Um copo e duas gotas

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Estou disposto a cantar os mil e um beijos na boca que foram dados por causa de uma flûte de champanhe. Mais do que vir aqui pagar essa dívida libidinosa da humanidade, deixem que me ajoelhe e reze a outra flûte, a flûte ideológica.

Uma taça de champanhe capitalista fez tombar a camarada Greta Garbo do reaccionário campo comunista para as libertadoras sedas e veludos capitalistas, na Paris que o realizador alemão Ernst Lubitsch inventou para ela em Ninotchka. Sim, salas cheias do mundo inteiro acreditaram: Greta Garbo era a camarada Ninotchka, uma estrita funcionária soviética. O comunismo vestira-a quase de freira e pusera-lhe uma sombra de escuro nos olhos, na boca as pedras de um muro de Berlim avant la lettre. Uma burka político-filosófica, portanto.

Essa incurvável camarada Ninotchka encontra então um dissoluto representante do capitalismo, que lhe deveria parecer um sapo, mas que, a golpes de charme, collants e jóias, lhe vai parecendo um príncipe. A gota de misericórdia é a efervescente flûte de champanhe. Ninotchka bebe-a e ri. Era a primeira vez que, gota de champanhe na rubra boca comunista, Garbo se ria no cinema.

O realizador Howard Hawks inventou outra gota num western viril e completamente bipolar, de tanto ser ao mesmo tempo comédia e drama. Vejam-no e olhem para o tratado de lingerie negra e para a camisa amarela de Angie Dickinson. Não é por aí… Deixemos em paz os botões da camisa dela e concentremo-nos na gota que cai num copo de cerveja.

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Dean Martin é, no Rio Bravo de que estou a falar, um bêbado. Já bebe a má tequila e o whisky rasca de uma fronteira onde a lei do capitalismo ainda não chegou. John Wayne quer redimi-lo e põe-no de ajudante de xerife. Martin persegue agora um bandido pelas escusas ruas da pindérica povoação. Atinge-o com um tiro trémulo, mas o bandido esconde-se no saloon, um delinquente antro inimigo. Dean Martin entra e a turba ri-se dele. O perseguido desapareceu e põem-lhe um provocador copo à frente. E é nesse copo que cai, de um estrado alto, uma gota de sangue. A gota de sangue na caneca de cerveja é a delação premiada que Howard Hawks oferece a Dean Martin. O bêbado redime-se, o bandido morre e a lei triunfa. O juiz Carlos Alexandre devia contratar Howard Hawks. Até mesmo Dean Martin.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

Um comentário para “Um copo e duas gotas”

  1. Cena inesquecível. Por enquanto o nosso juiz brasileiro, Sérgio Moro, tem administrado as delações premiadas contra os corruptos sem uma gota de sangue. Mas certamente com muito suor.

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