Randáu Marques

Randáu de Azevedo Marques foi  precursor do jornalismo voltado para o meio-ambiente no Brasil. Muito, mas muito antes de grandes nomes como André Trigueiro, Liana John, antes mesmo de nosso colega e patrão Rodrigo Mesquita, um dos fundadores do S.O.S. Mata Atlântica, Randáu Marques já escrevia suas belas, bem fundamentadas reportagens sobre meio-ambiente no Jornal da Tarde.

Foi um precursor, um pioneiro, um desbravador. Valente, obstinado, batalhador. Muitas vezes ranheta, inflexível.

Sobre a importância de Randáu Marques no jornalismo sobre meio-ambiente, com toda certeza vários colegas vão escrever com muito mais propriedade do que eu. Só quis registrar aqui no meu site este elogio a ele – e contar que Randaú, ainda nos anos 70, muito, mas muito antes da internet, tinha um Google particular.

Ficava em cima e embaixo da mesa dele no JT; depois foi crescendo, crescendo, crescendo – passou a ocupar o chão de umas três ou quatro mesas.

Eram caixas e mais caixas e mais caixas de papéis. Textos datilografados, xerox de matérias, de documentos, fotos, documentos originais.

Ivan Angelo, o grande escritor mineiro, durante anos e anos secretário de Redação do JT, volta e meia ameaçava mandar a Segurança jogar tudo aquilo fora. Argumentava que documento tinha que ser guardado no Arquivo (o Arquivo da S.A. O Estado de S. Paulo era uma coisa extraordinária, maravilhosa, competente, organizadíssima),

Randáu não dava a menor bola. Sabia que ninguém teria coragem de fazer aquilo.

(A foto é de Francisco Lucrécio Junior.)

A aparência do arquivo particular do Randáu era a pior possível, aquela coisa de casa de acumulador compulsivo – uma coisa suja, desorganizada. Numa redação japonesa, aquilo jamais aconteceria. Nem sequer numa das de hoje em dia, que são assépticas como escritórios de grandes corporações.

A imensa quantidade de caixas de papel foi transportada da velha redação do JT na Rua Major Quedinho, no centro da cidade, para a novíssima, ampla, gigantesca, elegante redação no então prédio novo junto da Marginal do Tietê, no Bairro do Limão, em 1975 (ou teria sido já em 1976 a mudança? Foi em um dos dois, não me lembro).

Na redação nova, com carpete novinho, novinho, todos os móveis novinhos, novinhos, a feiúra do Google do Randáu realçava-se ainda mais, chocava ainda mais. Mas continuava a crescer.

E o fantástico era que o Google dele funcionava.

Se surgisse uma pauta pedindo um levantamento de tal e tal dado, Randau punha-se de joelho, fuçava durante uns poucos minutos naquela zorra, e saía de lá com um sorriso no rosto e os dados pedidos na mão.

Que figura.

Não era à toa que os ambientalistas todos daqueles anos 70 e 80, quando o ambientalismo ainda dava seus primeiros passos no país, o respeitavam. Todos.

***

Esta aí da foto é uma das muitas manchetes do Jornal da Tarde em cima de reportagens do Randáu. Me foi enviada pelo Rodrigo Mesquita, que dirigiu a redação do JT a partir de 1984 e, como bom jornalista e bom ambientalista, soube aproveitar muito bem o talento do cara.

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Tem uma historinha que gostaria de registrar.

Randáu e eu começamos no JT – e no jornalismo – ao mesmo tempo: em meados de 1970, quando estávamos, os dois, com 20 anos de sonhos e esperança. Ele nasceu, confiro agora no post de seu grande amigo e companheiro Anthony de Christo, outro pioneiro do jornalismo ambiental, em 29 de agosto de 1949, em Igaçatuba, interior de São Paulo. Eu sou de alguns meses depois.

Essa historinha de termos chegado ao mesmo tempo à redação da Major Quedinho mostra bem como era o JT aos 4 anos idade, como era a S.A. O Estado de S. Paulo e como era o jornalismo naqueles tempos distantes.

Não era preciso diploma, ainda. Era preciso alguma sorte, um amigo que indicasse. Não me lembro quem indicou o Randáu; eu fui levado ao jornal, nunca canso de repetir, por meu amigo Gilberto Mansur, marido da minha professora e amiga Vivina de Assis Viana.

Lançava-se o aspirante a jornalista, o foca, no meio da água. Se ele soubesse nadar, legal, o pessoal veria o que fazer. Se não soubesse, era só dizer ó, não deu, e pronto.

Havia o quadro de funcionários registrados, com carteira de trabalho assinada, todos os direitos garantidos – mas, paralelamente, um tanto extra-oficialmente, havia os free-lancers, os frilas. Os iniciantes, os focas, que eram admitidos na redação sem qualquer formalidade, sem qualquer papel assinado, e ficavam ali teoricamente em teste. Se eventualmente o foca fosse bom, seria contratado quando surgisse alguma vaga.

Começamos, Randáu e eu, na Reportagem Geral – a rigor, a editoria mais pulsante do jornal. Havia a Política, a Internacional, o Esporte, a Variedades. Economia, isso não era editoria – os assuntos de Economia iam para a Política. O que não era especificamente Politica, Internacional, Esporte e Variedades ia para a Reportagem Geral: trânsito, polícia, educação, saúde, assuntos da cidade, tragédias, o escambau. Como o JT era um jornal voltado para a cidade, a Geral era o epicentro.

Epicentro – mas também o lugar que não exigia especialização. Para escrever sobre Política, Internacional, Esporte, Variedades é preciso algum grau de conhecimento, especialização. Para escrever sobre trânsito, polícia, essas coisas, não.

