As notícias pingam na tela

Notícias brotam a qualquer momento no alto da tela do meu laptop, desde que aceitei um serviço sem medir consequências. Surgem em uma linha fina que felizmente logo se apaga. Ora, o que há de mal nisso? 

Imaginei uma história em que um casal sai de casa em uma tarde de sábado, muito feliz, para passear pelo parque de seu bairro, dar uma espiada no shopping, jantar em uma pequena casa com ares de tasca. De fato, às cinco da tarde, Anselmo e Débora pisaram a calçada, e puseram-se a caminhar.

Tarde amena. Passam por um pipoqueiro, resolvem comprar pipoca por puro prazer. Atenção. Orlandão, o estripador, acaba de fugir do presídio estadual. A linha fina… Anselmo e Débora no parque… Vão em frente, parece tudo bem, mas por um momento confundo meus sentimentos e os ponho a andar depressa para abrigar-se no shopping.

Ali estão seguros. Retomo o fio da história. Caminham sem pressa, param para espiar vitrines. Bem podiam… Crise joga preços para a estratosfera; Bolsa desaba.  E meus nervos também! Como posso me concentrar em uma história de paz, se os fatos jogam contra o tempo todo?

Acabou-se o jantarzinho na tasca. Coloco Anselmo e Débora em seu carro, para ir aonde não sei; mas não é véspera de feriado, as estradas estão livres, e eles têm uma certa saudade da casa comprada na praia de… Tromba d’ água atinge litoral norte de São Paulo.  A casa fica no litoral sul, mas, por prudência, desisto da viagem.

Certo que poderia compor minha história sem me deixar influenciar pelas notícias. Mas o impacto da linha fina na tela me atordoa. Fiquei um velho sensível, sujeito a confundir emoções… Bem, quem sabe pudesse me entregar à linha fina sem cuidados. Como tem muita notícia ruim, porque assim são os fatos, talvez eu estourasse na praça. Jornalista voa pelos ares em pedaços.

Outubro de 2020

 

 

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