Poço sem fundo

Em mais uma afronta à Constituição, o Congresso Nacional aprovou o orçamento do ano que vem com uma maçã podre colocada na última hora pelo governo federal que certamente vai contaminar o cesto inteiro. O aumento salarial discriminatório para a Polícia Federal já está produzindo um estrago de bom tamanho na Secretaria da Receita Federal, que terá seus recursos cortados para bancar o aumento dos policiais. Vem mais por aí, a lambança mal começou.

Temos no Brasil um governo que não governa para a nação, como reza a Constituição, mas para grupos específicos que são de seu interesse político, ideológico e eleitoral. Isso vai do que o presidente da República ouve no cercadinho do Alvorada até o orçamento secreto, o Auxílio Brasil e outras ferramentas desenhadas para arrancar votos por vias ilegítimas e nada republicanas. O orçamento secreto, por exemplo, deixa o velho mensalão do PT no chinelo em matéria de corrupção e malversação de fundos públicos. Um esquema de suborno explícito de parlamentares em troca de votos para o governo, à luz do dia, sem nenhum pudor.

Esses instrumentos já estavam sendo usados. O esbulho não é de hoje. A novidade agora é que dessa vez Governo e Congresso Nacional se deram as mãos para arrombar os cofres da nação em proveito próprio e assim, entre outras benesses, tentar reeleger o atual inquilino do Alvorada e, de cambulhada, os parlamentares da base alugada. Nos seus delírios de perpetuidade, essas duas partes sonham com mais quatro anos de delícias no poder.

Mas, com as entregas de cargos de chefia em massa que já estão acontecendo na Receita Federal, o tiro está pintando como um daqueles que sai pela culatra e acerta o meio dos olhos do atirador. Ou, na melhor das hipóteses, o próprio pé. Se isso for do agrado da Polícia Federal, não vai sair barato no restante do serviço público federal. Estamos à beira de uma greve nacional dos auditores fiscais, o que terá reflexos catastróficos tanto nas exportações como nas importações e no dia a dia da população. Não teremos só uma crise dentro do aparato estatal, mas também um colapso econômico de proporções gigantescas, com mais inflação lá na frente, mais juros, menos renda, mais desemprego.

O efeito esperado na arrecadação de votos pinta ser o inverso do desejado. Em vez de uma chuva de votos, uma chuva de ovos podres. E não porque a oposição seja esperta, tenha olhos de águia e seja um extremo de competência. Mas porque o governo é tapado, não enxerga um palmo na frente do nariz e esbanja incompetência por toda parte. Com tais predicados, este governo não precisa de oposição para ser jogado ao poço sem fundo da História. Ele mesmo se lança no buraco negro e vazio.

Para mal dos brasileiros, estamos com um 2022 pela frente pior do que 2021, que foi pior do que 2020 e assim por diante, para trás. Pode-se acompanhar a espiral descendente observando os gráficos de desempenho econômico capenga, de política ambiental criminosa, de índices educacionais canhestros ou de ações de saúde premeditadas para promover a morte em massa de infectados pela covid-19, boicotando vacinas e empurrando goela abaixo da população desinformada kits de remédios para piolho e lúpus.

Esta não é a mensagem que eu gostaria de deixar para o Natal de 2021 e o Ano Novo de 2022 aos poucos que lêem estas mal traçadas. Mas fazer o quê? Deixo aos abobados as peneiras para taparem o sol. Aos de bem que queiram pensar, prefiro antes o verdadeiro ao falso. De qualquer forma, um feliz Natal e próspero Ano Novo.

E se conseguir chegar vivo ao final, parabéns.

Nelson Merlin é jornalista aposentado, desocupado e cético. 

Dezembro de 2021

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