Yankees, go home!

Até o início dos anos 70 predominava na esquerda brasileira uma narrativa na qual o atraso do Brasil era atribuído à exploração do imperialismo norte-americano, em conluio com os latifundiários e a burguesia urbana, todos entreguistas. Seriam eles os responsáveis por nossas mazelas e obstáculos ao progresso do país.

A expulsão do imperialismo era pré-condição para o desenvolvimento nacional. E, à violência dos opressores, deveria se contrapor a justa violência dos oprimidos. Claro, seria proibido beber Coca-Cola e ler quadrinhos do Walt Disney.

O Brasil passava por intensas transformações. Dava passos significativos para se tornar uma sociedade essencialmente urbana e industrializada. Iniciava-se o processo de modernização do campo que redundaria no potente agronegócio que temos hoje. O “milagre econômico” do regime militar acontecia, e a esquerda insistia em seus cânones, enxergando o Brasil como um país “semicolonial”, explorado pelos yankees.

Meio século depois, essa narrativa – que já era anacrônica e tanto marcou a produção cultural daquela época – é recriada pelo filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Nele, seus diretores reinterpretam o Brasil sob as lentes maniqueístas do terceiro-mundismo.

Os habitantes da fictícia Bacurau, uma pequena e distante localidade do sertão pernambucano, vivem em uma comunidade harmônica, onde não há exploradores e explorados. Essa comunidade tem acesso a modernidades como internet e TV via satélite, mas mantém incólume sua cultura e é despida de preconceitos. Bacurau é um pouco o paraíso idealizado pelos cristãos e também o da utopia comunista.

O mal é externo a Bacurau, vem como ameaça de fora. Enquanto seus moradores são intrinsecamente bons, o político que expressa a burguesia entreguista é intrinsecamente mal.

Não é difícil descobrir o alinhamento ideológico de Kleber e Juliano. O personagem Tony Jr., que só aparece na cidade porque é candidato à reeleição para prefeito, chega ao lugarejo distribuindo alimentos e medicamentos com validade vencida. Seu veículo estampa uma propaganda com as cores amarela e azul, seu número é 150. Por “coincidência”, são justamente as cores do PSDB e o número da cédula eleitoral do PMDB (15), dois partidos golpistas, segundo o credo lulo-petista.

Os tentáculos do polvo imperialista chegam a Bacurau para destruir aquela comunidade pura e idílica. Seu agente é um grupo de norte-americanos, cujos membros começam a caçar os moradores como se estivessem em um safári humano ou em um game eletrônico, com cada assassinato valendo pontos.

Não precisa ser Sherlock Holmes para descobrir uma aliança entre o político demagogo explorador do povo e os yankees assassinos, que contam ainda com a cumplicidade de um casal da burguesia paulistana. O filme reedita a tese cara à esquerda: contra a violência do opressor, a violência dos oprimidos. São eles que vão “libertar” Bacaurau, sob a liderança de um justificado “banditismo revolucionário”.

Lunga, o personagem bandido para nenhum miliciano botar defeito, é uma mistura de Lampião, Lúcio Flávio (chefe de uma quadrilha de assaltantes de banco dos anos 70, idolatrado pela esquerda festiva) e Che Guevara. Veste-se como se estivesse nas selvas e é respeitado pela comunidade, em retribuição à proteção que ele dá a seus habitantes.

No meio do seu povo, Lunga se sente à vontade, assim como Marcinho VP se sentia no Morro de Santa Marta e Nem, na Rocinha. Esse Robin Wood da caatinga retorna a Bacurau para dizer que “se alguém tem de morrer que seja pra melhorar”, conforme a canção de Vandré.

O fetiche do banditismo revolucionário é antigo na história do país. Nos anos 30 a esquerda que preparava o levante de 1935 via no cangaço de Lampião um elemento revolucionário, prova de que as massas camponesas estavam pegando em armas.

O filme de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles enquadra-se na mesma categoria de Democracia em Vertigem, de Petra Costa. É pura propaganda política a serviço das teses lulo-petistas.

Na homenagem aos mortos de Bacurau uma voz em off inclui Pedro Teixeira (líder camponês assassinado em 1962, personagem de Cabra marcado para Morrer), Marielle Franco e Marisa Letícia! Ah, bom, o imperialismo foi o responsável pela morte da esposa de Lula.

Sem sutilezas, o filme sugere: se Bacurau se livrou do imperialismo opressor, o Brasil também pode. Para coroar a anedota, só faltou incluir no final as palavras de ordem “Yankees, go home!”.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 2/10/2019. 

Um comentário para “Yankees, go home!”

  1. Que filminho, hein?
    ¿Dá para comparar com Ingmar Bergman? [rsrs]
    Bom…, o cinema brasileiro contemporâneo é mesmo bem brega e Kitsch.
    Quanto a religião cujo nome é Petismo, bem sabemos:

    Kuá! Kuá! Kuá! O PT e seus satélites, — juntamente com a tal religião do Petismo —, cultuam a mediocridade, a baranguice, nivelam a cultura, a arte e a educação básica para baixo.
    O petismo, junto com o PT, são o Kitsch político.

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