“Por que tantos brasileiros endeusam louros?”

O site Quora, criado nos Estados Unidos e atualmente publicado em diversas línguas, inclusive o Português, se propõe a responder a dúvidas das pessoas – qualquer tipo de dúvida, pergunta, questão. Tem de tudo no site, é claro; há perguntas sérias, sobre assuntos importantes, pertinentes – e há muitas que Millôr Fernandes certamente adoraria colocar no Ministério das Perguntas Cretinas que criou na revista O Cruzeiro.

“Xeque-mate pode ser falsificado?” era uma das que o genial humorista fazia, segundo lembrou há algum tempo o jornalista Carlos Brickmann, ele mesmo, como Millôr, um dublê de sujeito seriíssimo e de um infernal gozador.

(A resposta era: “Com a vantagem de que o sujeito não acaba no xadrez. Já está”.)

O Quora, essa bela invenção que às vezes parece uma versão eletrônica do Ministério das Perguntas Cretinas do Millôr, é um empreendimento colaborativo: as pessoas interessadas podem se inscrever e passar a responder às questões formuladas pelos leitores. Luiz Carlos Toledo Pereira, um talento nato para o texto e para jornalismo que passou muito tempo da vida afundado em números, como auditor da Receita Federaol, tem dedicado parte de seu tempo, hoje em dia, respondendo a perguntas no site Quora.

Diante da pergunta “Por que tantos brasileiros endeusam loiros? E colocam loiros como superiores acima da própria etnia?” – que tem até algum ponto de contato com a realidade, mas roça perigosamente na bobagem do Ministério criado pelo Millôr, Luiz Carlos saiu-se contando para o leitor a história da sua família.

É uma absoluta delícia – uma saborosa, brasileiríssima esculhambação, para usar o termo que ele usou.

É a mais perfeita comprovação de uma das coisas em que mais acredito na vida: miscigenação é a maior maravilha que pode haver. Mestiço is beautiful! Ou, como diria o Karnak, a alma não tem cor.

Senta que lá vai a história do Luiz Carlos. (Sérgio Vaz)

Por que tantos brasileiros endeusam loiros? E colocam loiros como superiores acima da própria etnia?

O Brasil é uma esculhambação. Eu sou moreno numa família cheia de loiros, morenos e negros.

Os loiros, loiras e demais branquelos da minha família têm uma especial atração pela cor negra.

Na família do meu pai, que era loiro, só a minha tia mais nova tem cabelos pretos, entre os nove irmãos. Casaram-se com gente de vários tons de pele, mas não exatamente com negros.

Já na família da minha mãe, que era morena, alguns dos dez irmãos e irmãs são loiros. Na geração seguinte, começaram a se tornar frequentes os casamentos com pessoas negras.

Meu irmão Fernando, que, quando garoto, era chamado pelos colegas de Rato Branco, teve filhos loiros e morenos. Três netos dele são loiros, quatro têm cabelos escuros e um é negro.

Negro, não moreno, ou de aparência mestiça, mas negro igual ao pai dele, que se casou com a minha sobrinha.

Na foto abaixo, o Rato Branco com o genro e o neto João:

É esta é a Elisa, neta do Rato Branco, priminha do João:

Dos seis filhos do meu tio Elson Fuchs, de origem austríaca, dois rapazes e duas moças se casaram com negros. Tio Elson ia todos os dias à padaria acompanhado de netos negros e loiros. Muitos perguntavam se os meninos negros eram adotados e se espantavam ao ouvir que não.

Veja que esculhambação: meu sobrenome é Toledo por causa de um episódio de racismo.

O francês que era meu antepassado do lado materno não aceitou o casamento do filho com a minha futura bisavó Marcelina. Ela era mestiça de espanhol com negro.

Como se não bastasse a lenda familiar sobre a fuga de uma donzela com um escravo. Ou seja, a esculhambação já tinha começado no século XIX.

O francês tinha dinheiro e ameaçou deserdar o rapaz. O loirinho teimou e se casou com a Marcelina assim mesmo.

O filho deles, meu avô Sandoval, descobriu mais tarde que era o novo herdeiro porque o papai havia sido deserdado por ter ousado se casar com a mamãe.

Ora, o que fez então o vovô Sandoval, tão teimoso quanto o pai?

Renunciou à herança, retirou o sobrenome francês e engajou-se na Marinha, apresentando o sobrenome Toledo, da mãe. Mais tarde, fugiu do Nordeste para o Rio de Janeiro, levando a mãe e a irmã mais nova, Juliette, que manteve o sobrenome francês.

Casou-se depois com a vovó Nina, descendente de italianos. Para completar a mistura, ambos absorveram muito da cultura portuguesa no Rio de Janeiro.

Vovô Sandoval passou a vida inteira educando filhos e netos contra o racismo, numa época em que essa atitude ainda era bastante incomum.

O resultado é quantidade de primos e primas do meu lado materno casados com negros.

Só a família do meu pai é mais branquela, meio avermelhada. Talvez sejam descendentes de judeus holandeses, pois são de uma região do agreste pernambucano que, no passado, serviu de refúgio para uma colônia deles.

Mas meu pai sempre se indignou contra o racismo. Anos atrás, quando o racismo era muito mais declarado, algumas vezes o vi sendo ríspido com alguém, ao defender algum amigo de brincadeiras ou piadas racistas.

Por que eu sou pobre? Meu avô Sandoval não gostava mesmo de dinheiro.

Além de renunciar à herança do francês, ele renunciou a uma indenização em dólares da Marinha americana.

Antes de se casar com a vovó Nina, participou no Caribe de uma manobra conjunta da Marinha brasileira com a americana e as de outros países, nos primeiros anos do século XX.

Ocorreram incêndios em alguns dos navios.

Como ele fazia parte de um grupo que se opunha ao governo brasileiro, foi acusado de sabotagem e ficou quase dois anos preso numa prisão militar na Filadélfia. Provavelmente o fato de ele ter cabelos ondulados, um moreno de olhos azuis aqui, mas talvez negro para os padrões americanos, tenha ajudado na prisão.

Li as cartas que ele mandava da prisão militar nos EUA para a minha futura avó, escritas com caneta tinteiro. Eram todas muito formais, chamando-a de senhorita. Prometia se casar com a senhorita que havia conhecido numa festa na Capitania dos Portos de João Pessoa e depois se mudar com ela para o Rio de Janeiro. Não queria mais nenhum contato com o avô racista.

Após acontecerem outros incêndios em navios de guerra, os americanos descobriram que tudo não passava de um defeito numa parte elétrica das embarcações.

Mas o vovô Sandoval, revoltado com os dois anos de prisão, mandou os americanos enfiarem os dólares da indenização no…, digamos, na chaminé do navio. E saiu da Marinha.

Ficamos sem a herança do francês, sem os dólares da indenização dos americanos, mas as fotos da minha família são sempre uma brasileiríssima mistura de cores.

Nas brincadeiras de família, às vezes alguém lembra que é uma verdadeira esculhambação, em vez de ricos e racistas, termos ficado pobres, sem herança, graças à atração que os nossos loirinhos e loirinhas têm pelos negros, tradição iniciada ainda no século XIX.

Outubro de 2021

 

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