Crônica da eleição do horror (8)

Dia nº 8 – Segunda-feira, 15 de outubro

Bolsonaro reage muito mal à violência. Mas mal demais

Tida e havida pelo lulo-petismo como revista da direita mais direita que possa haver, maior símbolo, para os seguidores da seita do prisioneiro de Curitiba, da imprensa golpista burguesa sem vergonha, etc, etc, etc, ao lado da Rede Globo, foi a Veja, no entanto, que trouxe, na edição desta semana, um dos mais firmes, abrangentes e lúcidos ataques a Jair Bolsonaro.  

E foi logo na Carta ao Leitor, o editorial da revista, o texto que é expressão da opinião dos responsáveis pela publicação.

Faço questão de ter ao menos parte do texto aqui nestas minhas crônicas sobre o segundo turno da eleição presidencial e como a imprensa tem tratado os principais assuntos relacionados a ela.

“Em reportagem nesta edição, Veja relata casos de violência aparentemente motivada por razões políticas que ocorreram nos últimos dias. O mais ruidoso aconteceu na Bahia, onde um mestre de capoeira de 63 anos, defensor do petista Fernando Haddad, foi assassinado com doze facadas por um defensor de Bolsonaro, de 36 anos, que vestia uma camisa alusiva a seu candidato.

“Instado a falar sobre o caso, Bolsonaro disse que o assassino ‘comete lá um excesso’ e perguntou ‘o que eu tenho a ver com isso?’. Em seguida, meio a contragosto, emendou com ‘eu lamento, peço ao pessoal que não pratique isso’ e logo voltou a eximir-se de qualquer responsabilidade. Disse que não tinha ‘controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam’ e completou afirmando que ‘a violência veio do outro lado, a intolerância veio do outro lado. Eu sou a prova, graças a Deus, viva disso aí.

“Além do equívoco ao classificar um homicídio como ‘um excesso’, Bolsonaro perdeu uma oportunidade importante de, em vez de apenas lamentar o ocorrido, tentar, ao menos tentar, serenar os ânimos. É evidente que o candidato não tem ‘controle’ sobre seus milhões de apoiadores, nem pode ser responsabilizado pelo que fazem ou deixam de fazer, mas é nessas horas que um líder responsável deve usar sua ascendência, seu prestígio e sua popularidade para pedir paz e concórdia.

“Quando Bolsonaro foi alvo do atentado abjeto em Juiz de Fora, logo correu o boato de que o agressor agia a mando de algum partido político (a mesma reportagem de Veja revela detalhes inéditos da investigação). Mas os demais candidatos não ficaram paralisados diante dessa suspeita infundada nem reagiram ao ataque perguntando ‘o que eu tenho a ver com isso?’. Ao contrário: todos se pronunciaram sobre o acontecido, repudiando a agressão em termos inequívocos, e alguns até suspenderam temporariamente a campanha em respeito ao concorrente ferido. Mandaram, assim, à sociedade um aviso claro de que esse tipo de agressão é intolerável.”

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A verdade é que Jair Bolsonaro, e o que ele representa, é, a rigor, intolerável.

Pena que a maioria dos brasileiros tenha escolhido colocar no segundo turno um projeto intolerável de um lado e outro projeto intolerável do outro lado.

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Um país de surdos intolerantes

Os candidatos são intoleráveis. E estamos todos ficando intolerantes.

O Brasil está dividido hoje em três bolhas – três grupos distintos de pessoas, que formam bolhas e vivem dentro delas, cada um dentro da sua.

São bolhas fechadas, estanques. Quem está dentro de uma delas não se comunica com quem está dentro de qualquer uma das outras duas.

Há os que vão votar em Bolsonaro – ou porque são fiéis da nova seita bolsonarista, ou porque nem concordam tanto assim como o que o capitão diz, mas preferem qualquer outra coisa ao PT. Há os que vão votar em Haddad – ou porque são lulo-petistas mesmo, são fiéis da seita, ou porque preferem até mesmo o PT a admitir a possibilidade de ter Bolsonaro na Presidência.

E há o terceiro grupo, o do #ElesNão, que se traduz também em #VotoNulo ou #VotoBranco.

Somos hoje um país de surdos. Todo mundo fala – ninguém escuta. Ouvir, então, isso seria absoluto milagre.

