O inimigo número 1 do governo é Lula

Quando os três maiores jornais do país dizem exatamente a mesma coisa em seus editoriais, no mesmo dia, é bom prestar bastante atenção: a possibilidade de eles estarem defendendo o ponto de vista que é melhor para o Brasil é imensa – para não dizer total, absoluta.

Quando os três jornalões repetem, no mesmo dia, o mesmo que vêm repetindo nas últimas semanas, a probabilidade de que eles estejam falando uma asneira, um absurdo, é praticamente nula.

Nesta sexta-feira, 20/1, O Estado de S. Paulo, a Folha de S. Paulo e O Globo afirmaram em editorial que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem falando asneiras, absurdos, sobre economia.

“Luiz Inácio Lula da Silva (PT) continua a desafiar o bom senso em temas econômicos”, escreveu a Folha.

“Infelizmente, Lula deixou transparecer na entrevista à GloboNews sua visão turva sobre temas cruciais para a economia”, escreveu O Globo.

“Com o enorme desafio de pacificar o País após os violentos ataques à democracia, Lula deveria abandonar essa retórica inconsequente. Com esse discurso, ele boicota seu próprio governo e castiga justamente os mais pobres, que ele diz tanto defender”, escreveu O Estado.

Bem ao lado do editorial do Globo, na página 2, Vera Magalhães escreveu:

“A diretriz de política econômica do governo começou como um bolero descompassado: três pra lá, um pra cá. Enquanto Fernando Haddad, Simone Tebet e Geraldo Alckmin tentam coordenar um discurso de responsabilidade fiscal, o presidente Lula insiste em ficar no palanque fazendo falsas contraposições entre o necessário rigor com as contas públicas e sua promessa, também urgente, de promover a reparação da desigualdade social.”

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Eterno compilador, reuni aqui as íntegras dos três editoriais dos jornalões e a do artigo de Vera Magalhães, todos deste mesmo dia, a sexta-feira, vigésimo dia do terceiro governo Lula. É a primeira do que certamente serão dezenas e dezenas de compilações de textos sobre Lula 3. Faço isso com a tranquilidade de quem passou quatro longos, tristíssimos anos tecendo compilações de textos que mostravam e demonstravam o horror, o pavor, o desastre do desgoverno do Capitão das Trevas.

Com o espírito tranquilo de quem passou as semanas anteriores às eleições de outubro costurando compilações de textos em favor do voto em Lula no primeiro e no segundo turnos.

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A bazófia de Lula

Editorial, Folha de S. Paulo, 20/1/2023

Não satisfeito com os discursos anteriores à posse que fizeram disparar os juros de mercado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) continua a desafiar o bom senso em temas econômicos com autoconfiança inaudita em seu terceiro mandato.

Na quarta-feira (18), loquaz durante uma entrevista, criticou a autonomia formal do Banco Central, a seu ver uma bobagem, e defendeu uma meta de inflação mais alta —pois, afinal, o Brasil precisa crescer. “Onde estão a inflação e os juros?”, indagou o mandatário

Também atribuiu uma suposta incompatibilidade entre responsabilidade fiscal e social à “ganância das pessoas mais ricas”. Nesta quinta (19), arengou contra “essa gente do mercado”, que para ele só aprova gastos com juros da dívida. “A gente podia não ter nem juro”, asseverou o petista.

A esta altura, é preferível acreditar que se trata de demagogia oportunista —pior será se Lula de fato acreditar em tais disparates e não estiver disposto a ouvir técnicos e estudiosos da matéria. Ou se ignorar que juros e inflação estão altos, em quase todo o mundo, porque ainda há um legado de desequilíbrios da pandemia de Covid-19.

No caso brasileiro, o fenômeno é agravado pela imprudência na gestão do Orçamento, impulsionada pela farra eleitoreira de Jair Bolsonaro (PL) e aprofundada pelo atual governo com a PEC da Gastança.

O presidente, aliás, gaba-se de trabalhar por mais desequilíbrio das contas do Tesouro Nacional, com a promessa de livrar do Imposto de Renda ganhos até R$ 5.000 mensais. Tal propositura, além de ruinosa para a arrecadação, seria péssima política pública, por subsidiar estratos com rendimentos muito acima da média nacional.

