Muita lei, muita ordem

No condomínio onde moro, imperam a lei e a ordem. A convocação da administradora para assembléia de condôminos começa assim: “De ordem do senhor síndico…” 

Pelo tom, desconfio que o original foi redigido em máquina de escrever, no milênio passado, aí pelos anos 1950. Quando surgiu essa coisa estranha, o computador, deram um jeito de passar o modelo para ele. Junto foram os padrões rígidos de disciplina.

Há algum tempo, um pequeno remendo foi feito no piso externo do prédio onde moro. À espera de que o cimento secasse, caberia um aviso do tipo “não pise”. O que surgiu foi “proibido pisar”.

No “espaço fitness” sobram proibições. Uma delas reprime o uso de calça ou jaqueta jeans. Não fica claro se é por prejudicar os exercícios ou o figurino. Neste caso, alguém que vá acompanhar um pai idoso terá que passar antes pela loja de artigos esportivos.

Não custaria um tom ameno, pedimos não colocar acessórios em cima dos estofados dos equipamentos (uma das assertivas proibições). Ou algo amável, colabore, não faça isto ou aquilo.

Daqui a pouco, em nome da moral e dos bons costumes, será decretado que, na piscina, as mulheres tenham que usar maiô inteiro. Os homens, calção de banho com perninhas.

E quanto a fumar? Esclareço logo que não tenho interesse pessoal, pois não fumo. Aqui no condomínio, os convidados fumantes de uma festa no “salão gourmet” terão que caminhar por uma extensa área a céu aberto, do tamanho de uma praça, para fumar… na rua!

O que acontece é que uma simples assembléia de condôminos se coloca acima da Constituição. Da Carta Magna. Está no artigo sobre direitos individuais: “Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei”.

E a lei federal de 2014 limita o fumo nas áreas total ou parcialmente fechadas do condomínio, até na piscina, mas não nas áreas abertas. Fecho com qualquer iniciativa que ajude as pessoas a se livrar do fumo, e proteja as que não fumam, mas sem atropelar os fumantes.

O que salva, no meu condomínio, é que o síndico é gente fina. Apesar das limitações impostas, trata de levar o barco numa nice.

Junho de 2016

5 Comentários para “Muita lei, muita ordem”

  1. Amigo Valdir.
    Uma convenção faz lei entre as partes que convencionaram que se fizeram presente na assembleia e também em relação aos ausentes.
    Os condomínios são exemplo de participação de todos nas decisões. Infelizmente a falta de participação relegam o uso do fumo a proibições decididas por uma minoria atuante e por vezes intransigente.
    Vou a todas reuniões de condomínio, me exponho, sou voto vencido, mas participo com minhas opiniões e conhecimento. Participar é importante, pois mostra aos vencedores o erro das decisões tomadas no afogadilho das paixões.
    Não gostar da síndica não me autoriza a golpeá-la e boicotá-la no desempenho das suas funções.
    Que o síndico leve o Condomínio Brasil numa nice.

  2. Miltinho, aprecio sua boa-vontade e consciência diante dos assembleianos (ué, o corretor de texto reclamou) mas evoco minha condição de recém-chegado para permanecer em concentração por mais algum tempo.
    Se eu chegar lá e disser que estão infringindo a Constituição, vão me chamar de fresco.
    Ou coisa pior.

  3. Fresco não Valdir a idade não permite, mas com certeza absoluta de velho chato.

  4. É este o Brasil… um País onde convenção trabalhista está ACIMA da CLT pode, também, permitir que síndico mande mais do que a Constituição. Por que não?

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