Uma batalha de gigantes

A China foi o sujeito nada oculto da recentíssima ofensiva diplomática de Joe Biden. Em poucos dias o presidente americano arrancou uma dura declaração do G-7 contra os chineses, levou a Otan a considerar o país de Xi Jinping como uma ameaça à segurança dos países do bloco e os Estados Unidos a se reaproximar de seus aliados históricos, como a Inglaterra. A concorrência chinesa o impulsionou a pôr um fim no   contencioso de 17 anos entre a americana Boeing e a inglesa Airbus. Até mesmo o encontro com Vladimir Putin teve o objetivo de baixar a temperatura com a Rússia para focar no adversário principal.

Biden não chegou ao ponto de chamar a China de “Império do mal”, mas o clima é de uma nova guerra fria. Os chineses emergiram como segunda potência econômica mundial, ameaçando a hegemonia americana e pondo um fim na era do mundo unipolar, iniciada no começo+ dos anos 90, com o colapso do bloco soviético e o fim do Pacto de Varsóvia

A nova guerra fria difere da anterior em aspectos essenciais. Hoje a corrida não é nuclear, é tecnológica. Do ponto de vista econômico, a União Soviética não fazia sombra ao poderio americano, diferentemente da China de hoje.

A disputa deixou de ser entre quem tem o maior poder de destruir o mundo para ser entre quem ganhará a corrida da computação quântica e da tecnologia verde. A disputa pela ampliação das áreas de influência entre as duas potências já não se dá mais por meio de blocos militares e sim pelo “soft power”.

Os chineses com a sua nova Rota da Seda, construindo rodovias, ferrovias e cabos em outros países, e agora os Estados Unidos com o aceno do G-7 de investir bilhões de dólares em projetos financeiros de infraestrutura, “ambientalmente sustentáveis”. Não se sabe de onde virão os recursos, mas já há um nome para o programa: “Reconstruir para um mundo melhor”.

A mesma corrida acontece na pandemia, com a oferta de vacinas. Para contrabalancear o avanço da China nessa área, o G-7 se compromete a doar aos países pobres um bilhão de doses.

Não se trata de samaritanismo, mas da constatação de Biden de que só criticar a China é inútil. É necessário dar o exemplo para provar a superioridade do mundo ocidental em relação aos valores. O presidente americano segue o roteiro traçado ainda na sua campanha eleitoral para levar os Estados Unidos a liderar o mundo pelo exemplo.

É uma guinada de 180 graus na política desastrosa do “America First” de Donald Trump. No seu governo, os Estados Unidos enfraqueceram a Otan, asfixiando-a financeiramente, estimularam a guerra comercial e tributária. Joe Biden anuncia que a América está de volta, disposta a honrar seus compromissos financeiros com a Organização do Tratado Atlântico Norte e outros organismos multilaterais como a OMS e a ONU.

Como toda guerra fria, a nova versão tem também a disputa ideológica. No passado ela se dava entre o “mundo ocidental livre” e o comunismo. Agora, como afirmou a declaração dos líderes do G-7, é entre a democracia e o autoritarismo. Em certo sentido, Biden percorre o caminho de Jimmy Carter, que fez da defesa dos direitos humanos a bandeira para provar a superioridade moral do mundo ocidental. Daí a declaração conter denúncias de violações de direitos humanos de minorias e de trabalho forçado na China, de desrespeito as convenções da OIT e de concorrência desleal na economia.

Mas o pano de fundo é econômico e tecnológico. O isolacionismo de Trump permitiu a China avançar sua influência econômica nos quatro cantos do mundo. Os chineses hoje são os principais exportadores da infraestrutura para a telefonia móvel 5G, de turbinas eólicas e placas solares e lideram a corrida da tecnologia. Mesmo o acordo Boeing-Airbus tem como pano de fundo o fantasma da China. Sua estatal Aircraft Corp já entrou em testes de aviões concorrentes das empresas americana e européia.

Do ponto de vista militar, a China não faz sombra aos Estados Unidos, cujo orçamento bélico é quatro vezes superior ao do país de Xi Jinping. Mas os chineses vêm aumentando seu orçamento em 30% por ano, e hoje são uma força com presença no Mar da China, que os países do G-7 consideram uma ameaça. Principalmente ao Japão e a Taiwan, a ilha considerada uma província rebelde pelo regime chinês e um país independente pelos americanos. Os Estados Unidos ainda acusam a China e a Rússia de cometerem crimes cibernéticos contra países ocidentais.

O grande ponto de interrogação é saber até onde a União Européia e a Inglaterra estão dispostas a esticar a corda contra a China. O mundo hoje não está mais dividido em dois blocos rígidos e a Europa tem se beneficiado das relações econômicas com a China, país com fortes investimentos na Inglaterra, Alemanha, Itália e França. Seus líderes adotaram uma postura mais moderada do que a de Joe Biden logo após a reunião do G-7. Possivelmente a União Europeia buscará obter vantagens nessa disputa.

Se não descambar para uma corrida armamentista que ponha em risco a paz mundial ou de regiões, a nova guerra fria poderá beneficiar países em desenvolvimento como o Brasil, sobretudo se não adotarem um alinhamento automático com nenhum dos dois polos e se pautarem pelo pragmatismo e pela defesa de valores como a democracia e os direitos humanos.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 23/6/2021.

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