A existência das duas primeiras bolhas não chega a ser novidade, de forma alguma – é fenômeno sabido, conhecido, analisado, reanalisado. A existência da terceira é coisa bem recente, que cresceu bastante logo após os resultados do primeiro turno.

Foi muito bem pautada – e bem executada – a reportagem publicada no Estadão de domingo sobre as três bolhas. Um belo trabalho do repórter Gilberto Amendola. Reportagem, essa coisa tão necessária, muitas vezes tão negligenciada.

Eis o link para a matéria “Bolhas” não se conversam no segundo turno.

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Simplificando, é assim, conforme Orlando Barrozo pegou de um tuiteiro e publicou no Facebook:

“Se você vota no Bolsonaro, é fascista e homofóbico.

Se você vota no Haddad, é bandido e mau-caráter.

Se você vota nulo, é omisso e covarde.

Que povo tolerante nos tornamos!”

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Verdade: estamos nos tornando mais e mais intolerantes.

Sempre entendi que não se deve confundir a arte que o artista produz com a pessoa do artista, suas opiniões pessoais, seu estilo de vida, sua visão política. É idiotice não gostar dos versos de Rimbaud porque traficou escravos, ou dos de Erza Pound porque ele demonstrou simpatia pelo nazismo, ou dos de Caetano Veloso e Chico Buarque porque um é Ciro e o outro é PT.

Sempre entendi isso. Tenho certeza de que o certo é isso.

No entanto, me deu um pouco de engulho ver a foto de Regina Duarte ao lado de Jair Bolsonaro, nos jornais de domingo.

Sempre simpatizei com Regina Duarte, sempre gostei dela, e já faz muito tempo – desde, na verdade, que a vi em Lance Maior, do paranaense Sylvio Back, ali por 1968.

Minha simpatia por ela diminuiu agora. Apesar de eu saber que é errado misturar a arte que a pessoa faz com aquilo que ela pensa.

Faço força para não ser assim – mas a verdade é muitas vezes me incomoda quando surge a voz de Chico Buarque no meu iPod. Não é que eu pense claramente, nitidamente: pô, tão brilhante compositor, tão ignorante politicamente. Não, não é isso. Não passa pela razão, é puro sentimento.

Estamos nos tornando mais e mais intolerantes.

Faço o possível para lutar contra isso. Como diria Caetano, quero careço preciso. É preciso estar atento e forte.

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Melhor não chorar

A criatividade brasileira prossegue a toda. Não importa a profundidade do fosso em que estamos entrando a partir de 1º de janeiro, as piadas não param. Aí vão mais algumas:

* “Haddad mudou o discurso, o tom da campanha, a cor do partido. Logo ele muda de sexo e teremos uma nova Dilma.” (Pescada da página da Márcia Motta Velloso no Facebook.)

* “Durante a entrevista deste domingo, a mulher de Bolsonaro olhava para ele com medo do que viria de lá. Assustada! Imagine nós, que não convivemos com ele.” (Da jornalista Maura Fraga, no Facebook.)

* “Se organizar direitinho, todo mundo continua brigando por política até o Natal. E aí a gente se livra de fazer amigo secreto!” (Autor desconhecido.)

* “Ao assumir o poder, o PT prometeu realizar as reformas política, fiscal, trabalhista, agrária e da Previdência. Após 13 anos no poder realizou apenas duas reformas: as do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia.” (Regina Passarelli, do Rio, no Fórum de Leitores do Estadão.)

* ”O candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, vai dar uma virada radical em sua campanha. Ele já preparou milhares de camisetas com o slogan #PTnão para usar em aparições públicas.” (Sensacionalista.)

Ou, como resume o título do jornal italiano que meu amigo Sérgio Kobayashi descobriu: “Il Brasile vota a destra perché la sinistra è ridicola”.

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Agora falando sério (como diz o título da maravilhosa canção de Chico do álbum Chico Buarque de Hollanda vol. 4, de 1970): vale a pena ler o artigo de Fernando Gabeira, hoje no Globo. Gabeira é, sem dúvida, uma das grandes cabeças deste país.

Novos tempos, nova tática

Fernando Gabeira, O Globo, 15/10/2018

Esquerda atrelou o seu destino ao de um homem na cadeia, supondo que estava repetindo a história de Mandela

Manifestações dos leitores são um estímulo para avançar um pouco nesse oceano de emoções eleitorais. Alguns acham que trato de temas etéreos, que não interessam agora. Outros, que sou condescendente com Bolsonaro.

