A carta

Costumeiramente estourado e boquirroto nas reações ao que o desagrada, o presidente Jair Bolsonaro amarelou diante da Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito, que em apenas três dias colheu mais de 400 mil assinaturas, e do manifesto da Fiesp, com apoio da Febraban, Fecomércio e outras entidades.

Em vez de espumar, como no 7 de setembro de 2021, quando desancou o STF e xingou o ministro Alexandre de Moraes de “canalha”, ou mais recentemente, ao convocar os seus para um “último ato” contra os “surdos de capa preta”, ele se limitou à ironia barata. Classificou o documento pró-Estado de Direito como “cartinha” e publicou sua carta-deboche no Twitter: “Por meio desta, manifesto que sou a favor da democracia”. Desespero puro.

A entrada em campo da sociedade civil – juristas, intelectuais, artistas, servidores públicos, professores, estudantes, etc – e a adesão veloz à carta que recupera a defesa do Estado Democrático de Direito, expressa há 45 anos nas mesmas arcadas da Faculdade de Direito da USP onde o documento será lido no próximo dia 11, somada à aliança com os pesos pesados do PIB, deixou Bolsonaro e a campanha bolsonarista de cabelos em pé. Mais até do que os números consolidados e inalterados da última rodada do Datafolha, que continua apontando a vitória do ex-presidente Lula no primeiro turno.

Até então, o QG de Bolsonaro mirava em fragilidades conhecidas, para as quais já havia desenvolvido algumas estratégias. Exacerbação do evangelismo e Michelle na veia para crescer no eleitorado feminino, adicional temporário de R$ 200 no Auxílio Brasil e duas cotas de vale-gás para tentar comprar o voto dos pobres. Mas ainda acreditava na fidelidade do capital que havia se hipnotizado com o hiperliberal canto da sereia de Paulo Guedes.

Todos na nau bolsonarista sabem que quando o capital muda de lado é porque o barco já afundou. Patético, o ministro das Comunicações Fábio Faria ainda bradava, na quarta-feira, que a Faria Lima continuava a torcer por Bolsonaro.

O naufrágio anunciado se deve ao péssimo timoneiro, que tem preguiça, enfado e noção alguma de como conduzir o navio. E de marinheiros em estado de rebelião permanente, que cobram altíssimo para manter o curso, deixando claro que serão sempre servis na outra embarcação quando essa soçobrar.

Assim como Collor de Mello, que bestamente convocou a nação a sair de verde amarelo em sua defesa e se viu enredado em um mar de gente vestida de preto para iniciar ali o seu impeachment, Bolsonaro se encantou com a insustentável ideia de popularidade. Seus milhões de seguidores nas redes sociais, gritos de mito, motociatas, o levaram a crer que tudo podia. E, ao patrocinar tantas barbaridades sem reação sólida, sua crença nesse poder ilimitado só cresceu.

Nestes três anos e meio não foram poucas as notas de repúdio às suas estultices e ameaças. Todas esquecidas no dia seguinte, ainda que muitas tenham sido vigorosas. A diferença agora é a união de forças.

Na história recente do país, mesmo quando os movimentos parecem nascer por inspiração popular, essa junção cria o ambiente político propício para que uma causa se torne vitoriosa. Foi assim com o processo de redemocratização – que amargou a derrota das Diretas-Já mas venceu no Colégio Eleitoral e na Assembléia Constituinte -, no expurgo de Collor, no afastamento de Dilma Rousseff, assombrada até hoje pelo gigantesco pato da Fiesp.

Bolsonaro, que até então assistia à dispersão e apatia, conseguiu a proeza de provocar a união civil contra si quando desancou o sistema eleitoral e a democracia brasileira na fatídica reunião com embaixadores, no Palácio da Alvorada, e ao reincidir no tema na convenção do PL, na qual, mais uma vez, se vestiu para a guerra. Hoje, suas apostas têm apenas duas vias: o dinheiro derramado sobre os pobres e a tropa que busca arregimentar contra as urnas.

Como eleição não se ganha ou se perde de véspera, Bolsonaro até pode conseguir renovar o seu mandato. Mas se já é rejeitado pela maioria – 53% segundo o último Datafolha -, agora ele tem um problema adicional quase intransponível: será dificílimo vencer a resistência democrática unida.

#EstadoDemocráticodeDireitoSempre

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 31/7/2022. 

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