Sobre pombos e falcões

Os falcões, loucos para fazer a Guerra, saíram enfraquecidos da reunião do Grupo de Lima. Ao menos por enquanto, a opção por uma intervenção militar na Venezuela foi descartada pelos países participantes. A voz que se ouviu foi a dos pombos. Entre eles o vice-presidente Hamilton Mourão.

O general saiu do encontro maior do que entrou. Foi o mais contundente na condenação de uma via extrema, na qual os maiores perdedores seriam os países sul-americanos.

Por meio de seu discurso, o Brasil retornou ao leito natural de uma política externa comprometida com a defesa dos direitos humanos, da não ingerência e do respeito à autodeterminação dos povos. O vice expressou a posição do governo, concertada com os outros poderes da República e com as Forças Armadas. Vivemos um paradoxo: os militares fizeram o papel de pombo e o Itamaraty, o de falcão.

A reunião de Bogotá foi alentadora. Nem por isso o risco de uma escalada militar está inteiramente afastado. Continua como opção dos Estados Unidos e também da oposição venezuelana, derrotada no ultimo sábado, considerado Dia D para a queda de presidente Nicolás Maduro. Países como a Colômbia ainda podem mudar de posição e engrossar o coro da intervenção.

O Brasil foi arrastado para a estratégia do sábado. Vozes como as do general Augusto Heleno e Carlos Alberto Santo Cruz e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, desaconselharam a participação brasileira em uma operação onde era tênue a linha divisória entre ajuda humanitária e intervenção em outro país. Idealmente, ajudas humanitárias devem ser dirigidas por organizações multilaterais, para não serem instrumentalizadas por alguma das partes em conflito.

As escaramuças em nossa fronteira com o país vizinho evidenciaram o quanto flertamos com um envolvimento além do desejável.

A esperada erosão do apoio das Forças Armadas venezuelanas ao ditador Maduro não aconteceu. A coesão de sua cadeia de comando continua intacta. Deserções de alguns sargentos nem de longe corroeram sua unidade. É aqui que mora o perigo: a conjunção das pressões de uma oposição desesperada, sem bala na agulha, e os interesses geopolíticos dos Estados Unidos.

Quase dois séculos depois, a doutrina Monroe está de volta. A “América para os americanos” neste caso concreto significa retirar a Venezuela da órbita da Rússia e da China, nem que seja pela via armada. A presença das principais potências mundiais em um conflito militar traria para a região uma instabilidade jamais conhecida. A América do Sul nunca foi palco conflitos mundiais. A tradição pacífica, tão própria da nossa política externa de Estado, está ameaçada pelo risco embutido neste atual contencioso.

Os interesses geopolíticos dos Estados Unidos se chocam com os do Brasil. Não queremos uma guerra em nossa fronteira e em uma região – a Amazônia – estratégica para nós. Nossos militares são extremamente zelosos quanto à nossa soberania sobre a Amazônia brasileira. E a verdadeira ameaça a essa soberania não vem de um sínodo de Bispos. Vem da possibilidade de uma guerra próxima com seus elementos exógenos.

Não há outra alternativa para a crise venezuelana a não ser a via diplomática, com o apelo a uma participação dos mecanismos multilaterais na costura de uma solução negociada e em ações de ajuda humanitária.

A hora é dos pombos, não dos falcões.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 27/2/2019.

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