Não deixa de guardar coerência, infelizmente, com a velha e falsa tese de que a tolerância com a inflação favorece o crescimento sustentável —que Lula repete como se desconhecesse os funestos experimentos de Dilma Rousseff (PT).

Quanto aos famigerados juros da dívida, o falatório omite que o meio mais eficaz de não depender de credores é não precisar de ainda mais dinheiro emprestado.

É notável que, em contraste com a bazófia de Lula, ministros da área econômica venham dando sinais de sensatez. Fernando Haddad, da Fazenda, e Simone Tebet, do Planejamento, mostram preocupação com o ajuste fiscal. O vice Geraldo Alckmin (Indústria e Comércio) descartou retrocessos nas reformas previdenciária e trabalhista.

Talvez o mandatário queira principalmente manter sua base mais ideológica mobilizada, mesmo que sob o risco de sabotar a retomada do emprego e a melhora da renda. Fato é que, além da retórica, as medidas concretas tomadas até aqui não inspiram otimismo.

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Lula continua a derrapar quando fala de economia

Editorial, O Globo, 20/1/2023

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou sua primeira entrevista após a posse para criticar o sistema de inteligência do governo, incapaz de deter a barbárie do 8 de janeiro, e pedir a punição dos responsáveis. É também o desejo da maioria da população brasileira. Infelizmente, Lula deixou transparecer na entrevista à GloboNews sua visão turva sobre temas cruciais para a economia. Não custa lembrar: o fracasso econômico de seu governo teria como efeito nefasto a realimentação da descrença na democracia e do golpismo.

Questionado se acredita haver antagonismo entre as responsabilidades fiscal e social, Lula respondeu que sim, em razão da “ganância” dos mais ricos, resposta extraída do manual do populismo de esquerda. Os fatos: um governo que gasta mais do que arrecada aumenta a dívida pública; quanto maior ela fica, maior a percepção de risco e mais altos os juros pagos para atrair compradores de títulos da União; quanto mais se gasta com isso, menos dinheiro sobra para programas sociais.

Em vez de aceitar a realidade, Lula insiste em insinuar que quem é a favor do controle de gastos é contra o combate à fome, à pobreza ou à desigualdade — visão sem cabimento. Repetiu que ninguém pode cobrar dele responsabilidade fiscal porque ele foi responsável quando esteve no poder. Obviamente, o mais importante não é o que fez, mas o que fará. E, até agora, o controle das contas públicas, hoje sujeitas a um déficit estrutural da ordem de 2% do PIB, continua restrito às promessas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Sem o compromisso de Lula, será difícil transformá-las em realidade, tantas as demandas por recursos do governo.

Ainda que na cabeça de Lula a confusão possa fazer sentido político, o discurso ambíguo atrapalha o país, pois tem reflexo nos indicadores econômicos. Isso ficou claro noutra declaração infeliz na entrevista à jornalista Natuza Nery. Lula atacou a autonomia do Banco Central (BC) como desnecessária. Afirmou que, em seus primeiros governos, o então presidente do BC, Henrique Meirelles, tinha mais independência que o atual, Roberto Campos Neto. Não é verdade. Campos Neto não pode ser demitido por Lula, por isso tem mais liberdade. Lula chegou a dizer que, se a autonomia do BC fosse boa, a inflação não estaria tão alta — um disparate que não leva em conta a conjuntura doméstica, a mundial e as incertezas trazidas pela incúria fiscal.

Para piorar, Lula também atacou a meta de inflação para este ano: 3,25%. O novo governo tem todo o direito de discutir as metas, mas na instância adequada e no momento certo. Ao fazer a crítica numa entrevista, Lula sabota o trabalho do BC, empenhado em ancorar a expectativas de inflação futura de consumidores, empresários e investidores. Em vez de ajudar a derrubar os juros e a elevar a perspectiva de crescimento (desejo de Lula e do Brasil), a declaração tem o efeito contrário.

Os avanços na área social nos dois primeiros mandatos de Lula são incontestáveis. O atual papel do presidente na defesa da democracia tem sido e continuará sendo primordial. Na área econômica, infelizmente, o quadro é mais incerto. O mundo mudou desde que Lula passou a faixa a Dilma Rousseff. O PIB não voltará a crescer como antes, quando havia crédito abundante e o cenário externo era favorável. Cada demonstração de amadorismo de Lula na economia cobrará seu preço. Também na política.

