Notas argentinas 2

Alguém deve ter soprado nas orelhas do recém eleito Javier Milei que não pode brigar com quem lhe dá um prato de comida. Vai daí, o desmiolado autorizou o Itamaraty de lá a mandar uma cartinha a Lula pedindo arrego. 

Assim começa a cumparsita: “Estimado Sr. presidente”… e segue por aí, expressando – com outras palavras – votos de que dançará nos próximos anos com seu par brasileño um tango maestoso

De ladrão, corrupto e comunista, D. Luiz Inácio Lula da Silva virou, em dias, um estimado senhor. 

O que terá acontecido para tão súbita deferência? 

Nada demais. Os doidos são assim e um doido argentino não é diferente de um doido brasileiro — como vimos nas arquibancadas do Maracanã dias atrás, em mais um dos clássicos pegas de Brasil x Argentina, em que mais uma vez nos derrotaram. 

Tenho para mim que o destrambelhado recebeu mensagens de seu finado cão Cano, a quem ouve do além, ainda mais depois que os descendentes deixados pelo mastim inglês nesta vida lhe morderam profundamente o braço durante uma briga. Não sei do estado de saúde dos animais, após o desentendimento com o patrão. Só sei que a mordida de um mastim não deve ser brincadeira. 

Mas quem chorou não foi o Javier. Quem chorou foi o Inominável ex-presidente brasileiro que correu para lá, com pelo menos dois filhos a tiracolo. Não para lamber-lhe as feridas, mas para apoiá-lo na eleição e eis que, agora, reclama choroso da carta-convite do argentino para o “estimado presidente Lula” estar presente em sua posse… 

Foi demais para o coração do Imbrochável, que passou a ver no seu clone político um “brochado” irremediável. 

É a economia, estúpido! — consolariam-no, em uníssono, Bill Clinton e Karl Marx, este falecido há 140 anos e aquele ainda disponível para entrevistas. Mas como nosso Imbrochável não leu nenhum dos dois, fica chorando pelos cantos sem saber qué se pasó com Don Milei. 

Posso resumir: se Milei levasse adiante o que disse do Brasil e da China em sua campanha, a Argentina morreria de fome antes de despencar no abismo. Alguém soprou isso nas costeletas dele, certamente com números e estatísticas, e a ficha caiu fundo. 

Também deve ter dito: por que essa briga agora, justo quando Lula está para fechar as últimas rachaduras no acordo Europa-Mercosul? Causadas, aliás, por su muy amigo no período em que ocupou o palácio da Alvorada. “No seas tonto, hombre”, e a segunda ficha caiu ainda mais fundo, fazendo tchum no profundo poço argentino. 

Hay otras cositas más no baú ao pé da cama dos dois países, mas não vou me alongar. As relações comerciais e culturais entre nós e nuestros hermanos são mais fortes do que idiotas aventureiros são capazes de pensar. 

Nelson Merlin é jornalista aposentado e adivinhador. 

30/11/2023

 

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