Semelhanças, diferenças

Não há dúvida de que existem semelhanças entre o que mostram as duas imagens acima. As manifestações petistas pediam algo irracional, ilógico, absurdo. As manifestações bolsonarista pedem algo irracional, ilógico, absurdo.

Não há dúvida de que existem semelhanças entre petistas e bolsonaristas – por mais que os dois lados protestem violentamente contra a comparação inescapável, obrigatória.

Um artigo do sempre arguto, sagaz, preciso Eduardo Affonso publicado no Globo deste sábado, 26/11, “As massas e os messias” , expõe essas semelhanças de uma forma tão clara, tão cristalina, que seguramente uniria petistas e bolsonaristas na mesma rejeição violenta do texto e no ódio ao autor.

Por uma fantástica, incrível coincidência, a foto da manifestação petista reapareceu para mim no Facebook como lembrança do que eu publiquei exatos seis anos atrás, em 27 de novembro de 2016.

Dilma Rousseff foi cassada no dia 31 de agosto, após um processo no Senado Federal. Um processo que seguiu todos os trâmites previstos na Constituição e na legislação brasileira. E foi presidido pelo ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal – por coincidência, ou não, um amigo pessoal de Luiz Inácio Lula da Silva, desde os tempos em que ele era sindicalista no ABC paulista; Lewandowski, que foi secretário de Governo e de Assuntos Jurídicos de São Bernardo do Campo de 1984 a 1988, chegou ao STF por indicação de Lula. E atualmente está sendo cotado para algum cargo no governo Lula, já que terá que se aposentar do STF, pela compulsória, em maio de 2023.

Em 27 de novembro de 2016 – quase três meses, portanto, após a cassação de Dilma Rousseff em processo no Senado presidido pelo ministro Lewandowski –, petistas faziam manifestações nas ruas pedindo, exigindo que o STF anulasse o impeachment.

Até hoje, mais de seis anos depois, os petistas insistem em que o impeachment foi um golpe. Pediram o impeachment de Fernando Henrique Cardoso desde que ele assumiu, e pediram o impeachment de Michel Temer, o vice de Dilma escolhido pelo próprio partido. Para os petistas, impeachment de presidente dos outros partidos é legal, impeachment de petista é golpe.

Para os bolsonaristas, urna que elege seu mito funciona. Urna que elege outro não funciona, é fraudulenta.

Uma coisa é tão irracional, tão ilógica, tão absurda quanto a outra.

Como diz Eduardo Affonso: “Muda a cor das roupas e bandeiras — sai o vermelho, entram o verde e o amarelo. Mudam as palavras de ordem: ‘Lula livre!’, ‘Intervenção militar!’ (…). Em comum, a inabalável fé num messias. E a negação — do resultado de eleições, da condenação ou do ocaso do seu líder, do seu capitão, do seu salvador”. (Veja abaixo a íntegra do artigo.)

Muita, mas muita semelhança.

Mas há uma distância fundamental, gigantesca, amazônica, jupiteriana.

Nas manifestações de seis anos atrás, apelava-se ao STF. Ao Judiciário. Ao guardião das leis.

Nas manifestações de agora, apela-se às Forças Armadas. À força das armas. Ao golpe.

As semelhanças são muitas, é verdade. Mas a distância… Ah, ela faz toda a diferença.

Este texto foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 28/11/2022.  A foto da manifestação petista é de O Estado de S. Paulo; a da manifestação bolsonarista é de Fabio Rossi/Agência O Globo. 

As massas e os messias

Por Eduardo Affonso, O Globo, 27/112022

Nos anos 80, ocupavam a Cinelândia, no Centro do Rio. Resistiram algumas décadas — hoje não há mais vestígios do que um dia foi a aguerrida Brizolândia. Em 2018, começaram uma vigília em frente à Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. Por 580 manhãs, renovavam sua fé gritando: “Bom dia, presidente Lula!”. Desde o segundo turno das eleições de 2022, estão acampados diante de quartéis ou bloqueando estradas.

Muda a cor das roupas e bandeiras — sai o vermelho, entram o verde e o amarelo. Mudam as palavras de ordem: “Lula livre!”, “Intervenção militar!” e… (o que é mesmo que queriam os brizolistas, além de lutar contra as “perdas internacionais”?). Em comum, a inabalável fé num messias. E a negação — do resultado de eleições, da condenação ou do ocaso do seu líder, do seu capitão, do seu salvador. Nunca chegam a formar multidões — talvez daí o empenho em fazer tanto barulho.

São pessoas que se desconectaram de si mesmas e embarcaram num delírio coletivo. Não necessariamente por desinformação ou déficit cognitivo, mas para se congregar no seio de uma ficção compartilhada. Para ter a sensação de pertencimento, de estar do lado do Bem. E suprir sua grande carência — e de todo ser humano: a de amparo. Funciona para qualquer seita, religiosa ou ideológica.

Em linguagem de autoajuda: deixam de ser gota para se sentir oceano. Mal sabem que, nessa mudança, passam de sujeito a objeto, tornando-se cada vez mais manipuláveis: a permanência no grupo implica investimento psíquico incessante. Paga-se um boi para entrar e uma boiada e meia para tentar sair do rebanho.

São gente como a gente — só que, no momento, impermeável a argumentos. Como os amigos que me entopem a caixa postal com notícias falsas, falsos alarmes, teorias conspiratórias. Aponto o erro, encaminho o desmentido — em vão. Daí a pouco recomeça tudo, numa amnésia voluntária. Foi assim na época do impítimã (“É golpe!”); é agora no pós-eleições (“É fraude!”). Pessoas até outro dia bastante sensatas, mas que marcam território com bandeiras na janela (de casa ou do carro), cantam o Hino Nacional no portão de algum quartel (felizmente, não em torno de pneus) e clamam pelo fim do Estado de Direito (pelo menos não com o celular na cabeça pedindo socorro a extraterrestres). Não refletem, agem reativamente. Ao domínio cultural tirânico das esquerdas e à patrulha vingativa das minorias, respondem com o orgulho da tosquice, a celebração anticiência.

Lula elegeu Bolsonaro, Bolsonaro reelegeu Lula. Sem uma terceira via à vista, é possível que esse “Dia da Marmota” ainda dure muitos anos.

Os brizolistas conseguiam, no máximo, atravancar a passagem de pedestres na Cinelândia. Os lulistas, que penaram no frio de Curitiba, perturbaram apenas o sossego do pacato bairro de Santa Cândida. Os “patriotas” infernizam a vida de quem precisa viajar ou transportar sua carga e podem causar estragos à economia, ao convívio civilizado, à democracia.

Vai ser um desafio trazê-los de volta ao diálogo. É longo e penoso o luto de um messias.

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