A morte cansada

Não vou falar dele, mas vou dizer o nome dele: Ronald Reagan. Para os leitores bebés do Expresso que andam na casa dos 30, acrescento que, além de presidente, Reagan foi também actor.

Não vamos agora discutir-lhe os méritos. Até porque é Junho de 2004 e Reagan vai a enterrar. A televisão transmite o funeral e Billy Crystal assiste, na sala da sua casa, que não é exactamente um T0 em Marvila.

Toca o telefone, Billy atende e é Reagan, a ineludível voz de Reagan, que lhe fala do outro lado da linha. O espanto de Billy é cristalino: “Mas como é que me pode estar a telefonar, se está morto?” Do outro lado, Reagan, esclarece: “Sabe, estou num lugar estranhíssimo, e é para lhe dizer que faz aqui um calor dos diabos!”

Reagan estava morto, mas ainda não tinha morrido Robin Williams. Era ele, prodigioso imitador de vozes, amigo de Billy Crystal, que estava ao telefone. Billy contou a história no funeral de Williams e pôs um velório às gargalhadas. Mais do que rirem-se todos de Reagan, de cuja política gostariam tanto como eu gosto de azedas, riam-se da morte.

Morre tudo. Cada vez me morrem mais pessoas, até as coisas em que eu vivi. Morreu a Guerra Fria, que Reagan, Thatcher e, sobretudo, João Paulo II mataram. E já morreram eles todos e nem faço bem ideia se Gorbatchev não terá, entretanto, morrido também. Morreram-me pais e sogro, o Bénard e o Cintra, guardiões do tipo de cinema que meto para a veia. Quando envelhece, todo o homem é mesmo uma ilha, a ilha que se descolou do continente onde estava tudo o que amou e quase todos os que o amavam.

Indo eu próprio a caminho da morte, descubro que é por isso que as pessoas começam a andar mais devagar com a idade. John Wayne, que foi sempre velho, era todo vagares, em The Searchers como em Wings of Eagles, como era devagar que se deixava morrer, no terminal The Shootist. A amena face da morte desenha-se no horizonte e um tipo deixa de ter pressa. A própria morte, ensinou-nos Fritz Lang num filme lúgubre e belo, é uma morte cansada.

Tanto vagar traz-nos ao espírito a vontade de rir. Rir do céu e do inferno, antecipando a deliciosa e negríssima escuridão em que nem uma brisa se atreve a passar. Lugar estranhíssimo, com um calor dos diabos, como disse a ineludível voz de Reagan.

zzbilly

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

The Searchers no Brasil é Rastros de Ódio. The Wings of Eagles, Asas de Águias. The Shootist, o Último Pistoleiro.

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