Globo e Estadão erraram

Muita gente, e muita gente boa, demonstrou sua indignação com a pouca importância que dois dos três grandes jornais do país deram, em suas primeiras páginas deste domingo, 30/5, às manifestações contra o desgoverno Jair Bolsonaro em quase todas as capitais, no Distrito Federal e em diversas cidades do interior.

A indignação é justíssima.

Sem dúvida alguma, foi um fato de grande importância. É um grande erro jornalístico dar chamada na primeira página em apenas uma coluna, como fizeram O Globo e O Estado de S. Paulo.

“Milhares vão às ruas contra Bolsonaro e causam aglomeração”, titulou O Estado em uma coluna e abaixo da dobra. Erro grave, gravíssimo.

“Protestos contra Bolsonaro reúnem milhares em 21 capitais”, titulou O Globo, também em uma coluna e exatamente na dobra. Erro grave, gravíssimo.

Lá dentro, tanto um quanto o outro dedicaram uma página às manifestações. Página suja, como se diz nas redações, ou seja, com anúncio. A rigor, meia página. Uma única foto.

É pouco.

Até aí, não pode haver dúvida alguma. É pouco. O Globo e O Estado erraram, e erraram feio.

Mas muita gente, e muita gente boa, saiu pelas redes usando esse erro como prova de que “a grande imprensa” é isso ou aquilo ou aquilo outro.

Que a grande imprensa é de direita mesmo, não tem jeito. Que a grande imprensa é a favor do grande capital, e etc, etc, etc, etc, nesse tom, por aí.

Houve quem escrevesse que O Estado é um jornal bolsonarista. E foi um jornalista que escreveu isso!

Aí também é demais.

Aí é idiotice, burrice, besteira – igualzinho dizer que a Covid-19 é gripezinha, que a China espalhou a doença como guerra química, que um porrilhão de gente, inclusive o FHC, deveria ter sido morto pela “Revolução”, que a Terra é redonda ou que Jesus estava na goiabeira.

Não há um único dia em que O Globo e O Estado deixem de publicar editoriais e/ou artigos contra o desgoverno Bolsonaro. Um único dia.

Não há um articulista do Globo ou do Estado que defenda o desgoverno Bolsonaro. Claro, ele é indefensável mesmo.

Mas não vou aqui nem falar dos articulistas. Vou reunir alguns exemplos apenas dos editoriais, os textos que representam a opinião do jornal – dos donos dos jornais, os patrões.

E vou pegar apenas exemplos bem recentes, dos últimos oito dias.

Lá vai.

* “São conhecidos os pendores autoritários do presidente Jair Bolsonaro. Volta e meia ele reage como se fosse uma espécie de imperador que quer resolver tudo na base do decreto.” (O Globo, 23/5/2021.)

* “Sob o governo Bolsonaro, o processo de privatização do Eswtado foi acelerado, mas não para aperfeiçoá-lo, e sim para rateá-lo entre os amigos e parentes.  (O Estado, 23/5/2021.)

* “Bolsonaro tenta de todas as formas fazer com que as Forças Armadas se curvem a seus desígnios. Mais uma vez, elas precisam repetir o que têm feito e demonstrar que conhecem perfeitamente seu papel na democracia. Mais uma vez, precisam resistir aos ímpetos autoritários de Bolsonaro, que só é comandante em chefe enquanto durar seu mandato.” (O Globo, 25/5/2021.)

* “Para Bolsonaro, fidelidade ideológica conta mais que competência — e o cambaleante ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é prova disso. (O Globo, 25/5/2021.)

* “Desde que assumiu, o presidente Jair Bolsonaro vem flexibilizando as regras para compra de armas e munições, por meio de ao menos 30 atos normativos. (…) Facilitar o acesso a armas e munições, ampliando as quantidades que cidadãos e agentes de segurança podem comprar, só aumenta a chance de esse arsenal ir parar nas mãos de criminosos. Afrouxar as normas, como tem feito Bolsonaro, equivale a dar munição aos bandidos.” (O Globo, 26/5/2021.)