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A bobagem de Lula sobre o BC

Editorial, O Estado de S. Paulo, 20/1/2023.

Lula da Silva declarou, numa entrevista, que não gosta do Banco Central (BC) autônomo. E não gosta porque, para o lulopetismo clássico, o governo deve mandar na autoridade monetária para definir, conforme critérios políticos, quais devem ser os juros básicos da economia. A autonomia, segundo os petistas, “afeta a soberania popular e nacional” ao “transferir o controle do BC aos bancos privados”, como se lê em um comentário do partido a respeito do projeto de lei que conferiu independência ao BC, em 2021. Nada muito diferente dos manifestos radicais do PT primevo.

De volta ao poder, o presidente Lula mostrou que continua incapaz de compreender que, sem autonomia, o Banco Central depende da boa vontade do governante para fazer seu trabalho de preservação do poder de compra da moeda. A mão pesada de Dilma Rousseff no BC para forçar uma queda dos juros logo no início de seu primeiro mandato, em 2011, a título de impulsionar o crescimento, abriu a picada para o desastre que estava por vir – inflação descontrolada, instabilidade econômica e recessão. Mas Lula e o PT são teimosos.

Em entrevista à GloboNews, o presidente disse que a autonomia formal do BC é “uma bobagem”. Além disso, Lula sugeriu que, se autonomia fosse eficiente, a inflação não estaria tão alta. “Por que, com um banco independente, a inflação está do jeito que está?”, questionou, ignorando o fato, óbvio, de que a inflação só não está mais alta porque o BC tomou as providências necessárias. Aliás, pode-se dizer que, não fosse a autonomia do BC, o então presidente Jair Bolsonaro teria usado a autoridade monetária para seus propósitos eleitoreiros, mandando criar artificialmente um aumento momentâneo do poder de compra dos brasileiros para ganhar votos. Talvez até se reelegesse – vejam só os petistas do que a autonomia do BC nos livrou.

As declarações de Lula, portanto, não surpreendem ninguém, mas são dignas de lamento. É inacreditável que o presidente hesite em reconhecer a importância de um marco institucional tão relevante para o País.

Ao longo de sua história, o PT sempre defendeu o combate à inflação por meio do controle de preços de combustíveis, incentivos setoriais e uma política cambial que reduza a volatilidade da moeda. Não são propostas de um passado distante, mas as diretrizes expressas do programa apresentado por Lula na campanha eleitoral de 2022.

Esse receituário heterodoxo foi testado e reprovado no governo de Dilma, quando o BC ignorou os sinais de deterioração da economia e abriu mão da defesa da moeda, sua função primordial, perdendo o controle da inflação e da ancoragem das expectativas. A combinação entre juros em patamares artificialmente baixos e os efeitos de uma política fiscal expansionista mergulharam o País em uma profunda crise econômica até hoje não totalmente superada.

Foi após esse contexto que ressurgiu o debate sobre a autonomia do Banco Central. Um dos pilares do projeto de lei complementar aprovado pelo Congresso foi o estabelecimento de mandatos fixos para os diretores e o presidente da instituição em períodos não coincidentes com os do presidente da República. Longe de representar privilégio aos membros da autarquia, a proposta deu a eles a blindagem necessária para executar suas atividades sem pressões políticas do governo de plantão, independentemente de seu viés político.

Tema completamente superado, a autonomia do BC é mais um dos vários dogmas aos quais o PT mantém um apego visceral. Quando Lula a critica, trai a si mesmo, pois sabe que a independência que deu ao BC lhe garantiu um primeiro mandato tranquilo. Pior: amplia as incertezas e a volatilidade da economia, desancora as expectativas do mercado e cria um ambiente propício para que um BC sobre o qual ele não tem qualquer poder ou ascendência volte a aumentar a taxa básica de juros. Com o enorme desafio de pacificar o País após os violentos ataques à democracia, Lula deveria abandonar essa retórica inconsequente. Com esse discurso, ele boicota seu próprio governo e castiga justamente os mais pobres, que ele diz tanto defender.

