Tempos sinistros

Como trailer de filme de terror, a primeira semana do ano que começou após o carnaval foi de arrepiar. O país aprofundou-se nas trevas do crescimento negativo, com o registro da queda de 4% do PIB em 2015 e previsões tenebrosas para 2016, se viu rebaixado pela segunda vez consecutiva pela mesma agência internacional de avaliação de risco, assistiu ao desemprego crescer 41,5% e à inflação não ceder um único milímetro.

E nenhum dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – escapou de produzir assombros.

Ao desastre na Câmara de aprovar a inclusão de artigos contra o aborto e as políticas LGBT na Medida Provisória 696, que trata da reforma administrativa, somaram-se as rasteiras que o Senado deu em seu presidente, Renan Calheiros, e na Petrobras, para impedir a votação do projeto do senador José Serra (PSDB-SP), que retira da petroleira a exigência de ser operadora exclusiva do pré-sal.

Renan negociara com a presidente Dilma Rousseff a tramitação do projeto e foi surpreendido pelo vice-presidente do Senado, Jorge Viana (PT-AC), que, enquanto Renan despachava com Dilma, leu uma MP, travando a pauta por pelo menos 45 dias. Ato contínuo, a senadora Simone Tebet (PMDB-MS) protocolou uma PEC para manter o exclusivismo da Petrobras. Pasme-se: com apoio de 48 pares, incluindo alguns tucanos.

Na Câmara, Dilma comemorou a reeleição do deputado Leonardo Picciani a líder do PMDB. Uma vitória de pirro.

A presidente, que no sábado participara do circo oficial contra o mosquito – ou mosquita – transmissor da dengue, chicungunha e zica, jogou pesado.  Despachou o ministro da Saúde de volta para o Parlamento, provando que ele não faz falta alguma, e entregou mais um ministério à sigla. Mas o placar de 37 a 30 sobre Hugo Motta (PMDB-PB) pouco aliviou a sua barra. Na verdade, mostrou o inverso: o presidente da Casa, Eduardo Cunha, desgastadíssimo em todas as frentes, ainda fala grosso diante de quase metade da bancada ativa.

Para a sexta-feira, dia sacramentado pelas bruxas, Dilma guardou o anúncio de cortes. Um pacote que prevê contingenciamento de R$ 23,4 bilhões e um pedido, de novo, para que o Congresso aprove um rombo, desta vez de mais de R$ 60 bilhões. Em suma, corte algum, e sim déficit.

No anúncio de ajuste falou-se em tesouradas nos investimentos, na Educação, na Saúde, no PAC, e até em congelamento do salário mínimo. Mas, outra vez, o governo não sinalizou com cortes de verdade, nem mesmo os simbólicos. Nada de extinguir cargos, reformar autarquias ineficientes, parar de gastar com coisas tipo TV Brasil ou com estatais ressuscitadas para nada fazer, como a Telebras, responsável pelo extinto programa de banda larga e que, ainda assim, realizou, em 2015, concurso público para contratar mais gente.

No Supremo, além de decisões positivas, mas polêmicas, como a de dar início à pena após condenação em segunda instância e de permitir a Receita Federal o livre acesso às contas dos contribuintes — votação que continuará na quarta-feira, mas que já tem seis votos favoráveis -, o ministro Teori Zavaski mandou soltar o petista Delcídio Amaral, provocando dúvidas e furor.

Embora seus advogados neguem, fontes do Ministério Público garantem que ele se beneficiou da delação premiada. A hipótese deixa o governo, petistas e aliados de todos os escalões de cabelos em pé.

A semana teve ainda o estranho pedido de liminar que acabou por suspender o testemunho do ex Lula e sua mulher, Marisa Letícia, sobre o tríplex do Guarujá e o sítio de Atibaia. Foco de ação entre amigos – todos investigados pela Lava-Jato – para garantir o conforto e o lazer do ex-primeiro casal no campo e na praia, a questão perdeu as manchetes depois da entrevista da ex-namorada do ex Fernando Henrique Cardoso, festejada pelos petistas como prêmio de loteria.

Imaginam com isso conseguir – e talvez até consigam – exorcizar os pecados de Lula. Como sempre, misturam todos os bugalhos aos alhos, confundindo e apostando na ignorância do distinto público. É mais do que um filme. É horror mesmo.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 21/2/2016. 

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