Cenas de bastidores: uma lista

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1. O realizador King Vidor pedira à actriz Lilian Gish que aprendesse a morrer. Filmavam La Bohéme, ela era Mimi e o destino de Mimi, sabe-se, é morrer. Venham ver, estão a filmar a cena.

Correu bem. Só falta Vidor dizer “corta”! Ele está só à espera que Gish volte a inspirar, depois de ter retido a respiração por um eterno minuto. Mas Gish está numa imobilidade etérea. Terá morrido como Mimi? Aflito, o actor John Gilbert corre e chama-a, devagarinho, ao ouvido. Gish abre os olhos e suspira. Tinha aprendido a respirar sem que no corpo dela se percebesse o mínimo sinal de inspiração ou expiração. “Nunca mais houve uma actriz assim”, jura Vidor.

2. De Mille filmava King of the Kings, superprodução bíblica. Para que o espírito da época impregnasse o estúdio, mandou que os actores fossem tratados pelo nome da sua personagem. Ouvia-se gritar “Judas, importas-te de vir à maquilhagem”, ou mais em surdina “Queres sair logo à noite, Maria Madalena?” H. B. Warner fazia de Jesus e era um pé a representar. De Mille, que não era bom de assoar, atirou-se a ele. Jesus interrompeu-o. “Mas o senhor sabe com quem está a falar?”

3. Howard Hawks e William Faulkner foram caçar para falar de scripts e a coisa derrapou para a literatura. Ia com eles um distraído Clark Gable, que perguntou quais eram os melhores romancistas. Faulkner ilustrou-o: “Willa Cather, Thomas Mann, John Dos Passos e William Faulkner.” Gable espantou-se: “O senhor escreve romances, Mr. Faulkner?” “Claro, Mr Gable – respondeu o romancista –, e o senhor o que faz para ganhar a vida?”

4. Jack Lemmon vinha do teatro. George Cukor chamou-o para um papel em It Should Happen to You. Era a primeira vez de Lemmon no cinema. Cukor deu-lhe o texto e Lemmon disse a fala, arrebatado. Cukor veio ter com ele: “Fantástico. O senhor vai ser grande. Mas volte a dizer tudo com menos energia.” Lemmon fez a cena de novo e de novo Cukor: “Que maravilha. Só lhe peço menos expressão. Já vê, no teatro, o actor está longe do público, mas no cinema intercalam-se grandes planos. Não seja tão enérgico.” De perda de energia em perda de energia, Cukor fê-lo repetir doze vezes. Desesperado, Lemmon desabafou: “Mr Cukor, por amor de Deus, assim é como se eu não representasse.” Logo Cukor: “Ora vê como nos estamos a entender!”

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Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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