Será que isso não basta?

O procurador do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), Júlio Marcelo de Oliveira, e o auditor fiscal da mesma instituição, Antonio Carlos Costa D’Ávila, testemunhas, e os senadores Lindbergh Farias, Gleisi Hoffmann e Vanessa Grazziotin, que atuaram ontem na sessão da Comissão do Senado Federal que analisa o impeachment de Dilma Rousseff, pareciam pessoas de épocas e mundos distintos; ninguém diria, ao vê-los e ouvi-los, que são cidadãos do mesmo nível social e, imagino eu, com escolaridade semelhante.
Palavra de honra, fiquei muito impressionada e, se os conhecesse, telefonaria para os senhores que ali estavam como testemunhas convidadas para lhes prestar minha solidariedade.  Eles foram chamados para testemunhar sobre um assunto da maior seriedade e em certos momentos foram tratados como se estivessem sendo julgados!

E julgados por quem? Pela bancada do Jardim de Infância, excelente definição que copio de O Antagonista.  Além de infantilizados, os três senadores que se aboletam na primeira fila para não perder nenhuma chance de serem vistos pelas câmaras de TV, são cheios de melindres, se ofendem com quaisquer observações feitas por colegas do Senado, mas não se eximem em questionar as testemunhas em um tom que imaginam ser superior, como se quisessem deixar óbvio que sabem mais do que eles…

O apelido Jardim de Infância é perfeito, pois eles se comportam de modo bastante imaturo. As moças são cheias de não me toques. O senador é tão nervosinho que dá a impressão de que pode levantar vôo a qualquer momento.  O grande argumento deles três é interromper tudo e todos o máximo que puderem. Querem vencer pelo cansaço…

Já as testemunhas, funcionários do TCU, com toda a certeza despertaram orgulho nos brasileiros! Inteligentes, competentes, dedicados às suas carreiras e ao país, ao responder às perguntas dos senadores foram absolutamente claros, dirimindo todas as dúvidas dentro do tempo mínimo de que dispunham.

O procurador Julio Marcelo de Oliveira, invectivado pela senadora Vanessa Grazziotin, deu, em sua resposta, uma aula de sabedoria, habilidade e elegância de modos.  Quem não assistiu à sessão, pode assistir pelo Youtube as perguntas da senadora à bancada de testemunhas e, sobretudo, apreciar a resposta do procurador. Um aviso: o vídeo tem um pouco mais de 15 minutos.

A segunda testemunha de anteontem foi o auditor fiscal do TCU Antonio Carlos d’Ávila Costa, que, em um questionamento do senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), deu a resposta mais significativa de todas:

“Eu não acreditava que estava diante daquela situação, de tal sorte que, ao receber os argumentos da outra parte, me dava um frio na barriga grande. Eu pensava: ‘não é possível, eu devo estar errado’. Mas, infelizmente, o que eu estava vivenciando era o cometimento de atos que, no meu ponto de vista, contrariavam os mais fundamentais, sensíveis e caros fundamentos da Lei de Responsabilidade Fiscal. Não fico feliz em ter encontrado esse conjunto de achados, mas enquanto a sociedade estiver me pagando um salário para exercer minha função, farei de tudo pra que a Lei de Responsabilidade Fiscal seja respeitada, um dos mais importantes pilares da nossa democracia.”(O Globo, 9/6).

O que mais será preciso para convencer o Congresso sobre o desrespeito do Governo Dilma Rousseff à LRF?

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 10/6/2016. 

Um comentário para “Será que isso não basta?”

  1. ESTUPRO POLÍTICO grave ameaça

    Olhar para nossa cultura de olhos bem abertos é missão inadiável da parcela progressista da sociedade brasileira.
    Não podemos naturalizar a desigualdade de gênero e o lugar subalterno reservado às mulheres, enaltecer o estigma do feminino onipresente na mídia e na publicidade, nos tribunais, no parlamento, na universidade, nos escritórios, nas redações, nos consultórios, nos transportes, nas ruas, nas casas, nas camas, na mente e no coração dos muitos homens e algumas mulheres.
    Um número significativo de homens levantou a voz contra a cultura do estupro, que lhes confere tantos privilégios e que eles têm tanta dificuldade de reconhecer.
    Parece claro, finalmente, que foi essa cultura que tomou o poder por um golpe jurídico, parlamentar e midiático estuprando e violentando a democracia.
    E a cultura do estupro político com a conivência fraterna de mulheres, não só delegando aos “homens de bem” cândidos privilégios, mas sustentando-os com sorrisos e palavras de escárnio e inveja.
    Não são golpistas, são estupradores, homens e mulheres.

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