Assim Não, Né?

A bomba da semana explodiu na cabeça de Danilo Gentili, produtor do filme Como Ser o Pior Aluno da Escola, lançado há 5 anos e só agora notado pela tradicional família brasileira cristã bolsonarista, que pediu a sumária retirada dele dos canais de transmissão por “fazer apologia à pedofilia”.

Pedido feito, pedido aprovado pelo Ministério da Justiça.

Lançado em 2017, quando o produtor Danilo Gentili já despontava como cabo eleitoral de Bolsonaro (hoje é mais um madaleno arrependido), teve a devida aprovação dos órgãos competentes de Brasília com a classificação “permitido para maiores de 14 anos”. À época, bolsonaristas elogiaram o filme, como Marcos Feliciano, deputado federal e cristão raiz, que escreveu no Twitter: “Nunca ri tanto na minha vida”. Nesta última terça-feira, porém, depois do bafafá provocado pelo Ministério da Justiça, Feliciano apagou o post e justificou por que não se arrepiou com a cena do menino de 14 anos sendo assediado pelo bandido: diz que não se lembra desse pedaço e que nesse momento pode ter ido atender o telefone. Talquei, pastor!

Sobre o filme propriamente dito, não vou opinar para não gloriapiresar. Não vi, não sei, não tenho opinião formada sobre isso, mas também não vem ao caso. O que vem ao caso, e é muito grave, é a volta da censura tão temida nos duros anos da ditadura vividos entre 1964 e 1985. Naquele tempo, censores eram enviados às redações dos jornais, com suas “tesouras” em punho prontos pra cortarem trechos das matérias caso julgassem que as palavras revelassem algum atentado contra o regime. Reportagens acabavam perdendo o sentido com as tesouradas deles. Cada órgão de imprensa tinha seu jeitinho de mostrar que estava sendo censurado. Uns deixavam espaço em branco em substituição aos parágrafos ou palavras cortadas, outros colocavam poesias e até receitas culinárias, como fez o extinto Jornal da Tarde do Grupo Estado. Alguns leitores desavisados até reclamavam de que as receitas não vinham completas.

Não se podia mencionar nada que maculasse a imagem dos militares que ocupavam o cargo de presidente da República nesse período. Se o general Garrastazu Médici, por exemplo, tivesse passado uma semaninha de férias no Guarujá gastando R$ 130 mil por dia, a notícia no JT seria mais ou menos assim: “Presidente, em férias no litoral, gastou 2 xícaras de açúcar, 3 xícaras de farinha de trigo, leite, fermento e passou 5 dias pilotando uma forma untada com manteiga, enquanto a população estava a 180 graus por, aproximadamente,  45 minutos”.

Maus tempos que deveriam estar enterrados para sempre, mas a memória atávica de alguns adeptos do regime continua aí firme e forte, hoje até na voz do pau mandado, digo, ministro da Justiça Anderson Torres, que correu a pegar sua tesoura na gaveta para cortar o filme das telas.

Se ele fosse ministro em 1980 teria banido o filme Pixote de Héctor Babenco, que mostra um delinquentezinho de 11 anos que por um triz não comete o pecado original comendo a Pera.

Ou estaria atendendo a um pedido da Sociedade Protetora do Colesterol (se existisse uma) pra censurar o filme O Último Tango em Paris por fazer apologia à manteiga.

 

Essa atitude do ministro foi tão mal recebida pelo público que tem um controle remoto em casa que causou estupefação até no bolsonarento Abraham Weintraub, que publicou no twitter: ”PORNOGRAFICO é fazer ‘arte’ com nossos  impostos. Não vi e não quero ver o filme do Danilo (block). Deve ser ruim porém, garanto que há coisa pior feita com o dinheiro público. Além disso lançaram o filme em 2017 e só agora virou escândalo. Estranho…”

Se a gente continuar trilhando por esse caminho eu poderia pedir à Vigilância Sanitária para fazer uma desratização no SBT só porque não gosto do programa do Ratinho? Posso alegar que é de mau gosto, de baixíssimo nível e que presta um desserviço à população quando pede aos fãs que não assistam às notícias da guerra entre Rússia e Ucrânia: “O que você ganha com isso? O que vai mudar na sua vida? É bobagem”.

Não é por aí, cambada! A censura é inconstitucional desde que a liberdade abriu as asas sobre nós, graçazadeus.

ACABOUUU, ACABOUUU, ACABOUUU (leiam com voz de Galvão Bueno).

Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 18/3/2022. 

 

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