* “Que o Ministério da Saúde tenha num cargo de relevância alguém que defenda drogas comprovadamente ineficazes equivale a convidar um terraplanista a projetar o lançamento de um foguete à Lua. Mayra (Pinheiro) tem até direito de emitir sua opinião, mas transformá-la em política pública é uma barbaridade. Em vez de cuidar do treinamento de profissionais, sua atribuição na Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação, ela priorizou a cloroquina. Não deixa de ser um símbolo de um governo obscurantista, que conduziu o país a mais de 450 mil mortes.” (O Globo, 25/5/2021.)

* “Mau militar quando esteve na ativa, Bolsonaro manteve sua atitude de desrespeito pelas Forças Armadas mesmo na condição de presidente da República. Esse deboche chegou ao ápice em março passado, quando o presidente afastou os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica depois que estes rejeitaram a demissão do general Fernando Azevedo do Ministério da Defesa. O ministro Azevedo havia resistido às pressões de Bolsonaro para obrigar as Forças Armadas a lhe dar respaldo político e a corroborar suas investidas contra as medidas de isolamento social determinadas por governadores e prefeitos no combate à pandemia de covid-19. Tendo como modelo a Venezuela chavista, Bolsonaro está empenhado em envolver os militares em suas aventuras golpistas. Enquanto neutraliza o Congresso por meio do contubérnio com o Centrão e procura inocular o vírus do bolsonarismo no Judiciário e nos órgãos de controle, o presidente busca atrair para sua causa deletéria oficiais de baixa patente e policiais militares, numa clara tentativa de minar o poder dos comandantes e criar clima de ruptura de hierarquia, de ordem e de disciplina, pilares das Forças Armadas e das corporações policiais. (O Estado, 26/5/2021.)

* “A despeito de conduzir uma política ambiental tóxica, contaminada por recordes de desmatamentos e queimadas — que degrada a imagem do Brasil e causa prejuízos ao agronegócio —, (o ministro Ricardo Salles continua com prestígio diante do chefe. Um dia depois da operação que escancarou o escândalo envolvendo o ministro e o presidente do principal órgão ambiental do país, Bolsonaro disse que Salles é um “excepcional ministro”. Pior para quem bate de frente com ele. Como o coordenador de Economia Verde do Ministério da Economia, Gustavo Fontenele, demitido por pressão de Salles.” (O Globo, 27/5/2021.)

* “O presidente decidiu ser mero despachante do Centrão, na expectativa de que o Congresso não o amole enquanto ele brinca de mandão.” (O Estado, 27/5/2021.)

* “Mesmo diante da escalada da crise, estimulada por Bolsonaro com objetivos golpistas, as Forças Armadas vêm se mantendo estritamente dentro dos limites constitucionais, e não há razão para crer que não continuarão assim. Isso não significa, contudo, que Bolsonaro, cuja medíocre carreira militar foi marcada pela indisciplina, sossegará; ao contrário, é provável que ele siga tentando arrastar as Forças Armadas para as turbulências que trabalha dia e noite para produzir, na expectativa de submetê-las a seu projeto autoritário de poder. A punição ao general intendente Pazuello é, por isso, essencial para mostrar que há uma linha que não pode ser cruzada, seja pelo praça, seja pelo comandante supremo das Forças Armadas.” (O Estado, 28/5/2021.)

* “Após a quarta semana de depoimentos à CPI da Pandemia, já está claro que a comissão está sendo explorada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus sequazes para propagar mentiras e distorções explícitas como se fossem versões legítimas dos fatos. Essa estratégia – que é usada pelos bolsonaristas desde que o presidente tomou posse e foi largamente responsável pela eleição de Bolsonaro – tem o objetivo óbvio de causar confusão, mas vai além: presta-se a reduzir a realidade dos fatos a uma questão de opinião. (…)

Cada evidência demonstrada por Dimas Covas era contraposta pelos senadores governistas com informações fictícias ou deturpadas. O objetivo, claro, não era apenas desmentir o cientista, mas oferecer ao País uma ‘verdade alternativa’, aquela ditada pelo bolsonarismo – e nada melhor do que uma CPI com imensa atenção nacional para divulgá-la. Cabe a quem preza a verdade dos fatos impedir que esse ardil prospere.” (O Estado, 29/5/2021.)