Talvez as pessoas estranhem que me dedique a um cenário pós-eleitoral, pois acho que o resultado do segundo turno é relativamente previsível. Os que me acusam de condescendente não percebem que estou tentando transferir uma experiência de relação com Bolsonaro para oferecer, se não uma tática, elementos de uma tática para o futuro próximo.

Minha experiência é de quem defendeu no Parlamento bandeiras que Bolsonaro ataca. As frases preconceituosas que ele eventualmente dizia são as mesmas que ouvimos nas ruas de todo o Brasil.

Minha relação com ele era de alguém que representava minorias, que até hoje apoio, com alguém que, no meu entender, estava mais perto do espírito majoritário das ruas.

Um ponto de convergência foi a luta contra a corrupção. Aliás, foi essa luta, no meu tempo de político, que me permitiu disputar com alguma chance eleições majoritárias.

Minha atitude não foi a de rotular de fascista, misógino, racista ou homofóbico, mas compreender que, por baixo dessas reações populares, existe uma insegurança sobre as mudanças culturais, e é preciso buscar avanços que não provoquem um retrocesso maior. Discussões em baixo nível no Congresso contribuem para abrir a Caixa de Pandora na sociedade. Hoje, infelizmente, está aberta.

O primeiro ponto de contato para enfrentar a maioria, portanto, é afirmar que movimentos minoritários e culturais não precisam ser coniventes com a corrupção dos partidos de esquerda, ter vínculos com o poder, nem depender financeiramente dele. Delicado também será enfrentar a política ambiental de Bolsonaro, que pretende fundir os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente.

Compreendo que existam interfaces entre agricultura e meio ambiente. Mas os problemas ambientais são muito mais amplos: poluição urbana, destinação do lixo, redução das emissões, e há ainda o mar com seus corais, esperando uma ampla política de proteção.

Um ministro da Agricultura dificilmente seria capaz de cuidar de todos esses temas. Bolsonaro afirma que uma de suas missões é acabar com a indústria de multas do Ibama.

É um erro acenar com isso, embora possam existir multas excessivas ou mal aplicadas. O ideal seria uma política de preparação dos próprios agricultores para que pudessem produzir nas condições mais amigáveis ao meio ambiente.

Isso não é um argumento apenas ecológico, no sentido de preservar a produção a longo prazo. As regras internacionais são cada vez mais exigentes: é também uma questão econômica.

Não pensem que não tenho consciência do enorme trabalho que teremos. Desde o princípio, afirmei que a tática da esquerda estava errada. Além de não reconhecer seus erros, atrelou o destino ao de um homem na cadeia, supondo que estava repetindo a história de Mandela.

Ao atrelar o destino a Lula, o PT escolheu o caminho mais difícil. E a esquerda saiu dividida. Ciro talvez fosse um pouco mais competitivo. Ainda assim, a onda era muito forte.

Isso tudo é passado. Estamos quase no meio do segundo turno. As grandes escolhas foram feitas. Não criei essa situação. Forças poderosas estiveram em choque. É razoável que, prevendo o desfecho da batalha, comece a olhar para a frente, tentando desvendar, a partir da experiência, uma fórmula de lidar com o poder emergente.

Claro que, nos embates que nos esperam, outras posições vão surgir. Creio ter aprendido alguma coisa com a eleição de Donald Trump. Ali ficou claro que era preciso rever a tática, pois as críticas acusatórias só o faziam crescer.

Muita gente se disse surpreendida com o que aconteceu nas eleições. Algumas surpresas sempre acontecem. Mas quantos não quiseram ver, por achar que as coisas estavam se desenrolando de uma forma que não lhes agradava.

Bolsonaro era recebido por pequenas multidões nos aeroportos. Falava de luta contra a corrupção e, embora alguns concordem, foi ele que percorreu o Brasil defendendo-a. Bolsonarofalava de segurança pública, e não houve um programa de segurança alternativa contra o seu. Vi seu crescimento e notei como os ataques o fortaleciam.

Só me resta agora segurar a onda do jeito que aprendi. Não significa que esteja certo. Apenas uma voz.

15/10/2018

Dia nº 7 – Vem aí o General Árvore Boa é Árvore Derrubada

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