O deserto nos contempla

Cometeram um assassinato em série hoje de manhã na minha rua. Uma quadrilha muito bem organizada e coordenada chegou logo cedo e fechou o trânsito com dois caminhões enormes e um bando de gente vestida de macacão e usando máscaras ou capuzes que cobriam todo o rosto, ficando só os olhos de fora. Ajustei meus óculos recém consertados e vi que alguns portavam máquinas mortíferas, dessas que se vêem em filmes de ficção, que disparam mil balas por segundo.  

De repente, ruídos de motores que pareciam ser de tanques de guerra ecoaram por toda a vizinhança. Abaixei-me na janela para não ser atingido. Quando, cuidadosamente,  levantei a cabeça, vi um homem de macacão, alto e forte, dentro de uma caixa na ponta de uma grua a 15 metros de altura e com aquele treco assustador na mão, acelerando e desacelerando o fatal instrumento.

Minhas pernas tremiam, chamei a família e disse: Meninas, vamos descer imediatamente porque aqui em cima não é seguro. Tem um cara na nossa janela cheio de má intenção.

E descemos do quinto andar ao térreo em tempo recorde. Normalmente, levamos uns dez minutos nos preparando para sair, botando meias, tênis, máscaras e outros artefatos hoje necessários para qualquer saidinha. E aquela não era uma saidinha qualquer.

Chegamos lá embaixo e vimos todo o estrago. A rua estava interditada. Um caminhão rugia e manobrava uma grua enorme que subia e descia, encolhia e se esticava, ia para a direita e para a esquerda, em busca do melhor lugar, o local preciso para o homem dentro da caixa desferir seus golpes mortais.

Em alguns minutos, duas portentosas árvores de belas copas frondosas perderam seus membros preciosos como se matam mosquitos a tapa. Galhadas enormes despencavam sobre o asfalto e as calçadas. E o homem dentro da caixa voava de um lado a outro, fazendo sinais para cima e para baixo e para um lado e para o outro, e o guindaste o enfiava no meio do arvoredo indefeso. Sem dó nem piedade, o homem devastou uma árvore e depois a outra, com uma ferocidade de estarrecer o mais experiente dos generais.

Minha rua era um campo de batalha desigual e covarde. Em pouco tempo, restou em pé somente o tronco portentoso das duas árvores, subtraídas de seus membros que se espalhavam pelo meio da rua.

E vieram os tiros de misericórdia. Laçaram os troncos com grossas cordas, puxaram o nó até o pescoço deles, onde se iniciam as bifurcações para as galhadas agora inexistentes, e um dos carrascos deu a volta em torno de sua base de meio metro de diâmetro enfiando-lhe a motosserra até o fundo. Depois de um minuto de agonia, o tronco balançou de um lado a outro e desprendeu-se do chão, suspenso pelo nó da forca. O guindaste alçou-o para cima do caminhão, onde depositaram o corpo morto e desmembrado. O mesmo fizeram com a segunda árvore.

Velhinhas que eu não sei de onde apareceram se achegaram aos carrascos. Pensei que iam chorar o arvoredo vilmente assassinado, pensei que iam gritar e protestar contra os ataques covardes sem direito de defesa das vítimas. Mas, que nada! Uma apareceu com uma garrafa térmica cheia de café quentinho para servir ao pessoal. Outra com um bujãozinho de água gelada e copos de plástico. E o que é que queriam aquelas velhinhas? Queriam levar para casa rodelas de madeira cortadas com perfeição pelos carrascos do arvoredo. Queriam também pequenos tronquinhos que os mesmos cortavam em pedaços de menos de meio metro para facilitar o transporte.

Elas queriam para banquinho em seus quintais…

Cheguei perto para a derradeira oração, pois árvores são seres vivos e todo ser vivo possui alma e merece compaixão por seu triste fim. Vi então que os troncos em cima do caminhão mortuário tinham enormes buracos no seu miolo. Estavam condenadas. Eram canafístulas com quase a mesma idade desta cidade, fundada há 87 anos onde aqui havia uma selva subtropical cheia de perobas rosas, jacarandás, maçarandubas, quaresmeiras, ipês de todas as cores e demais maravilhas da natureza. Londrina, no norte do Paraná, nasceu de dentro dessa floresta encantada e da qual restam uns poucos fragmentos em pé, aqui e ali.

Fiquei pensando no massacre que o governo federal promove na Floresta Amazônica para agradar seu eleitorado de madeireiros ilegais, posseiros, criadores de gado, plantadores de soja e garimpos igualmente ilegais. Li que foram 3.300 campos de futebol desmatados por dia nos mil dias de morticínio federal.

As árvores da minha rua são uma gota d’água no oceano da devastação. E estavam ocas por dentro. Era necessário abatê-las. Logo serão substituídas. Porém, as abatidas na Amazônia, saudáveis e vitais, são casos perdidos. Jamais poderão ser substituídas. E estamos nos aproximando rapidamente dos 20% de desmatamento, ponto em que a perda da Floresta será irreversível.

Do outro lado do Atlântico, o deserto do Saara nos contempla.

Nelson Merlin é jornalista aposentado, desocupado e assustado. 

Janeiro de 2022

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