Começou mal

“Bolsonaro assume a Presidência dividindo o país entre ‘nós’ x ‘eles’. Marcando a divisão. Enfatizando a divisão. É o lulo-petismo de sinal trocado. Tempos sombrios virão.”

Postei isso aí acima no Facebook no finalzinho da tarde de 1º de janeiro, depois de acompanhar pela TV a cobertura da posse de Jair Bolsonaro e ouvir seus dois discursos.

Houve 36 comentários – quase todos contestando minha opinião.

No entanto, não estou sozinho.

Nos três grandes jornais de circulação nacional deste dia 2, há diversos textos exatamente no tom do que afirmei.

“Os discursos feitos ontem pelo presidente Jair Bolsonaro, no Congresso Nacional e no parlatório do Palácio do Planalto, foram atos de campanha, e não atos de governo – como era de esperar de um veterano político que assumia a Presidência da República com promessas de ‘reconstruir’ o Brasil”, afirmou em editorial o jornal O Estado de S. Paulo.

E creio que nem mesmo o novo chanceler, o sujeito que acha que aquecimento global é invenção do marxismo cultural, diria que o Estadão é socialista.

O editorial prossegue:

“ Bolsonaro repetiu os chavões da campanha, em vez de apontar soluções efetivas para os problemas do País. Insistiu em alguns diagnósticos genéricos, mas nos dois discursos não se vislumbrou ao menos um pálido esboço de plano de governo para enfrentar tais problemas. E, se a preleção no Congresso não deu razões para o otimismo, o segundo discurso de ontem, no parlatório, resvalou num populismo rasteiro – um claro sintoma de que não se deu conta dos desafios que terá de enfrentar nem do real papel que terá de exercer como presidente da República.”

E mais adiante:

“Não lhe faltaram palavras para explorar – para quê? – o atentado que sofreu e que, como disse, foi executado pelos ‘inimigos da pátria, da ordem e da liberdade’. Na verdade, o crime foi obra de uma única pessoa, como mostram as investigações criminais. Depois, no parlatório, Bolsonaro teve a desfaçatez de dizer que o País estava, naquele momento, se libertando do socialismo e, tirando a bandeira nacional do bolso, num gesto teatral, garantir que aquele símbolo nunca seria manchado de vermelho – exceto o sangue derramado para garantir a pureza da pátria. A que caminhos o presidente pretende levar a Nação, com afirmações tão fora da realidade?”

Desfaçatez. Perfeita a definição. Desfaçatez.

E o editorial do Estadão conclui:

“Além de descer do palanque, o presidente Bolsonaro precisa colocar os pés na realidade. O discurso populista é comprovadamente incapaz de assegurar os bons resultados que o País demanda. O Brasil, já dissemos nesta página, tem esperanças no governo Bolsonaro. Mas cabe a ele, e só a ele, transformar essas esperanças num Brasil próspero e sem divisões.”

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Em editorial, a Folha de S. Paulo fez comparações corretíssimas entre o ex Lula e Bolsonaro:

“Como o petista Luiz Inácio Lula da Silva, sua nêmesis, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) se pretende uma ruptura. (…) Populista, a exemplo do rival, o novo mandatário precisa de vilões a combater, reais ou imaginários. Ao discursar, transformou um ataque tresloucado durante a campanha em uma conspiração derrotada de forma épica. (…) Os pronunciamentos apelaram ao embate ideológico e, infelizmente, pouco ou nada adiantaram da agenda do governo.”

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Em sua coluna no Estadão, Vera Magalhães escreveu:

“Diferentemente da expectativa de que usaria ao menos uma das falas para pregar a união do País e prometer governar para todos, o presidente preferiu se dirigir aos próprios eleitores e aliados.

“Na Câmara, fez um discurso de forte tom ideológico, intercalado com um aceno para os congressistas ao anunciar que estava ‘casando’ com eles, mas com as cláusulas do contrato nupcial previamente estipuladas: nada de negociação nas velhas bases partidárias, a agenda será aquela com a qual foi eleito e os deputados e senadores serão instados a endossá-la por meio da pressão popular.

“Mais tarde, no parlatório, o tom ‘palanqueiro’ foi ainda mais acentuado, com as menções historicamente equivocadas à superação do ‘socialismo’, como se o Brasil, sob Michel Temer, tivesse um governo sequer de esquerda. Soou apenas caricato. Da mesma forma que o grito de guerra de que a bandeira do Brasil nunca será vermelha, a não ser que seja a cor do sangue que poderá ser derramado para defendê-la.”

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Mas que socialismo, ô meu? Que raio de socialismo é esse do qual o capitão promete livrar o país? Quando é que houve socialismo no Brasil? O governo Temer era socialista?

No Globo, Ascânio Seleme deu a seu artigo este título: “Que socialismo, presidente?”

“Jair Bolsonaro fez um discurso mais político e popular no Parlatório. Parecia um candidato em campanha. E, como sempre ocorre nesses casos, exagerou no tom e no conteúdo. Dizer que estava ali para libertar o Brasil do socialismo não foi apenas retórica, foi discurso para quem queria ouvir isso mesmo. Mas era bobagem. Primeiro, de que socialismo falava Bolsonaro? Do herdado de Michel Temer? Se fazia referência aos governos petistas, chegou atrasado, seu antecessor já havia mudado a direção do governo para a linha que o empossado escolheu seguir. E mesmo os governos dos ex-presidentes Lula e Dilma nunca foram socialistas. Foram sociais democratas com foco na distribuição de renda. Ponto final.

