A volta dos tucanos

O PSDB está de alma lavada com a vitória de Bruno Covas em São Paulo, depois de ter sido derrotado nas urnas em 2018, quando teve apenas 4,7% dos votos no pleito presidencial. Agora volta a se posicionar no tabuleiro, iniciando um movimento de deixar para trás os dias em que se confundiu com o antipetismo raivoso e mergulhou nas águas da antipolítica. Nascido como um partido de centro-esquerda, guinou perigosamente para a direita a partir de 2014 a ponto de, quatro anos depois, deixar se confundir com o bolsonarismo.

Na verdade, a desfiguração do PSDB vem de mais longe. Inicia-se na campanha de 2002, quando não soube defender o legado do governo Fernando Henrique Cardoso e ficou sem o projeto que vinha implementando para a nação entre 1995 e 2002. Pela força da inércia foi atraindo o voto anti-PT, mas de forma acrítica. Boa parte não aderiu aos seus valores. Ao contrário, os valores é que foram sendo rebaixados.

Na falta de um projeto nacional, desde o fim da era FHC o PSDB perdeu capacidade de dialogar com o conjunto do país, particularmente com o Brasil profundo. Com isso perdeu eleições regionais e teve reduzida sua participação em legislativos e executivos.

Manteve São Paulo, onde é governo há quase 30 anos. Talvez haja aqui uma questão a ser explicada mais pela antropologia do que pela a política. Apesar de reunir brasileiros de todos os cantos, a classe política paulista tem dificuldade de entender o restante do Brasil. E isso vem desde a revolução de 1930, como parte do conflito federativo. O PSDB carrega esse DNA em suas veias.

Não é, portanto, um problema específico do governador João Doria, embora ele também necessite se nacionalizar, para usar a expressão do ex-presidente Fernando Henrique. É um traço presente das candidaturas presidenciais dos tucanos, mesmo tendo chegado ao segundo turno com votação expressiva. O reencontro da social-democracia brasileira com seus primórdios passa por entender o Brasil de hoje e sua diversidade.

A vitória de Bruno Covas foi um alento nesse quadro. E pode contribuir para dar expectativa de poder ao PSDB. Partido político algum se consolida como força relevante se não despertar essa expectativa. Mas ela só não basta. É preciso empolgar a nação por meio de um projeto político e ter a capacidade de unir o país, assim como ocorreu com o Plano Real e Fernando Henrique nos anos 1990. Sem isso, seja quem for o candidato, terá o mesmo vício de postulações passadas que, embora legítimas, expressaram mais um projeto pessoal do que uma visão de mundo.

Soaram como música no ouvido de militantes históricos as palavras de Bruno Covas de que “será um subversivo dentro do partido”. “Vou encher a paciência para que o PSDB possa se encontrar”. Isso explica a observação de um tucano de raiz, sempre em posto de comando em campanhas eleitorais: “fazia tempo que não via uma militância tão aguerrida”.

Fazer o caminho de volta aos valores de sua fundação é uma aspiração de uma militância histórica que enxerga no neto de Mario Covas a possibilidade do reencontro do PSDB consigo mesmo. Mas há um longo caminho a percorrer, embora Bruno, ao lado do governador gaúcho Eduardo Leite, represente uma nova geração de tucanos por volta dos 40 anos de idade e com potencial de oxigenar a social-democracia brasileira.

O Brasil mudou muito, desde a fundação do PSDB. As disputas de classes se fragmentaram, as lutas identitárias tomaram força, as questões ambientais estão na ordem do dia e vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes da História. Apesar de terem trazido ganhos inegáveis para a humanidade, os avanços também escancararam grandes desigualdades que precisam ser vencidas. A pandemia tornou-as mais dramáticas.

Qualquer projeto político cuja centralidade não seja o enfrentamento das desigualdades terá grande chance de naufragar logo na largada de 2022. Sobretudo porque está se armando no Brasil uma grave crise econômica, com aumento do desemprego e a deterioração do poder aquisitivo dos brasileiros. A esquerda tradicionalmente tem um discurso articulado e populista para o enfrentamento dessas questões. Resta conferir se o PSDB e outras forças do centro estarão apetrechados para travar esse embate.

A questão da desigualdade sempre esteve no centro da política de qualquer social-democracia digna do nome. Os tucanos não deveriam temer se assumir como uma força de centro-esquerda. Até porque os ventos que em 2018 sopraram para a direita começam a tremular em outra direção. O próprio governador de São Paulo já confessou ter evoluído para uma posição de centro-esquerda.

O sucesso de Bruno Covas explica-se em parte por não ter deixado a questão da desigualdade como monopólio da candidatura de seu oponente, Guilherme Boulos. E o bom desempenho do candidato do PSOL também se explica pela ênfase dada ao tema. A responsabilidade fiscal não é um fim em si mesmo. É pré-condição para o Estado retomar a sua capacidade de investimento, principalmente na área social.

Se souber responder a estes desafios, o PSDB poderá pleitear a liderança de um bloco político pautado na defesa da democracia, no enfrentamento da desigualdade, na união dos brasileiros. Nomes para tal os tucanos têm. Independentemente do quem, o fundamental é que em 2022 o presidenciável desse bloco tenha a virtude da moderação. O Brasil cansou da polarização. Quer um presidente que agregue, em vez de dividir.

Sem personalismos. Essa talvez seja a grande lição da vitória de Bruno Covas.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 9/12/2020. 

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