Há muito mais mortes pela pandemia onde Bolsonaro venceu

Ao tomar a votação no segundo turno de 2018 como um indicador da propensão dos habitantes de um município a seguir os péssimos exemplos e orientações do presidente Bolsonaro, vemos o que se espera: a taxa média de mortalidade por covid nos municípios onde Bolsonaro ganhou é 50% maior do que a média nos municípios onde perdeu.

Caso os municípios onde Bolsonaro venceu tivessem apresentado a mesma taxa de mortalidade média dos lugares onde perdeu teríamos 80.000 mortes a menos.

Pode-se pensar que isto se deve a uma simples coincidência do Nordeste, com forte votação petista, ter tido menor mortalidade, mas não. A regra “municípios com maior votação em Bolsonaro tendem a ter maior mortalidade por Covid” é observada internamente em recortes com maiorias de um lado e de outro, como mostram os gráficos anexos a este post.

No primeiro gráfico estão todos os municípios do Brasil (exceto uns poucos outliers com mortalidades muito altas, não exibidos para uma melhor visualização do gráfico), dispostos em função desse percentual de apoio e do número de mortes por 1000 habitantes. A reta feita por regressão linear mostra a tendência de crescimento da mortalidade com o aumento do apoio a Bolsonaro.

Quando analisamos separadamente cada uma das 5 regiões do país, a regra se mostra válida qualquer que tenha sido a votação na região em 2018. Quando olhamos municípios em um único estado, a regra é observada de estados com maior votação em Bolsonaro, como o Rio Grande do Sul, a estados com votação petista, como o Ceará, passando por estados divididos, como Tocantins. Isso vale para a maior parte dos estados (SP, RN, PA, SC, MT e ES não apresentaram correlação significativa entre o apoio a Bolsonaro e a mortalidade, não chegando a contrariar a regra).

Observamos o mesmo quando separamos os municípios por sua população. A tendência de aumento da mortalidade em função da votação em Bolsonaro se observa em municípios nas faixas populacionais de 0 a 10.000 habitantes, de 10.000 a 50.000, de 50.000 a 200.000 e de 200.000 a 500.000. O conjunto dos municípios com mais de 500.000 habitantes não apresentou correlação significativa, o que pode ser explicado (como sugeriu Luiz Henrique) pelo uso inevitável de transporte coletivo nessas cidades grandes, qualquer que seja a posição política dominante.

Os dados da mortalidade vêm do site https://brasil.io/dataset/covid19/files/, arquivo caso_full.csv.gz, baixado no dia 31/3. Os dados eleitorais vieram do arquivo eleicoes-2018-votacao-presidente-candidatos-2turno.csv, do site https://www.dadosfinos.info/2018/. O programa usado na análise está em um notebook Jupyter, disponível no link https://colab.research.google.com/drive/1H5ur3YAkVV9PV2Dgg9lhMForXCSAzw4P?usp=sharing

(*) Osvaldo Carvalho é Doutor de Estado em Informática pela Université Pierre et Marie Curie, Professor Voluntário do Departamento de Ciência da Computação da UFMG.

 

 

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