“No tom, foi além do ponto ao fazer fora do script a referência à bandeira brasileira. Nem tanto ao repetir o mantra de que a bandeira brasileira jamais será vermelha, mas ao dizer que só ficaria vermelha com o seu sangue na defesa das cores verde e amarela. Exagerou e a plateia adorou. Aliás, público como aquele não queria um discurso que não fosse nesse tom. Bolsonaro entendeu isso e falou da família brasileira que vai defender de nefastas ideologias. Usou e abusou de ataques à esquerda, afinal por que mesmo ele estava ali?

“No ponto em que falou de libertar o Brasil do socialismo, citou ainda o gigantismo estatal e o politicamente correto. Ponto polêmico que seria bom explicar melhor. Porque o politicamente correto é uma evolução e significa evitar o uso de linguagens ou ações que sejam excludentes. E Bolsonaro disse no Congresso que governaria sem discriminação. Em outros pontos do discurso, o presidente repetiu com palavras diferentes, mais inflamadas e de maneira mais direta, o que já havia dito ao tomar posse.”

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Posse não é campanha eleitoral. É hora de somar, de chamar para o entendimento, de dizer que vai governar para todos os brasileiros.

Bolsonaro fez questão de dividir, como escreveu Míriam Leitão no Globo:

“O presidente Jair Bolsonaro poderia ter só somado ontem, mas preferiu dividir. Era momento de festa cívica, o da posse de um presidente eleito, resultado da oitava eleição consecutiva desde a redemocratização. Mas ele escolheu restringir em vez de ampliar. Isso ficou claro até no momento mais tocante, quando, no Parlatório, a primeira dama Michelle falou aos deficientes auditivos usando a linguagem de libras para incluí-los na cerimônia. Logo depois, Bolsonaro afirmou que iria acabar com o politicamente correto. O gesto que sua mulher acabara de fazer era politicamente correto. E lindo.

“Nos seus discursos, Bolsonaro deu sinais em sentidos opostos. Convocou o Congresso para ajudá-lo a reconstruir o país e resgatar a esperança. Num improviso, brincou que estava ‘casando’ com o Congresso. Falou em dar mais poderes aos estados e municípios. Disse que reafirmava seu compromisso de construir uma sociedade sem discriminação e sem divisão.”

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Jair Bolsonaro falou em seu discurso que vai libertar o Brasil da responsabilidade econômica.

Mas que irresponsabilidade econômica? Nos últimos dois anos e sete meses, o governo Michel Temer mudou completamente os rumos errados do governo Dilma Rousseff – como eu já escrevi aqui uma dezena de vezes ao menos. Deu um cavalo de pau, mudou o curso da política econômica em uma curva em U, uma mudança de 180% graus. Veio fazendo um governo exatamente na direção que o novo ministro da Economia, Paulo Guedes, deverá seguir.

Em seu artigo, Míriam Leitão demonstra o absurdo que foi a frase de Bolsonaro:

“Ele afirmou que queria a ajuda do Congresso para libertar a pátria da ‘irresponsabilidade econômica’. Precisou ser lembrado pelo presidente do Senado, Eunício Oliveira, de que ele não começava do zero, que vários avanços econômicos foram conseguidos na gestão do ex-presidente Temer.

“Sua insistência no que chama de ‘ideologia de gênero’, ou ‘viés ideológico’, é a repetição do que disse na campanha, mas é contraditório. Esse é um governo com viés e ideologia. Foi eleito entoando discurso de direita. Governará com estas ideias. Isso é natural. O que ofende os fatos é dizer que agora o país estará ‘livre das amarras ideológicas’. Está trocando amarras, pelo visto.

“No ponto mais perigoso do seu discurso no Congresso, Bolsonaro coletivizou o ato do criminoso que atentou contra a sua vida ao dizer: ‘quando os inimigos da Pátria, da ordem e da liberdade tentaram pôr fim à minha vida, milhões de brasileiros foram às ruas’. Nessa narrativa ele joga o epíteto de ‘inimigos da pátria’ aos seus adversários políticos e os mistura com o autor do atentado. Cria uma ambiguidade perigosa. Disse que foi eleito a partir da reação da sociedade a esses ‘inimigos’. O Brasil conhece o risco das narrativas que distorcem os fatos. Conhece também o perigo dos líderes que se apropriam da bandeira nacional como sendo expressão de uma ideologia, em vez de ser o manto que nos une.”

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É isso. Depois de 11 anos, 4 meses e 12 dias de governos lulo-petistas, de desfaçatez, mentiras, mistificações, seria uma maravilhosa bênção não termos mais 4 anos de desfaçatez, mentiras, mistificações.

É torcer para que Jair Bolsonaro surpreenda e faça um governo  melhor do que seus discursos no dia da posse.

2/1/2019

A foto é de Ricardo Moraes/Reuters.

Um comentário para “Começou mal”

  1. Concordo em gênero, número e grau com Sergio Mendes e com os jornalistas citados.
    Só gostaria de acrescentar que o gesto e as palavras de Michelle Bolsonaro foram comoventes, sim. Só não me digam que ela é tímida…

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