Prazer proibido

Há rios de champanhe na vida de Orson Welles. E eu devia ter escrito “champagne”, sem cedências ortográficas, com o mesmo imperativo com que Welles o exigia estupidamente gelado, quando, confessando-se a Deus, disse: “Há três coisas intoleráveis na vida, café frio, champanhe morno e mulheres sobrexcitadas.”

Hoje, uma horda de homens e mulheres sobreexcitados pisa e seca o rio de champanhe de Orson Welles. Arrebatados por um ardor evangélico, de tipo apeado e vegetal, os novos hunos estão possessos do espírito de um Savonarola, prontos a queimar hereges na praça pública.

Queimariam já, em apocalipse e fúria, o anafado Hitchcock, hedonista epidérmico, que exigia à produção dos seus filmes que vestisse as actrizes com a roupinha interior sumptuosamente cara. Reparem, os filmes de Hitchcock eram inexibicionistas, de um pudor que tomariam certas alas do Vaticano.

“Mas, Alfred, ninguém vai ver o raio do sutiã”, gemia o produtor. E logo o pérfido inglês explicava: “Ninguém vê, mas a actriz sente.” Vestia-as de La Perla, digo eu, sutiãs e cuequinhas de seda, um debruado finíssimo fio de ouro, um recôndito diamante. Nos filmes que fizeram com ele, Grace Kelly, Kim Novak, Eva Marie-Saint ou Tippi Heddren provocam ao espectador inomináveis sensações que o espectador sente, sem saber que só as sente pelo que verdadeira e não fingidamente a pele das actrizes sentia.

Hitchcock é o cineasta anti-pessoano por excelência, o que talvez fosse o começo de um belo parágrafo se fosse disso que eu quisesse falar. Não quero. Quero é vingar o hedonismo ofendido. Quero vingar o gosto dos prazeres de boca que se via num Mário Soares ou num François Miterrand, num Ernest Hemingway, nos fálicos havanos que as bocas, não obstante comunistas, de Fidel de Castro ou do mítico Che Guevara chupavam impudicas.

Cantemos a empada de perdiz, a delícia do foie-gras fumado, a lebre com trufas, o húmido e vermelhíssimo tártaro, a delicadeza do cozido à portuguesa, a graça rural da feijoada à transmontana, a fina subtileza de umas iscas, o queijo… e peço perdão, pluralizando penitente, os queijos da Serra e de Serpa, amanteigados ou curados, o Comté, que as vacas francesas Simmental nos prodigalizam, o Brie de Meaux.

Olhos vegan espreitam-nos a cada esquina, tremendas máquinas de olfacto perseguem o aroma de um Partagas série D n.º 4, príncipe dos havanos. São olhos vigilantes: perseguem cada garfada, cada copo ou cálice. Trocaram a velha treta da exploração do homem pelo homem, pela marcação homem a homem. Há um exército de conspícuos e virtuosos especialistas prontos a proibir, prontos a culpar-nos pela boca, narinas, palavras, desejos e mesmo omissões. Estão prontos a pendurar o último hedonista, pela língua, nos pelourinhos da Imprensa e das redes sociais. Em ataque às gorduras, molhos, carnes, aos vinhos que o poeta persa cantou, ouçam essas vozes mansas, todas derretidas em inflexões angélicas, a culparem-nos, prometendo-nos estágios num purgatório de onde só se sai para o inferno. Impele-as o terrorismo de um bárbaro bem-estar.

A darmos ouvidos, melhor será dar ouvidos ao passado. Mesmo o naturalíssimo bom selvagem que talvez houvesse em Rousseau nos avisou: “Sempre notei que as pessoas falsas são sóbrias e a grande reserva à mesa anuncia muitas vezes virtudes fingidas e almas dúplices.” Uma variada mesa à sua frente e nela a estética natureza morta de vinhos, peixe e carne, outro filósofo, um deliciado Voltaire, põe-me estas palavras na boca: “Escolhi ser feliz, porque é bom para a saúde.”

Da Página Negra, texto publicado na coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a velha ortografia.

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