O melô do abandonado

Posso chocar muita gente, mas, na minha opinião, nem a obra completa de Lupicínio Rodrigues vale sequer uma das estrofes de “I Will Survive”.

Tá certo: pra falar bem de uma coisa não precisa comparar com outra.

Mas é que tem a ver. O tema de 9 de cada 10 canções de Lupicínio é o mesmo de “I Will Survive”: o narrador foi abandonado.

O narrador que foi abandonado, nas canções de Lupicínio, sofre, coitado. Sofre, sofre, sofre.

Tá certo: quem é abandonado sofre mesmo.

Falo isso com a autoridade de quem teve a experiência. Lá pelas tantas, a mulher que eu tanto amava me abandonou. Saiu do apartamento, levou os meus planos, meus pobres enganos, os meus 30 anos e, além de tudo, deixou mudo… Não meu violão porque nunca toquei nenhum instrumento, além das teclas que, da esquerda para a direita, na fileira do meio, aquela em que a gente repousa os dedos, começa com asdfgh.

Teve uma amiga que me deu conselhos, como se fosse expert em ser abandonada: “Ligue a TV, o toca-disco, tudo ao mesmo tempo. A pior coisa é o silêncio”.

Nem me lembro se segui o conselho da amiga, e torturei os ouvidos dos vizinhos, mas me lembro bem é que corri pros teclados e a manhã nasceu azul, como é bom tocar um instrumento – e sobrevivi.

Os narradores das canções do Lupicínio são todos uns molengas, uns bocós, uns entregues ao baixo astral.

Desculpe. Não estou querendo menosprezar, de forma alguma, a dor do amor – dor do amor quando não passa é porque o amor valeu.

E não sou, de forma alguma, daquele tipo que diz que quem é homem não chora. Não, não é isso.

É que eu acho que os personagens do Lupicínio são bocós. Babacas.

O cara que ficou lá na cama da mulher, ela dizendo pra ele ir embora, o maridão podia chegar – e o cara não se coçava. Depois ficou todo arrependido, torturado pelo remorso, choramingando, “por um simples prazer fui fazer meu amor infeliz”.

Um babaca. Bastava ter levantado da cama, botado a roupa, ido embora antes de o maridão da moça chegar, e tudo ficaria bem.

E o outro lá que fica gritando “vingança, vingança, vingança clamar”?

Babaca também. Mas muito pior que babaca: sujeito escroto, nojento. Corno assim, um cara que quer que todo mundo sofra que nem ele?

Meu Deus do céu e também da Terra! Estes aqui são alguns dos versos mais idiotas, mais de gente pequena, microscópica, que já foram feitos na música popular deste planeta:

Mas enquanto houver força no meu peito

Eu não quero mais nada

E pra todos os santos

Vingança, vingança

Clamar

Ela há de rolar qual as pedras

Que rolam na estrada

Sem ter nunca um cantinho de seu

Para poder descansar   

Ainda bem que o mundo não é feito de Lupicínio e lupicínicas. Ainda bem que há seres humanos que, at the end of a love affair, desejam toda a felicidade do mundo ao amado/à amada que se foi. Como Albert Askew Beach, ao criar a letra em inglês da maravilhosa chanson de Charles Trenet “Que reste-t-il de nos amours”:

I wish you shelter from the storm

A cozy fire to keep you warm

But most of all, when snowflakes fall

I wish you love

Quero que você encontre abrigo na chuva, uma lareira gostosa para se aquecer – mas, sobretudo, quando a neve cair, eu desejo que você tenha amor.

Ou como o catalão Lluis Llach sintetiza, de maneira tão bela quanto fez o americano que verteu para o inglês a canção de Trenet – ou talvez ainda mais bela. Sim, de maneira mais bela ainda:

Si em dius adéu,

vull que el dia sigui net i clar,

que cap ocell

trenqui l’harmonia del seu cant.

Que tinguis sort

i que trobis el que t’ha mancat

en mi.

Si em dius “et vull”,

que el sol faci el dia molt més llarg,

i així, robar

temps al temps d’un rellotge aturat.

Que tinguem sort,

que trobem tot el que ens va mancar

ahir.

Diacho. Gostaria de saber cantar isso assim, em catalão. Que som maravilhoso.

Bem, mas o que Lluis Lhach diz é o seguinte, em língua que a gente entende:

Si me dices adiós

quiero que el día sea limpio y claro,

que ningún pájaro

rompa la armonía de su canto.

Que tengas suerte

y que encuentres

lo que te ha faltado en mí.

***

É possível que, para chegar a esse ponto aí, de desejar boa sorte para a ex-amante e o seu novo amor, de desejar que ela encontre nele o que não encontrou em você – no narrador, e portanto em mim –, o ser humano tenha que ter chegado a um estágio muito alto, uma coisa mais adiante que knocking knocking on Nirvana’s door. Algo como o Sétimo Estágio da Sabedoria.

Mas a verdade é que os narradores das canções do Lupicínio são o exato oposto: são gente que não conseguiu chegar nem mesmo ao primeiro estágio, à primeira etapa de auto-melhoramento.

Neguinho que grita “vingança, vingança, vingaça” tem obrigação de voltar a esta Terra mais um monte de vezes para aprender alguma coisa. Ele e todo mundo que votou no Bolsonaro.

