Faz escuro

É possível que a imagem do russo desviando seu tanque do caminho, propositadamente, para passar por cima de um carro de um civil ucraniano – uma pessoa, um ser humano, um seu semelhante – entre para a História como uma daquelas tristes provas de que a humanidade, afinal de contas, talvez seja mesmo uma invenção que não deu certo.

Como as primeiras fotos após a chegada das tropas aliadas – vindas do Leste, americanas, inglesas, escocesas, canadenses, francesas, e do Oeste, o Exército Vermelho – aos campos de concentração nazistas, com a visão chocante, pavorosa, impossível, daqueles seres humanos transformados em farrapos, quase mortos-vivos.

Como aquela foto dos garotinhos vietnamitas após um bombardeio de napalm pelos americanos.

Como aquela do chinês solitário parando um tanque da Praça da Paz Celestial em Pequim, em 5 de julho de 1989.

E é louco pensar que o soldado chinês não passou por cima do compatriota solitário, mas o soldado russo não teve dúvida em jogar seu tanque sobre o carro do ucraniano.

Que tempos, meu Deus, que horror.

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Li em algum lugar – não vou conseguir me lembrar qual – que o avanço dos tanques do czar Vladimir Putin I sobre a Ucrânia foi a primeira invasão de um país sobre outro no continente europeu desde que os tanques de Adolf Hitler invadiram a Polônia, em 1º de setembro de 1939, o que marcou oficialmente o início da Segunda Guerra Muindial.

É uma bela comparação. Simbólica: Putin ataca como Hitler atacou.

Só que não é verdade.

Entre o Hitler de 1939 e o Czar Putin I de 2022, houve 1956 e 1968.

Em 1956, tanques do Pacto de Varsóvia, por ordem de Nikita Kruschev, invadiram a Hungria, para abafar uma rebelião que pedia liberdade. Em 1968, tanques do Pacto de Varsóvia, por ordem de Leonid Brejnev, invadiram a Checoslováquia, para abafar uma primavera que havia levado liberdade ao país e tentava criar um “socialismo de face humana”.

O Império Soviético – com o qual Vladimir Putin colaborou como oficial da KGB, a polícia política, a Gestapo deles – ruiu como um castelo de cartas sem que sequer um tanque tivesse que ser acionado. Os únicos tanques que se movimentaram em batalhas reais em solo europeu entre o esmagamento da Primavera de Praga e a invasão da Ucrânia agora foram em solo do que havia sido um único país, a Iugoslávia do Marechal Tito.

Sem o Marechal Tito, e sem o Império Soviético como a grande sombra, a Iugoslávia se implodiu em uma guerra, ou uma sequência de guerras, tão cruenta quanto as piores guerras tribais africanas.

E é louco pensar – de novo é louco pensar – que, desde a rendição da Alemanha nazista em maio de 1945, todas as guerras, todas as movimentações de tanques, todas as invasões aconteceram nos ex-países comunistas.

Os países do eternamente decadente capitalismo vão fazendo besteiras – como o Brexit, como as loucas disputas separatistas dentro da Espanha, como as eleições de radicais da extrema direita na Áustria, na Hungria, até mesmo na Itália – sem que sejam necessárias movimentações de tanques.

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Têm sido terrivelmente sombrios estes tempos que nos deram para viver.

Recep Tayyip Erdoğan. Viktor Orbán. Matteo Salvini. Donald Trump. Jair Bolsonaro.

Coronavírus.

Czar Vladimir Putin I.

É muita peste negra ao mesmo tempo. Voltamos à Idade Média, The Dark Ages.

Voltamos às cavernas.

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Fico tentado a registrar aqui, no meio desse desfile de horrores, a nota do PT no Senado, colocada no Twitter às 12h07 do dia 24 de fevereiro, o dia que já entrou para a História:

“O PT no Senado condena a política de longo prazo dos |EUA de agrewssão à Rússia e de contínua expansão da OTAN em direção às fronteiras russas, Trasta-se de políticas belicosa, que nunca se justificou, dentro dos princípios que regem o Direito Internacional Público.”

Fico tentado a registrar isso aqui, mas me angustio, fico em dúvida. Devo mesmo trazer isso à baila, no momento em que algo extremame grave está acontecendo, milhões de pessoas estão sofrendo na pele a invasão de seu país por tropas estrangeiras?

Me convenço, afinal, de que tenho que falar disso, sim.

Quase tão criminosas quanto as ações do Czar Vladimir Putin I contra a Ucrânia, o povo ucraniano, o povo russo que vai pagar pela guerra absurda, ilógica, sem sentido, são as posturas exibidas diante da guerra pelos dois autocratas que lideram as pesquisas eleitorais neste nosso país tão bonito por natureza e dotado de uma elite tão danosa e um povo tão pouco informado e formado.

A forma com que Bolsonaro e o PT de Lula – dois autocratas, admiradores fanáticos de Putin, mortos de inveja dele – reagem à guerra do atual czar é, assim como as imagens reunidas aqui, a demonstração de que vivemos no mais sombrio dos tempos.

26/2/2022

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