Eva Wilma

Quando Marina Person a entrevistou para fazer o documentário Person, que seria lançado em 2007, Eva Wilma sorria muito, mostrava-se feliz, ao dar seu depoimento sobre o filme São Paulo Sociedade Anônima, e sobre a aventura que foi a viagem que os três – ela, Walmor Chagas e o diretor Luís Sérgio Person – fizeram para participar do Festival dos Festivais, em Acapulco, onde a fita foi exibida e recebeu muitos elogios.

Marina Person e seu diretor de fotografia José Roberto Eliezer botaram a câmara mostrando o rosto de Eva Wilma em close-up, em grande close-up.

– “Eu preciso dizer, entre parênteses, que, de toda a minha filmografia, talvez o filme de mais satisfação… Não só de realizar, mas dos resultados, né? Da representatividade em tantos países…”

Em seguida, ela faz um imenso elogio a Luís Sérgio, dá um sorriso aberto, esplêndido, maravilhoso – e é óbvio que seu testemunho terminou. Mas Marina, a filha do cineasta que estava ali gravando para o seu documentário sobre a obra do pai, não consegue pedir ao diretor de fotografia que desligue a câmara. E então temos a oportunidade, o prazer de ver o rosto lindíssimo de Eva Wilma, em big close-up, sem dizer nada – apenas sorrindo.

Eu tinha 16 anos quando vi Eva Wilma em São Paulo Sociedade Anônima. Ainda não morava em São Paulo, e já havia saído de minha cidade, Belo Horizonte – vi o filme de Person em Curitiba, onde passei meus 16 e 17 anos, exatamente no dia 1º de maio de 1966, no Cine Glória. Vejo essas informações no meu segundo caderno de cinema, e constato que dei ao filme de Person a cotação máxima.

***

Eu já era fã daquela moça linda desde muito antes – e isso é ao mesmo tempo muito estranho e fascinante, porque mexe com a minha memória, parece fazer troça da minha memória. Na minha cabeça, sempre adorei Eva Wilma, desde o “Alô, Doçura”, o programa que estrelava com seu então marido John Herbert na TV Tupi de São Paulo, retransmitido em Belo Horizonte pela Itacolomi. A questão é que o “Alô, Doçura” – vejo agora na Wikipedia – foi transmitido entre 1953 a 1964. E a gente não tinha televisão em casa. OK, eu costumava ver TV na casa de um amigo e vizinho do Edifício Tameirão, na Rua do Ouro, diante da Rua Ramalhete – e então deve ter sido aí que vi pela primeira Eva Wilma.

Há uma outra lembrança que agora parece fazer troça da minha cabeça: gravei lá no buffer quando ele ainda era bem novo que vi o cartaz da peça Boeing- Boeing no Teatro Copacabana, nas costas do Copacabana Palace – e, diante do cartaz, e do nome Eva Wilma, desejei furiosamente ver a peça. O problema é que Boeing-Boeing, dirigido por Adolfo Celli, vejo agora, com Eva Wilma no topo do elenco, só estreou em 1963, ficou em cartaz até 1964 e, cacete, não estive no Rio de Janeiro em 1963 e 1964. Tinha estado lá em 1961, e só voltei sei lá quando…

… E nada disso tem interesse algum pra ninguém, a não ser pra mim mesmo.

Mas, cacete, essas coisas todas me vieram à cabeça e ao coração de forma tão forte agora, quando vimos a notícia da morte de Eva Wilma. Por uma danada de uma coincidência, a notícia veio nem bem passadas quatro horas que tínhamos terminado de ver São Paulo Sociedade Anônima!

Parece incrível – e é. Parece imaginação, mentira de mentiroso contumaz. Pois é. Mas não fui dotado pelo criador de imaginação, nem de capacidade e/ou aptidão para mentir, mesmo em coisas mínimas.

Tínhamos visto – eu revisto, Mary visto pela primeira vez na vida – o filme que deu mais satisfação a Eva Wilma, de todos os que ela fez.

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Eva Wilma foi importante nos três meios – no teatro, no cinema, na TV. Teve uma carreira gloriosa, das mais gloriosas de todas as atrizes brasileiras.

Me ocorreram duas coisas, neste momento. Primeiro: gostaria muito que a imprensa fizesse uma cobertura da morte de Eva Wilma à altura da sua importância. Fico em dúvida se conseguirá fazer, tão poucos dias depois de o Brasil perder Paulo Gustavo. Segundo: meu Deus do céu e também da Terra, como está tendo notícias ruins, a cada dia, este país em que a gente achava que ele, Deus, havia nascido…

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Fiz uma frase tão óbvia quanto boba, no Facebook: Tchau, Doçura.

Óbvia e boba.

Mas gostei da frase seguinte, que escrevi dirigida a ela, e então também registro aqui:

Depois que você matar bem as saudades do John Herbert, e também do Walmor, dê um abraço neles por mim.

15 e 16/5/2021

Um comentário para “Eva Wilma”

  1. Texto à altura da Atriz Eva Wilma .
    Obrigada , Sergio Vaz .
    Vou procurar o filme para assistir .
    A foto com Walmor é linda !
    Sim , ela é uma doçura e é lamentável perder uma atriz , que ainda poderia nos render lágrimas ou risos , assim , tão repentinamente .
    Nunca tive a notícia de que ela estava doente . Bem triste

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