O exército não deve lealdade a Pazuello

O ex-ministro Eduardo Pazuello pode adotar duas estratégias na CPI da Covid. A primeira é fugir da raia, por meio de uma decisão judicial para sustar seu depoimento na próxima semana, com o pretexto de que não pode produzir provas contra si mesmo por ser alvo de investigação no Judiciário. Caso não logre êxito, sua linha de defesa será ligar sua imagem à das Forças Armadas, sob o argumento de que estava em missão agregada. No limite, poderá ir fardado à CPI, gerando enorme desconforto na cadeia de comando do Exército.

Os objetivos com tal atitude são óbvios. De um lado, indispor a Comissão Parlamentar de Inquérito com os militares, numa atitude claramente intimidatória, e, de outro, provocar uma onda de solidariedade e de indignação nos quartéis, apropriando-se de valores caros ao meio militar, como a lealdade, a camaradagem e o compromisso de não deixar para trás um companheiro abatido no campo de batalha.

Ao alegar que cumpria uma missão por observância aos princípios da hierarquia e a disciplina, pilares de qualquer Exército do mundo, Pazuello “socializa” a responsabilidade pelos crimes cometidos como ministro da Saúde, transferindo-a para a instituição.

O ex-ministro não cumpria uma missão militar e sim uma função civil. Não era obrigado a aceitá-la e poderia se demitir a qualquer hora. O mote “um manda outro obedece” vale para as relações hierárquicas no mundo castrense. No universo civil a relação é outra e há sempre o recurso do pedido de demissão quando não se concorda com uma ordem. Nesse caso as relações se estruturam nos princípios da confiança e da concordância e não nos da disciplina e da hierarquia.

Quem se sentará na cadeira da CPI não será o general, mas o civil Pazuello, na condição de ex-ministro da Saúde.

Há uma inversão de valores quando cobra solidariedade e lealdade da instituição a qual jurou defender. Vale aqui a expressão do ex-comandante do Exército Edson Pujol, que teria dito: “Pazuello, quando o Bolsonaro lhe proibiu de comprar vacinas, você deveria ter pedido demissão. Obedecendo, você se ferrou e nos ferrou junto”. Para Pujol, portanto, foi Pazzuelo quem prejudicou o Exército quando obedeceu servilmente a Jair Bolsonaro, cancelando, em outubro do ano passado, o protocolo para compra da vacina Coronavac.

Ferrou sucessivamente, provocando um estrago imenso na imagem dos militares. E ignorou solenemente os apelos do então comandante Pujol para que passasse para reserva se quisesse continuar como ministro.  Agora, o novo comando do Exército já mandou o recado de que desmentirá Pazuello se na CPI ele usar o argumento que estava no ministério para cumprir uma missão agregada.

Esse cargo foi a face mais visível da hiperbolização da presença de militares da ativa no governo Bolsonaro. Já em 1933, o capitão Humberto de Alencar Castelo Branco pregava, em artigos publicados na Gazeta do Rio com o pseudônimo de “Coronel Y”, que oficiais da ativa deveriam passar para a reserva quando ocupassem cargos de governo. Só assim ficaria nítida a linha divisória entre Forças Armadas, uma instituição permanente, e governos que, por sua natureza, são transitórios.

Um dos valores mais sagrados dos militares é o compromisso com a verdade. Não se admite a mentira. Pois bem, Pazuello mentiu várias vezes. A mais recente quando usou de artifício para não depor na CPI, na quarta-feira passada. Mais grave, induziu seu superior hierárquico, general Paulo Sérgio, comandante do Exército, a avalizar sua versão para fugir da CPI. Não se culpe o comandante, mas sim quem o fez errar.

Tampouco se aceita a covardia no meio militar. O ex-ministro tem se revelado um covarde, que treme diante a possibilidade de sair preso da CPI por sua inépcia, omissão no combate à pandemia e subserviência às ordens do presidente. Pazuello não foi abatido em campo de batalha. Foi abatido, ora por omissão, ora por participação ativa, na tragédia que já vitimou mais de 425 mil de brasileiros.

Poderia ser diferente se ele tivesse a altivez de defender a vida ou se renunciasse ao cargo para não avalizar uma política errática, negacionista, irresponsável. A ele, portanto, não se deve nenhuma solidariedade. O Exército de Caxias, da mão amiga e do braço forte, não pode ter lealdade com quem comete desatino de tamanha dimensão.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 12/5/2021. 

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