A lauda em branco

A maior angústia de um repórter, depois de um dia de trabalho na rua, desses que não dá nem para almoçar, era, antigamente, ficar olhando para a lauda de papel em branco, ou ter a sensação de que ela olhava para ele, sem que no meio de campo surgisse a bola a ser chutada; isto é, a inspiração para cravar a primeira linha.

Tempos da máquina de escrever. Para quem não conhece, era uma robusta peça com teclados e tipos metálicos que, acionados, imprimiam as letras no papel. Não sei, em todo caso, se em situação de desespero não era melhor ter a lauda, com sua feição descansada, do que a tela, com o brilho que predispõe a urgência.

Sim, porque, na parede, estava o grande relógio (a corda) nos afrontando com o seu ponteiro de segundos que corria com a celeridade de um maratonista! A cada volta, a hora do fechamento da edição – a lâmina da guilhotina sobre o nosso pescoço – ficava mais próxima. E crescia a assombração de sermos impiedosamente abatidos pelo calhau.

Para quem não trabalhou em redação, explico que os espaços destinados a textos, fotos, material de propaganda, vão sendo desenhados na página de diagramação, que corresponde à que vai ser impressa. O horário de fechamento é sagrado. Se chegou a hora, e um texto previsto não foi entregue, o espaço em branco é preenchido por um anúncio do jornal – o calhau.

Em vez de, por exemplo, “Esgar de quem morde identifica assassino de mulheres”, entra “Assine o melhor jornal do País”. No entanto… os jornalistas devem ter um santo protetor que, do nada, o levam a escrever uma frase boa. Daí passa a boiada… desculpem. As idéias fluem, os dedos martelam com crescente habilidade, e quando o secretário de Redação lança mais um olhar agressivo, ele tira a última lauda da máquina, e respira aliviado.

Nada contra o laptop. Afinal, em sua tela cruelmente em branco, acabou saindo este texto.

Como, leitor? Você preferia um calhau?

Abril de 2021

 

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