O Brasil aos olhos do repórter

Meus filhos resolveram que o pai deles vai ter reportagens suas publicadas em um e-book. Equipe de edição: Mônica, editora; Danilo, diagramador (é designer gráfico); e Paulo, apoio na preparação dos textos. Há apenas um detalhe. Mônica quer a notícia por trás da notícia. Como fiz para levantar os dados, o trabalho de campo…  Muito interessante.

Só que não, como diz a garotada.  Não tenho memória de tudo, e não posso ampliar o tamanho dos textos. Do Jornal da Tarde, com sua generosa oferta de espaço, tenho matérias como a série Os Novos Colonos, sobre assentamentos em Rondônia e Mato Grosso.  Duas páginas limpas (sem anúncio) publicadas durante quatro dias. Oito páginas. Nem vou tocar nelas.

Outra matéria, garimpo de ouro no Mato Grosso, ocupa quatro páginas, com alguns anúncios. Fiz o seguinte: separei do texto principal o relato sobre os “experientes, arrojados e loucos” pilotos de garimpo. Um dos que me levou decolou, subiu, nivelou o avião…  de repente “quebrou” a asa e nos despirocamos num vertiginoso mergulho para o solo. Brincadeirinha…  Os pilotos viraram texto autônomo. Do resto da matéria, eliminei a corrida ao ouro que fez surgir o garimpo. Sobrou o texto sobre o próprio garimpo, que mantive.

Ainda não submeti à Mônica (meu Murilinho Felisberto…).  Se aprovada, vou condensar outras matérias grandes de viagens pelos confins do País.

Em março de 1996, Fernão Mesquita mandou me chamar. Entrei na sala e ele me recebeu com um sorriso de felicidade . Disse: “Você vai morar uma semana na favela de Vigário Geral (a da chacina)”. Falei com a sucursal do Rio. Ficaram alarmados. Mas ajustaram uma situação em que pude viver cinco dias na favela e contar como é a vida controlada pelo tráfico. A pedido do Fernão, texto está na primeira pessoa.

Agora, vejam só. Em outubro de 2014, fiz um frila para a Folha, sobre o serial killer de Goiânia.  Matou 39 pessoas, destas 16 moças (depois de matar a primeira, fixou-se nelas). Dei por encerrada minha vida de repórter. No entanto…

Quatro meses depois, a revista Crescer, da Editora Globo, que cuida de mamães e seus filhinhos, me encomendou um frila. Entrevista com a mãe de um deputado desbocado, agressivo… Ele mesmo. Ela morava em Juqueí, no Vale do Ribeira (de lá, liguei para o Bolsonaro e ele autorizou).  Minha provável última matéria foi com a mãe (senhora amável, que pintava quadros) do futuro presidente da República!

Pensei em abrir o e-book com essas duas matérias. Olha o gancho, Bolsonaro. Só que refiz o propósito. As duas vão para o fim do livro. As outras histórias são muito melhores.

Janeiro de 2020

Nota do administrador: Achei uma belíssima idéia essa da Mônica, do Danilo e do Paulo de editarem um livro com algumas das reportagens do pai. E sugeri que o Valdir fizesse um textinho contando da idéia do livro, das reportagens. A princípio, se recusou: achava cabotino. Tive que insistir muito para que ele afinal confessasse o texto acima.

E aqui vai um apelo a ele: não condense os textos das matérias, não, Valdir. Não corte, não reduza, não condense. Publique na íntegra, como saiu no jornal. O que vale é isso, a forma com que o jornal publicou a matéria.

Não precisa se preocupar com questões ambientais: é e-book, não é livro tradicional, de papel. Nenhuma árvore será derrubada para a produção do e-book. (Sérgio Vaz)

 

2 Comentários para “O Brasil aos olhos do repórter”

  1. Olha só! Adorei! Serei obrigada a comprar…rs. Admiro Sr Valdir Sanches e vou acabar virando fã de carteirinha. Concordo com a nota do Sérgio Vaz: não corte, reduza ou condense. Publique na íntegra.
    Sucesso em mais essa obra com auxílio de todos seus filhos. Parabéns pela ideia dos mesmos.

  2. Contando os dias para o lançamento do e-book. A ideia de contar os bastidores é ótima. Mas faz como o Sérgio sugeriu: publique a matéria na íntegra e os bastidores da matéria como uma “retranca”. Vai ficar sensacional.

    PS: sensacional ficará de qualquer jeito pela qualidade do repórter e dos textos que ele escreve.

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