Palavrão no Estadão!

Anotações de um confinado, volume 8.

Quem diria, o Estadão, aos 141 anos de idade, escrevendo palavrão. É verdade que só reproduziu os que foram ditos na assombrosa reunião de ministros da sexta-feira, 22 de abril, com Jair Bolsonaro, pelo próprio.

O noticiário sobre o encontro trouxe, na primeira página da edição de sábado, uma ousadia gráfica. Em 22 linhas, que ocupam o centro da página, seguem-se, entre aspas, umas após as outras, falas do presidente e de quatro ministros. A primeira, naturalmente, é de Bolsonaro. Na quinta palavra pronunciada ele dá a medida de seu destempero. “Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem (…)”.

Nas páginas internas, em outros trechos das manifestações de Bolsonaro, segue-se uma saraivada de palavrões cabeludos. A decisão da redação de mantê-los certamente foi uma correta ousadia. Apresentou o presidente da República do Brasil por inteiro.

O Dr. Julinho, Júlio de Mesquita Filho, se viu lá de cima, deve ter levado um choque.  O Estadão sempre primou pela excelência de seu texto, ao ponto de não permitir, até meados dos anos de 1900, estrangeirismos. Como foi com o futebol. O nome, por ser uma modalidade de esporte, seria grafado dessa forma. Mas goal, mesmo aportuguesado para gol, não podia. “São Paulo vence o Palmeiras por três pontos a dois”.

Maria Cecília Mesquita, que dirigiu o Suplemento Feminino do Estado por meio século (até 2011), cuidava da linguagem com zelo. O que às vezes trazia problemas às jornalistas que fechavam as edições. Era o caso do purê. Cecília não aceitaria o original purée, em francês; tão pouco admitia o purê. Exigia o brasileiríssimo pirão. Mas como oferecer ao leitor a indicação de um prato de filé com acompanhamento sofisticado e pirão?

A diretora faleceu em 2014.  Deus a poupou de ler a edição de sábado.

Um cultor dedicado do texto, Eduardo Martins, elaborou um cuidadoso Manual de Redação e Estilo do Estadão, com primeira edição em 1990. Lista mais de 50 ensinamentos do que se deve fazer, e não deve, ao redigir. Em nenhum momento prevê situações como a do encontro de sexta-feira, 22 de abril. Eduardo faleceu em 2008. Deus o livrou de viver sob Bolsonaro.

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Nota do administrador:  Consta que uma vez, ali pelos anos 60, Luiz Carlos Mesquita, o Carlão, teria levado para a redação então dirigida pelo seu pai, o dr. Júlio de Mesquita Filho, um pinguim. Um pinguim vivo! Não me lembro de onde teria vindo, mas era um pinguim vivo, dentro de gigantesco balde com gelo. Ao ver tal animal, o dr. Julinho Deus exclamou, com fleugma britânica: – “Homessa, um pinguim na minha redação!” E mais nada – continuou trabalhando normalmente, como se fosse um acontecimento corriqueiro.

 

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