A loucura não é normal

A canção “Paciência”, de Lenine, explica bem o momento em que vivemos. O Brasil não tem tempo a perder, mas Bolsonaro finge que é normal um presidente atentar contra a harmonia entre os três poderes ao divulgar em seu twitter mensagem com ataques ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal. Não satisfeito, repetiu a dose três dias depois, culpando a classe política pelos males do Brasil.

Nero tocava harpa enquanto Roma pegava fogo. Jair Bolsonaro usa o Twitter para agredir as instituições da República enquanto a economia vai ladeira abaixo e o otimismo se esvai. Em menos de cinco meses ofendeu as Forças Armadas, o Congresso, as universidades, a Suprema Corte e os milhares e milhares de brasileiros a quem chamou de “idiotas úteis”.

Por trás da aparente loucura, há lógica no ataque das centúrias bolsonaristas à sociedade organizada. A guerra contra o establishment, da qual o presidente é o maior cruzado, tem por objetivo substituir a democracia representativa por um modelo cesarista. Nele, o sistema centrado na autoridade de um chefe canonizado tem a missão de “regenerar a sociedade”.

O “Ave César” é estimulado pelo próprio presidente. Seu ministro de Relações Exteriores o comparou a Deus. Nesta segunda, nosso César divulgou em seu Facebook um vídeo de um obscuro pastor congolês, no qual o religioso diz que Bolsonaro, assim como Ciro, rei da Pérsia, foi estabelecido por Deus. Como só o demônio se opõe a Deus, o pastor aconselha os brasileiros a não se oporem ao ungido.

A insuspeita Janaína Pascoal, deputada eleita com 2 milhões de votos, chegou a duvidar da sanidade mental do mito, por ter divulgado o vídeo do pastor. A musa do impeachment acena sair do PSL por não achar normal quem estar no governo convocar manifestações, em vez de governar.

De fato, não vivemos tempos normais. O bolsonarismo já inventou o “governo ingovernável” e o protesto a favor. Nesse clima de radicalização, convocou manifestações para o próximo dia 26, com o objetivo de emparedar o Congresso e o Poder Judiciário. Provocou rachaduras na sua base social. Sua ala mais moderada se recusa participar da manifestação chapa branca, por considerá-la um tiro no pé, ou, quem sabe, na cabeça.

Até os quartéis estão rachados. De coronel para cima, os oficiais são contrários à convocação de atos. E de major para baixo são favoráveis. Era o que nos faltava o Clube Militar ser um dos autores da convocação dos atos pró Bolsonaro. Voltamos aos tempos do tenentismo ou à década de 50, quando o Clube Militar era centro de agitação política?

Diante das fissuras, os bolsonaristas mudaram de alvo. Agora dizem que as manifestações serão contra os partidos do “Centrão”. É mais uma estultice. Esses partidos têm quase a metade dos deputados federais. Estigmatizá-los é o caminho mais rápido para a inviabilização da reforma da Previdência.

Esse é o ponto. Historicamente, toda vez que houve um estado beligerante entre o Executivo e o Congresso, o próprio presidente se deu mal e o país foi arrastado para grave crise institucional. Isso esteve presente nas crises de 1961, de 1964 e nos impeachments de Collor e Dilma.

Na queda de braço estabelecida, a resposta do Poder Legislativo à tentativa de emparedamento tende a ser a de subtrair o papel do Poder Executivo, estabelecendo uma espécie de “parlamentarismo branco”. Isto pode até ser positivo por destravar as reformas previdenciária e tributária, mas amplia a desarmonia entre os poderes constituídos, o que não é bom para a democracia.

Voltando à música de Lenine. Já passou da hora de Bolsonaro parar de fingir que a loucura é normal e começar a governar. Antes que a paciência dos brasileiros acabe.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 22/5/2019.

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