Aí vai o que me deslumbra em “I will survive”, de autoria da dupla Dino Fekaris & Freddie Perren, que a maravilhosa Gloria Gaynolr transformou em sucesso planetário.

O narrador, a narradora – ele ou ela não estão chegando ao limite da perfeição que é desejar boa sorte para o ex com seu novo amor. Mas também estão muuuuito longe da baixaria total dos Lupicínicos.

Primeiro ele/ela estava com medo, petrificado/a, sem saber como seria possível viver sem o outro/a outra ao seu lado.

Mas depois o tempo vai passando – e, diabo, como dizem tantas canções, time can heal a broken heart. Quando você me deixou, meu bem / Me disse pra ser feliz e passar bem. / Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci / Mas depois, como era de costume, obedeci. / E depois, com o tempo, tantas águas rolaram / Quantos homens/mulheres me amaram

Bem mais e melhor que você – e pronto: descobri que é possível sobreviver, cacete!

I will survive!

***

Tenho admiração especial por alguns versos de “I Will Survive”. Um deles é quando o narrador/a narradora diz que o antigo amor chegou de volta from outer space. Acho uma delícia a expressão “outer space” – literalmente, o espaço mais fora. Na Última Dlor do Lácio Inculta e Bela temos uma expressão muito mais apropriada – espaço sideral.

Mas o fato é que o neguinho/a neguinha que canta “I Will Survive” diz que ela/ele de repente voltou from outer space. Tinha ido para o espaço sideral, para o mundo da lua, para a puta que a/o pariu – e de repente está aqui dentro de casa de novo!

Porque eu (o narrador/a narradora) não mudei a porra da fechadura – e ela/ela simplesmente chegou from outer space e entrou dentro da minha casa!

E aí vem outro verso da canção que me faz babar:

I should’ve changed that stupid lock!

Claro: o estúpido, o idiota fui eu, que não troquei a droga da fechadura. Mas como eu estou agora muito cheio de mim, porque estou absolutamente certo de que vou conseguir sobreviver, eu digo que idiota é a fechadura.

***

Não tenho a menor idéia de como e por que “I Will Survive” virou uma canção associada ao mundo gay.

Originalmente, não me parece ter nada a ver só com gays. Não são só gays que são abandonados e reagem e fazem força para reagir, e, diabo, depois de tantas lágrimas rolarem, conseguem dizer que, pô, vou sobreviver!

A coisa da opção sexual me parece tão pouco importante quanto a cor da pele.

Cor da pele, ou se é hétero, homo, bi, tri, trans – isso não tem importância alguna.

Tanto faz se o cara/a cara é hétero, homo, bi, tri, trans, vermelho, branco, amarelo, cor de rosa, preto retinto, branquelo, mulato, pardo, jambo, verde.

Importa se ele fica, muito tempo depois do choque de ter sido abandonado, lamentando, chorando, xingando Deus e o mundo, feito um idiota, um babaca, um pobre coitado, um pustema – ou se junta forças tiradas não se sabe de onde e consegue dizer, alto e bom som, mesmo que não acredite cem por cento nisso, que vai sobreviver.

18 e 21/9/2020

Este suelto foi originalmente publicado na revista eletrônica Dom Total

I Will Survive

Freddie Perren e Dino Fekaris

 

First, I was afraid, I was petrified

Kept thinkin’ I could never live

Without you by my side

But then I spent so many nights

Thinkin’ how you did me wrong

And I grew strong

And I learned how to get along

 

And so you’re back from outer space

I just walked in to find you here

With that sad look upon your face

I should’ve changed that stupid lock

I should’ve made you leave your key

If I had known, for just one second

You’d be back to bother me

 

Well, now go! Walk out the door!

Just turn around now

‘Cause you’re not welcome anymore!

Weren’t you the one

Who tried to hurt me with goodbye?

Did you think I’d crumble?

Did you think I’d lay down and die?

 

Oh no, not I! I will survive!

Oh, as long as I know how to love

I know I’ll stay alive!

I’ve got all my life to live

I’ve got all my love to give

And I’ll survive! I will survive!

Hey, hey!

 

It took all the strength I had

Not to fall apart

And trying hard to mend the pieces

Of my broken heart

 

And I spent, oh, so many nights

Just feeling sorry for myself

I used to cry

But now I hold my head up high!

 

And you’ll see me, somebody new

I’m not that chained up little person

Still in love with you

 

And so you felt like droppin’ in

And just expect me to be free

But now I’m savin’ all my lovin’

For someone who’s lovin’ me!

 

Go on now! Go! Walk out the door!

Just turn around now!

‘Cause you’re not welcome anymore!

Weren’t you the one

Who tried to break me with goodbye?

Did you think I’d crumble?

Did you think I’d lay down and die?

 

Oh no, not I! I will survive!

And as long as I know how to love

I know I’ll stay alive!

I’ve got all my life to live

I’ve got all my love to give

And I’ll survive! I will survive!

Oh

 

Go on now! Go! Walk out the door!

Just turn around now!

‘Cause you’re not welcome anymore!

Weren’t you the one

Who tried to break me with goodbye?

Did you think I’d crumble?

Did you think I’d lay down and die?

 

No, no, not I! I will survive!

And as long as I know how to love

I know I’ll stay alive!

And I’ve got all my life to live

And I’ve got all my love to give

And I’ll survive

I will survive!

I will survive!

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