Sem militares não há ditadura

Toda e qualquer ditadura é militar. Não existe ditador civil, de esquerda ou de direita, sem apoio das forças armadas.

O governo do esquerdista e civil Nicolás Maduro somente ainda se mantém de pé graças à proteção das forças armadas, assim como foi o caso do seu antecessor, coronel Hugo Chaves. Em troca desse apoio, os dois encheram os militares venezuelanos de privilégios.

Fidel Castro nunca teria se eternizado no poder se não tivesse feito o mesmo.

Em ditaduras de qualquer orientação ideológica é comum os militares receberem do governo salários generosos, terem à disposição supermercados, escolas, farmácias e hospitais exclusivos, como acontece na Venezuela. Não há prateleiras vazias para militares que apóiam ditaduras. Dificilmente eles são atingidos por eventuais crises ou fracassos econômicos do regime. Por isto se mantêm fiéis ao governo, a despeito de testemunharem eventual sofrimento de seus compatriotas com a escassez de alimentos e remédios.

Na ditadura de 1964, nomeações de militares para ministérios, presidências de estatais e outros cargos importantes foram fortes argumentos para que o regime fosse sustentado no Brasil por duas longas décadas.

Pouco importa se o ditador veste ternos no lugar de fardas. Golpe de estado só acontece com mobilização militar.

Na primeira metade do século XX, a América Latina passou por uma onda golpista que instalou ditaduras civis de direita em quase todos os países.

Os dois mais importantes líderes autoritários dessa época, Domingos Perón, na Argentina, e Getúlio Vargas, no Brasil, passaram pela vida nos quartéis antes de entrarem para a carreira política como civis.

Após assumirem o governo, Perón via eleições, e Getúlio liderando um governo provisório, ambos foram aos poucos acabando com as liberdades democráticas.

Os dois deram autogolpes, com apoio dos militares, subjugando o Congresso, o Judiciário, a imprensa e reprimindo qualquer tipo de oposição.

Mas o oportunismo deles nunca os deixou limitados à posição política exclusivamente de direita.

Tanto o peronismo quanto o getulismo eram conservadores, ferrenhamente anticomunistas e, de certa forma, identificados como parentes próximos do fascismo de Mussolini.

Como bons populistas, Perón e Getúlio se aproximaram bastante dos sindicatos. Além de apoio popular, buscavam também evitar a influência comunista sobre os trabalhadores.

Após a derrota do nazifascismo na II Guerra, e a perda de prestígio das ditaduras de direita, Perón e Getúlio chegaram a ser depostos pelos próprios militares.

Mas tinham grande faro político: deram uma pirueta ideológica, reciclando o mesmo discurso trabalhista, porém com um tom bem mais à esquerda. Anos depois, chegaram novamente ao poder vencendo eleições.

Mais tarde, durante a Guerra Fria, principalmente nos anos 60 e 70, a América Latina sofreu sua maior onda de golpes militares, com generais de direita assumindo o poder diretamente em quase toda a região.

A grande exceção foi a ditadura Cubana, onde o “Comandante” Fidel Castro era civil, advogado e aderiu ao comunismo. Castro foi guerrilheiro, mas não um militar. No governo, contudo, ele se apresentava fardado em público. Curiosamente, nos últimos anos de governo, para espanto de muitos, Fidel passou a usar também como “uniforme” um agasalho da capitalista Adidas.

Mais recentemente, a partir dos anos 90, surgiram na América Latina regimes autoritários esquerdistas, apelidados de “bolivarianos”. Inspirados em Hugo Chávez, contaram igualmente com a indispensável sustentação militar.

Na época, uma das poucas ditaduras de direita na região era a de Alberto Fujimori, um civil, engenheiro agrônomo, que venceu as eleições no Peru em 1990. Fujimori deu, em 1992, um autogolpe de fazer inveja a Jair Bolsonaro. Com apoio das forças armadas, dissolveu o Congresso, fechou o Judiciário, o Ministério Público e controlou a imprensa.

É assim que as coisas acontecem também na Ásia, na África e onde mais existirem ditaduras.

Quando os generais não ocupam diretamente a Presidência, o poder ditatorial é de qualquer forma compartilhado com as altas patentes das forças armadas, que assumem a cargos importantes.

Não existe ditadura civil porque a fonte do poder autoritário é sempre a força. Poder sustentado pelo voto e pela Constituição, somente nas democracias.

A novidade é que cada vez menos os ditadores do século XXI sobem ao poder por meio de golpes militares tradicionais. Agora eles preferem ir devorando a democracia pelas beiradas. Hoje em dia, líderes populistas autoritários tanto de esquerda quanto de direita, têm conseguido chegar ao poder vencendo eleições. Mas logo em seguida arranjam pretextos para perpetrar golpes militares e fechar as instituições democráticas.

Políticos extremistas, como Bolsonaro, por exemplo, não toleram críticas da imprensa, nem da oposição. Muito menos a divisão tripartite do poder com o Judiciário e o Legislativo. Odeiam a rotatividade típica das democracias. Por isto, nunca se conformam em ter que deixar o governo no final dos seus mandatos, o que torna impossível admitirem perder eleições.

Os novos autocratas, de qualquer viés ideológico, como Putin, Maduro, Daniel Ortega ou Erdogan, conseguem permanecer no poder com mandatos praticamente vitalícios. Para isso, realizam eleições de cartas marcadas, colocando antes os adversários mais fortes na cadeia ou no exílio. Com a imprensa sob censura e a justiça sob controle, “vencem” seguidas eleições com uma impressionante vantagem sobre os desconhecidos adversários que ele praticamente escolhem para enfrentar.

Bolsonaro sempre demonstrou enorme desejo de reproduzir no Brasil o modelo chavista, controlando Judiciário, Legislativo, imprensa e inviabilizado a existência de qualquer oposição, com apoio dos militares. Já se declarou publicamente admirador de Hugo Chaves, na época em que seu ídolo conseguiu consolidar a ditadura na Venezuela.

Por sorte, o panorama aqui é um pouco diferente: nosso candidato a ditador não passa de um trapalhão com problemas cognitivos, sem prestígio com os comandantes militares da ativa, ao passo que as instituições democráticas brasileiras têm se mostrado bem mais sólidas do que as dos países onde autocratas conseguem se eternizar no poder.

 

 

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