Maria Alice

Maria Alice não era apenas a mais velha dos três filhos da Dona Aparecida e do Seu Milton: era a mais velha de todos os daquela turma de amigos que me recebeu de braços abertos quando cheguei a São Paulo, aos 18 anos, sem a menor idéia do que iria fazer da e na vida.

Não que fosse muito mais velha que eu. Tinha só meio ano a mais, vejo agora. Mas todos na turma eram também mais jovem que eu – Rita, a caçula da Dona Aparecida, Cleonice e Derci, duas das cinco filhas da Dona Elza e Seu Cézar, Suely e Sandra, as duas filhas da Dona Diva e Seu Antenor, a Cidinha, o Luís… O Zé Roberto, o filho do meio, entre Maria Alice e Rita, e o Anderson, esses regulavam comigo.

Essa turma se reunia basicamente ou na casa da Cleonice e Derci, na Rua Pilar, pouco abaixo da Praça Cruz da Esperança, o ponto final do trólebus, ou na casa da Maria Alice, Zé e Rita, pouco acima, bem perto da Avenida Casa Verde, acho que Rua Chaporã.

E aí que está: para todos eles (e acabou ficando assim pra mim também), a Maria Alice era mais velha – era a que enchia o saco da moçada pedindo pra não haver bagunça.

Pode haver coisa pior para adolescentes entre 15 e 18 anos do que uma irmã e/ou amiga mais velha pedindo pra não bagunçar, não falar alto demais, não botar música alto demais, tomar cuidado com os enfeites, não quebrar isso e aquilo – e não exagerar na cerveja?

Vou guardar para sempre essa imagem da Maria Alice na turma dos meus primeiros amigos paulistanos: a mais velha do pedaço, a que pedia pra moçada baixar um pouco a bola.

Os irmãos enchiam as orelhas dela, a chamavam de mãezinha – um qualificativo tenebrosamente ofensivo, em 1968.

Maria Alice não se irritava com aquilo. Continuava a pedir que a gente não bagunçasse demais.

Na verdade, eu nunca vi Maria Alice irritada, nervosa, brava. Nem uma única vez.

Já era, então, e continuaria sempre, a vida inteira, uma pessoa centrada. Calma. Sensata.

Sensata. Acho que o adjetivo que mais se encaixa em Maria Alice é este. Maria Alice era a sensatez em pessoa.

E agora, enquanto escrevia, me ocorreu por que na verdade Maria Alice me parecia mais velha que eu, mais do que míseros seis meses: é que, aos 18 anos, eu era o oposto dela. Eu era a insensatez em pessoa. Mas isso não importa – até porque depois melhorei um tanto.

(Na foto, feita no aniversário de 16 anos da minha filha, Maria Alice e Renata.)

***

Maria Alice fez tudo na vida com a sensatez que eu jovem não tinha. Assim criou os dois filhos, Rafael e Renata, assim enfrentou a separação – com calma, serenidade. Assim foi funcionária concursada e dedicada na Secretaria Estadual de Saúde a vida inteira.

Não convivemos muito de perto, ao longo destas várias décadas que vieram depois daqueles encontros semanais na casa dela ou na casa da Cleo e Derci. Mas também nunca deixamos de nos ver. Vez ou outra a gente sempre se encontrava. Afinal, viramos meio parentes, já que Maria Alice é tia dos dois irmãos da minha filha.

Ah, sim, porque aquela turma da Casa Verde, assim como tantas turmas de adolescentes, teve uma história algo parecida com a quadrilha do Drummond, e então eu casei com a Suely, que já tinha tido uma paixonite pelo Zé Roberto, que casou com a Cleonice, irmã da Derci por quem eu tinha tido uma paixonite, e depois que a Suely me deu a Fernanda nós nos separamos e ela se casaria com o Zé, a quem deu o Gabriel e o Lucas, irmãos da Fernanda, sobrinhos da Rita e da Maria Alice e tios da Marina.

E então, sempre que nos víamos, ao longo destas décadas todas, nas festas, nos aniversários – e nos enterros também –, eu ficava impressionado como Maria Alice estava a mesma: suave, centrada, calma, sensata. E com um sorriso tranquilo e lindo.

Alguns poucos anos atrás, aconteceu de Maria Alice voltar a ser vizinha da Dona Diva, a mãe da Suely, bisa da Marina – e foi num período em que a Dona Diva enfrentou uma barra pesada com um vizinho louco. Maria Alice deu a maior força possível e imaginável a ela.

Àqueles adjetivos todos – suave, centrada, calma, sensata, sorridente – é preciso, é forçoso acrescentar mais um: solidária.

(Na foto, de 1994, Rita, Dona DIva, Maria Alice e Dona Aparecida.)

***

Maria Alice da Silva, minha amiga distante mas querida, partiu hoje. Um câncer fulminante, descoberto apenas uma semana atrás. Diferente do que havia acontecido com sua cunhada Suely, sua amiga Sandra, sua amiga Derci.

Partida repentina, inopidada, inesperada é ainda mais dolorosa para quem fica. Pega a gente inteiramente despreparado.

Para quem vai, ah, meu Deus do céu, que maravilha. A morte sem sofrimento comprido, que não acaba nunca. A morte digna, sem humilhação.

Deus deu a ela o maravilhoso presente da morte rápida.

Merecidíssimo. Maria Alice sempre mereceu tudo de bom.

11/7/2021

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