Maria Helena

Boa noite, minha minina.

A voz rouca, com sotaque e carinhosa, do outro lado da linha do telefone – sim, falávamos, falávamos muito ao telefone, sem essa de zap ou outro meio, apenas atentas aos minutos e ao custo dos interurbanos – já era um alento. Significava que ela estava com vontade de falar mesmo já sendo até um pouco mais tarde na noite.

Para ela, insone até uns tantos, era cedo. Dormia tarde, acordava tarde, e pronto. Ligava, ou com saudades, ou na hora de perguntar o que eu estava achando sobre isso ou aquilo que leu ou ficou sabendo. Há alguns meses parou de escrever seus artigos até para o Noblat, artigos bárbaros das sextas-feiras, que ela generosamente dividia também comigo e aqui, com os amigos Servaz e Mary Zaidan. Mas a primazia, sem discussão, era do Ricardo Noblat, por quem ela curtia uma especial afeição, acima de um tudo. Ai de nós se publicássemos antes!

Se ela estava triste, e era bem fácil notar isso, eu fazia graça, contava uma piada mais forte, falava um bom palavrão e tinha a certeza de que quando desligávamos ela estaria melhor, que uma gargalhada sempre ajuda.

E o que a deixava triste era a condição econômica, ter muito pouco, esperar os que não pagavam o também pouco que ela recebia dos direitos de Adoniran Barbosa, o paizão. Tinha horror de ficar devendo. Nada podia faltar ao filho, Armandinho, que cuidava e protegia como o seu cristal, companheiro.

Maria Helena, a propósito, escrevendo sobre você agora, que entendo o que senti ao saber de sua morte, esse soco profundo em meu estômago, o enjoo imediato, a cabeça fervendo. Você tinha enorme importância para mim, fazendo parte, mesmo estando longe e, na verdade, termos nos encontrado pessoalmente não mais do que apenas três vezes, e mesmo assim você ter me confiado até representá-la em eventos de homenagem ao seu pai. Não sei há quantos anos, muitos, nos conhecemos, nos falamos, trocamos mensagens, verdadeiras cartas. Lembrei hoje que foi como leitora de meus artigos nosso primeiro contato, do qual nunca mais nos largamos. A partir daí, semanalmente esperava ansiosa seu comentário a cada um que publicava.

Nos últimos tempos essa minha amiga parou de escrever. Perguntei e ela me disse que essa gente toda de desgoverno e arredores a deprimia. Preferia ficar quieta. Não gostei nada de ouvir isso, antevendo ali um caminho difícil, já que sua saúde abalada já lhe trazia muitos impedimentos.

Nossa última conversa foi agora no dia de seu aniversário, dia 23 último. Fiquei atrás dela o dia inteiro até que me atendesse, essa que quando queria ser ranzinza não sobrava pra ninguém.

Demos risada como sempre, falamos mal do governo e de umas pessoinhas por aí, como sempre. Como sempre trocamos nossas juras de carinho.

Boa noite, minha minina Lelê.

p.s.: meu irmão ficou mudo quando disse que você havia partido. Nunca esquecerá os momentos que passamos juntos aqui em São Paulo, e todo seu carinho por ele.

8/10/2021

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