” “Não.” Mas logo… “Desculpe, Betinha. É que eu… Você não ouviu no rádio?”
Nesse momento, uma bicicleta com freio acionado passa direto pela doceria tal sua velocidade. Mas em segundos um rosto jovem, cabelos esvoaçados, mostra-se na porta. “Viram aquilo?” – pergunta Duda.
Um rabo de cavalo agita-se. “Aquilo o quê? Por que vocês estão desse jeito?” protesta Beth. “Ela não sabe”, diz Tom. “Ah, não sabe?”, reage Duda. “Vou-lhe contar”.
“Os filhos da mãe resolveram, acham que podem… Mas nós vamos mostrar a eles. Nossa luta! Milhares de jovens, incendiaremos a cidade.” Beth olhou para o teto com uma expressão de Senhor, dai-me forças. Um topete agita-se. Era Tom pondo-se em pé.
– -Eles? Beth se espanta. – Que eles? Por que nós…?
– O rádio disse que eles aprovaram uma lei… a gente vai ter que ficar em casa à noite.
–Os vereadores. Quem tem menos de dezoito anos não pode sair de casa depois das oito da noite. Os que estudam à noite vão ter autorização. De casa para a escola, da escola para casa.
Longe dali, o pai de Scarlett chegava em casa e lançava o Estadão sobre a mesa de centro. Na primeira página: “Lei protegerá menores”. A moça foi dar uma espiada no que era aquilo. No momento seguinte ligava para Alicinha, a melhor amiga. Leu um trecho. “E os caras dizem que é para proteger a gente do vício e da degradação das ruas.”
Alicinha expeliu uma saraivada de impropérios. Quis saber quem concebera “a barbaridade”. “Um vereador, está no jornal”, respondeu a amiga. E ela: “Vamos à luta!” Desligou, e pôs-se a discar. Em pouco tempo, a estudantada tinha levantado o endereço do visado. Este costumava acordar tarde. Na manhã seguinte, banhou-se, tomou café, entrou no carro todo feliz. Pegou o controle, abriu a porta da garagem e… o mundo explodiu na sua cara.
Dezenas de jovens com cartazes, soprando apitos e batendo em latas, esperavam por ele. Assustado, fechou a porta e chamou a Polícia. Os agentes da lei nada puderam fazer, o que não acharam mal, pois a maioria deles era pai.
Na sessão seguinte da Câmara a lei foi cancelada. Sem o voto de seu criador, que desapareceu. Só duas semanas depois passou por sua casa de carro, para sondar a situação. Na porta da garagem viu uma escrita com palavras colossais: SAI, BUNDÃO.
Este texto foi originalmente publicado no blog Vivendo e Escrevendo, em 29/10/2025.