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Três pra lá, um pra cá

Por Vera Magalhães, O Globo, 20/1/2023

A diretriz de política econômica do governo começou como um bolero descompassado: três pra lá, um pra cá. Enquanto Fernando Haddad, Simone Tebet e Geraldo Alckmin tentam coordenar um discurso de responsabilidade fiscal, o presidente Lula insiste em ficar no palanque fazendo falsas contraposições entre o necessário rigor com as contas públicas e sua promessa, também urgente, de promover a reparação da desigualdade social. A pergunta é: o que um governo já acossado pelo extremismo golpista tem a ganhar com esse diversionismo num tema tão sensível? Absolutamente nada.

Lula parece fazer um cálculo semelhante ao que levou Jair Bolsonaro a falar para convertidos durante os quatro anos de seu mandato: que é preciso manter uma base fiel, o lulopetismo raiz, mobilizada e evitar que ela se decepcione com os rumos do governo. Acontece que esse eleitor não deixará de fazer o L se o governo buscar coadunar as promessas de reduzir o fosso social com uma política fiscal que mostre disposição de reduzir a dívida e, consequentemente, os juros futuros, esses que Lula contrapôs de forma equivocada aos investimentos sociais, como se fossem gastos da mesma natureza, ditados apenas pela vontade do governo de turno.

Não adianta o presidente evocar o passado para dizer que concedeu autonomia ao Banco Central e promoveu superávits fiscais, como se isso tornasse desnecessários metas e marcos legais para balizar o comportamento do governante. Seria equivalente a alguém dizer que nunca andou acima de 60 km/h e, portanto, radares de trânsito podem ser abolidos. Nada na prática pretérita obriga a repetir esse comportamento no futuro, em novas circunstâncias. Para isso, existem o ordenamento jurídico e regras — em gestão governamental e no trânsito, como em várias esferas do espaço público.

Entre um time de ministros da equipe econômica — que, apesar de diverso e nuançado quanto a como enxerga os diversos temas da área, tem procurado mandar sinais na mesma direção — e o chefe deles, em quem investidores, empregadores, trabalhadores e analistas devem acreditar?

É péssimo que o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, tenha tido de vir a público dizer que não há nenhuma disposição do governo em mexer na autonomia do Banco Central. O governo acaba de assumir. Em oito dias, enfrentou uma ameaça de golpe de Estado cujos reflexos estão longe de estar dissipados. Hoje mesmo Lula terá o primeiro encontro com comandantes das Forças Armadas num balé eivado de cuidados e coisas que não podem ser ditas, de lado a lado.

Diante de tamanha instabilidade institucional, não é inteligente gerar marola na economia. Até porque a unidade construída com os governadores e os representantes dos demais Poderes na defesa da democracia tende a se desfazer quando entrarem na pauta ideias tão controversas quanto as de rever reformas e a autonomia do BC.

Lula não poderá contar com Arthur Lira e Rodrigo Pacheco para levar adiante a tentativa de rever esses projetos. Se insistisse nessa pauta — algo que a própria forma ligeira como trata os assuntos mostra que não fará —, correria o risco de uma derrota no Congresso logo na largada. Um prato cheio para fortalecer uma direita radical que estará fortalecida na próxima legislatura, que nem assumiu ainda.

Muitas chances foram dadas a Lula pelo horror bolsonarista. Sua eleição dependeu fortemente da aversão de um setor moderado a seu antecessor, e não do amor ao petismo. Ele constantemente parece se esquecer do que ele próprio detectou no discurso de posse, sobretudo quando descamba para as bravatas em matéria econômica.

Existe uma janela única para apostar em temas como a reforma tributária, que habilmente Haddad e Tebet têm levantado como bandeira, forma de demonstrar o compromisso do governo com propostas estruturantes que organizem o ambiente para investimentos.

O presidente deve ser o piloto dessa e de outras discussões, que, aliás, não serão tranquilas, dada a dificuldade histórica de convencer setores com interesses opostos a concordar em perder aqui e ali em nome de um sistema mais racional de tributos.

Da mesma forma, a construção do substituto do teto de gastos exigirá diálogo e capacidade de negociação da parte do governo. Se cada um ficar puxando a dança para um lado, pisando no pé do parceiro, o maior prejudicado será o próprio governo

20/1/2023

Compilação número 1 do governo Lula 3. 

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