Sudoku!

Nesta tarde fria e chuvosa de primavera (primavera?) resolvi jogar Sudoku em vez de escrever o texto da semana.

Comecei pelo nível fácil e levei ou pouco mais de 5 minutos pra resolver. Me entusiasmei que nem o Paulo Guedes e parti logo para o nível Expert.

Me ferrei da mesma forma que ele!

Passados 15 minutos eu só tinha fechado uma casa e, de novo, me lembrei dele.

Parece que com o ministro da Economia a coisa tem andado meio assim também.

Quando assumiu o cargo, em janeiro de 2019, Paulo Guedes começou preenchendo o sudoku que ele considerava ser de nível fácil. Chegou querendo resolver logo o jogo implementando os “pilares da nova gestão”: Previdência Social, privatizações e simplificação de tributos.

Mas até agora não avançou de nível, e, de falácia em falácia, já está há mais de dois anos dizendo que a Economia está “decolando”, embora os números mostrem uma realidade bem diferente.

Em março deste ano, chegou a dizer em entrevista: “Eu entro no supermercado e as pessoas me agradecem. Às vezes falam ‘Olha nós rezamos pelo senhor. Estamos sentindo o que o senhor está fazendo por nós’.”

Aí hoje leio uma nota em que o decadente Posto Ipiranga declarou a aliados que tem medo de ser agredido nas ruas por populares ou quando estiver num supermercado.

Sentiu que ninguém mais acredita no seu blá-blá-blá, ministro?

Além de o povo não conseguir mais encher seu carrinho – nem mesmo uma cestinha – não consegue mais “ir pra Disney”, não consegue emprego, não tem como pagar aluguel, contas de água, de luz, não tem como comprar gás de cozinha (ultimamente não tem sido muito necessário mesmo. As pessoas nem têm o que cozinhar), o preço da gasolina nas alturas.

***

Quando assumiu o cargo, Paulo Guedes soltou frases de efeito que valem a pena serem lembradas para mostrar que, como em qualquer jogo, os obstáculos não são alcançados só com palavras. É preciso planos elaborados, persistência, e, sobretudo empenho para que se consiga o intento. Vamos às mais impactantes:

  1. O descontrole da expansão dos gastos públicos é o “mal maior” da Economia brasileira. (Tá aí agora torcendo pro Senado aprovar a PEC do Calote e furar o teto de gastos.)
  2. O Brasil foi corrompido e parou de crescer por excesso de gastos. (O que mudou de lá pra cá, ministro?)
  3. O governo vai “libertar” os jovens que queiram trabalhar por meio da carteira de trabalho “verde e amarela”. (Se alguém tiver notícia de algum desses jovens aí trabalhando, por favor, nos conte.)
  4. O Estado gasta mal e transfere dinheiro para privilégios. (Verdade verdadeira. Só de cartão corporativo dava pra cobrir vários rombos da Economia.)
  5. “Piratas Privados” e “criaturas do pântano político” se associaram contra o povo brasileiro. (Por um momento achei até que a frase fosse de hoje.)
  6. O Brasil deixará de ser o “paraíso dos rentistas” e o “inferno dos empreendedores”. (Paraíso dos rentistas hoje só os paraísos fiscais, bem longe dos pesados impostos daqui, né PG?)
  7. O mecanismo de inclusão social são as economias de mercado. (Nos dias de hoje a única “inclusão” que se tem visto é a do povo nos caminhões de ossos em porta de açougue.)

***

Viu como é difícil jogar Sudoku, especialmente quando os números se referem à Economia, ministro?

Achava que passar do nível Fácil para o Expert era pra qualquer um, que era só perguntar no posto Ipiranga que matava o jogo?

Se enganou, meu bem. Sua tática não só não deu certo como agora tem de se esconder atrás da bomba.

Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 12/11/2021. 

Ilustração A Bula do Mercado.

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