Depois da reunião de pauta…

Naqueles tempos sem pandemia…

Dia de trabalho começando nas redações dos jornais. Os pauteiros de cada editoria, da política aos esportes, se reúnem e “cantam”, cada um à sua vez, os fatos que serão notícia durante o dia. Decidem como se fará a cobertura deles. No entanto… Diz antigo jargão que notícia não tem hora para acontecer.

Em um começo de tarde pode estourar a bomba. O autor do crime do século, esse bárbaro violento, frio e calculista (alguém já viu um sujeito frio que não fosse calculista?), esse desalmado será enfim levado às barras da lei. Ou seja, ao Fórum para julgamento.

O chefe da reportagem (agora no comando) dispôs um repórter e um fotógrafo para seguir a viatura que levará o facínora, da mesma forma como fizeram os dos outros jornais, dos rádios e das televisões, o que pode resultar em tumulto. Sem contar que outra dupla de textos e fotos, áudio e imagem, etc. e etc. estará na porta do Fórum, onde já se aglomeram curiosos.

Às três da tarde, com duas de atraso, as portas do presídio se abrem e aparece um homem de terno e gravata, usando óculos de aro de platina, o preposto do diretor. Ele tem uma informação para a Imprensa. Câmeras e microfones, gravadores e canetas começam a arfar, mas o homem diz apenas: “O julgamento foi adiado.”

O grande destaque da primeira página, manchete nos jornais mais populares, acabou de ruir. Sumiu, como uma nota de cem reais esquecida em um banco de metrô. Ficou só o banco. Mas… sempre há esperança. O arauto do nada feito, com seus oculozinhos, poderá acrescentar que o adiamento se deu porque o celerado, nervoso com o que viria, sofreu um desarranjo intestinal.

Repórteres e seus chefes podem comemorar. Estão de volta à primeira página.

      Junho de 2021

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