* “O presidente Jair Bolsonaro tem (…) se valido (do) sistema de controle (nas relações entre os três Poderes) para uma nefasta manobra. O objetivo tem sido fustigar o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de atos acintosamente inconstitucionais. A manobra se dá da seguinte forma. O governo Bolsonaro propõe ações judiciais ou edita atos que, desde o início, já se sabe que o Supremo rejeitará, em razão de manifesta inconstitucionalidade. O objetivo, no entanto, não é obter o que foi pedido. O que se quer é a decisão negativa do Judiciário. (…)

A inviabilidade do voto impresso pouco importa, no entanto, a Jair Bolsonaro. Seu objetivo é disseminar a desconfiança no sistema eleitoral, para que possa apresentar sua eventual derrota eleitoral como resultado de um complô contra ele – um complô com a participação do Supremo. O uso do aparato público – em última análise do dinheiro público – para produzir continuamente inconstitucionalidades não é apenas uma afronta ao Supremo. É um deboche com a Constituição e um vil insulto à Nação. (O Estado, 30/5/2021.)

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Eta jornais bolsonaristas, meu Deus do céu e também da Terra!

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Com a experiência de mais de 35 anos em grandes redações, da tal da “grande imprensa”, e de ter chefiado plantões de fim de semana no Estadão, eu penso que o erro – crasso – de dar chamadas pequenas para os protestos anti-Bolsonaro não teve a ver com as instituições O Estado e O Globo, com a posição política dos patrões.

Na minha opinião, foi erro dos profissionais que estavam no plantão e das chefias dentro das  redações. Nada a ver com a direção das empresas, os patrões, o Capital.

Até alguns meses atrás, as edições de domingo eram fechadas com antecedência. Chegavam às bancas ainda no meio da tarde de sábado as primeiras edições, que eram fechadas até 13h. (Esse é o caso do Estado; no Globo deve ou devia haver algo bem parecido.)

Depois que milhares de exemplares do jornal de domingo já estavam nas bancas, os plantonistas preparavam as alterações necessárias para incluir, nas edições finais, os fatos acontecidos até umas 23h00 do sábado, no máximo 0h do domingo.

Mexer muito na primeira página dá trabalho. Em geral os plantonistas precisam consultar as chefias em casa para fazer grandes modificações.

O que houve nas redações de O Estado e O Globo ontem deve ter sido – muito provavelmente – um tanto de pressa, um tanto de preguiça, um tanto de falta de coragem, um tanto de falta de experiência, e avaliação errada, terrivelmente errada, de alguma chefia.

Tudo somado ao fato de que as condições de trabalho a cada mês vão ficando piores, com menos gente no plantão, e muitas vezes gente menos experiente. Todos trabalham absolutamente sobrecarregados, sob forte tensão.

E a pandemia, com o home office, piorou ainda mais a dura situação.

Foi um erro grave, crasso.

Lamentável – mas até mesmo compreensível.

Aproveitar esse erro para falar mal da imprensa profissional como um todo é, além de um tiro de canhão no pé e na democracia, idiotice só semelhante ao terraplanismo, ou ao bolsonarismo.

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Fica faltando um registro sobre a Folha de S. Paulo. Ao contrário do Estado e do Globo, a Folha de S. Paulo noticiou as manifestações anti-Bolsonaro com o destaque devido. Foi a manchete do jornal, e boa parte da primeira página foi ocupada por uma bela foto de três colunas da multidão na Avenida Paulista, diante do Masp.

Isso prova que a Folha é um jornal melhor que O Estado e O Globo?

Quem quiser pensar assim que pense. Não há aí verdade absoluta – é questão de opinião, cada um tem a sua.

Eu, de minha parte, tenho a absoluta certeza de que a Folha é mais esperta que O Estado e O Globo. Sabe fazer marketing de si mesma melhor que os outros dois. Sabe se vender melhor. Desde a época das Diretas-Já é assim. A Folha não iria perder a oportunidade de fazer uma bela cobertura dessas manifestações. Deve seguramente ter reforçado o plantão de fim de semana.

A Folha é esperta, sabe fazer marketing. E além disso até que é um bom jornal.

30/5/2021, com alterações em 31/5/2021. 

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