O editor era Fernando Portela. O sub, Sandro Vaia. Os copydesks, os caras que corrigiam, melhoram, reescreviam os textos dos repórteres, eram Eduardo Borgonovi, o Castor, Anélio Barreto, Sérgio Rondino, Gilberto Mansur, Humberto Werneck. Só fera.

Acima da editoria, lá no alto, muito longe da gente, vinha a chefia da redação. Murilo Felisberto, redator-chefe. Ivan Ângelo, secretário de Redação. Fernando Mitre, subsecretario. Mineiros, os três.

Disseram para o Randáu, e também para mim, e creio que também para o David Lindenbaun, que começou na mesma época, separando os telegramas na editoria de Internacional, que haveria uma vaga para um de nós.

Agora, assim, objetivamente, em quanto tempo a situação se definiria, se a gente ficaria na redação ou nos dariam tchau… Sobre isso não se falava. E fomos ficando, fomos ficando, Randáu, eu, e, na Internacional, o David Lindenbaun.

Passaram-se meses. E mais meses. Não me lembro o Randáu, mas quanto a mim, só vim a ser contratado exatos 2 anos após ter entrado no jornal. Já era, então, copydesk; Randáu era já um bom repórter, especializado em trânsito.

Sim, especializado em trânsito. O trânsito em São Paulo, naquele início dos anos 70, era um absurdo, uma absoluta loucura. É difícil alguém mais jovem acreditar nisso hoje, mas o trânsito em São Paulo na primeira metade dos anos 70 era muito pior do que é hoje, quando temos nas ruas alguns milhões de carros a mais. Mas é a mais pura verdade dos fatos – e basta lembrar que a primeira linha do Metrô começou a operar em 1974, entre o Jabaquara e a Vila Mariana – o trajeto entre o Jabaquara e Santana, atravessando o Centro, só passou a ser feito em 1975.

Assim, em 1972, não havia metrô e havia obras ao longo do que hoje é a Linha Azul. Era a época em que havia editoriais e artigos quase diários no JT sobre os problemas de trânsito – e um bem-humorado artigo da página 4 trouxe um dos mais brilhantes títulos de toda a existência do JT: “Sic transit gloria mundis. Tradução: o trânsito da Rua da Glória é o pior do mundo.”

E Randáu era o cara que mais entendia sobre aquele que era um dos principais problemas, se não o principal, da cidade.

Nem me lembro bem quando ele foi trocando o trânsito pelo ambiente. Mas, da mesma forma com que se dedicava inteiro ao trânsito, passou a se dedicar à defesa do ambiente.

***

Fico pensando como escolhemos destinos diferentes – ou como o destino escolheu caminhos diferentes para o Randaú e para mim.

Randáu desde cedo se especializou. Virou mestre no tema que dominava: primeiro, en passant, como preparação, como treino, o trânsito. Depois, o meio-ambiente.

Jamais me especializei em assunto algum. Ao longo de uns 37 anos de jornalismo praticado dentro das redações, volta e meia não sabia o que dizer quando alguém me perguntava algo tipo: – “E qual é sua área?”

Nunca tive propriamente uma área de especialidade. Minha área sempre foi, de alguma maneira, a Geral, a editoria que não tem especialidade. O que fiz, no jornalismo, foi mexer em texto – de qualquer assunto que fosse. O texto dos outros.

É por isso, sem dúvida alguma, que depois que saí das redações passei a escrever tanto, tão loucamente, tão longamente. É uma espécie de vingança contra os 37 anos em que, em vez de escrever, fiquei polindo o texto dos outros.

Mas esta é outra história.

Que os anjos recebam bem Randáu Marques, grande repórter, grande jornalista, grande ambientalista.

9/4/2020

7 Comentários para “Randáu Marques”

  1. Valeu Sérgio. Meu pai ficaria feliz com sua homenagem. Me trouxe alento e conforto.
    Um abraço
    Lúcio Marques

  2. Brilhante, emocionante, esclarecedor esse mergulho na história do JT. Randau, de onde estiver, deve estar gostando muito. Nós, os leitores, também. Grande Randau, grande Servaz.

  3. Boa história, ótimo texto!
    a vida apronta com a gente, dá sustos, mas vale a pena. a do randau é um exemplo.
    um abraço

  4. Muito legal o texto, Servaz. Trouxe boas lembranças. Tive a sorte de conviver com o Randau no JT e na área ambiental do governo estadual. O trabalho dele faz falta nos jornais de hoje e sentirei saudade de sua simpatia e doçura. Mas fiquei com uma dúvida: não teve uma ocasião em que o Ivan de fato mandou que levassem os papéis da mesa do Randau para a casa dele? Pelo que me lembro não adiantou nada, pois logo a pilha voltou a crescer.

  5. Pois é, Marcos… Tenho uma lembrança vaga de que uma vez o Ivan conseguiu que a papelada fosse retirada… Mas é vaga demais, não me dá segurança de afirmar que houve isso…
    Um grande abraço!
    Sérgio

  6. Alô Servaz adorei o texto, as lembranças e a homenagem ao Randau. Também lembro, como se fosse hoje, da incrível mesa do Randau, afinal sempre passava por ela para ir até a Editoria de Esportes. Quando chegava cedo e não tinha quase ninguém na redação, a mesa do Randau ficava mais exposta, mais visível.

    abraços
    Ailton Fernandes

  7. Quanto mais velhos ficamos, amigo Servaz, mais preciosas se tornam as lembranças de nossa geração. Com esse texto você alegrou minha Semana Santa. Obrigado!

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