Cavaleiro de copas

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Vejo cinema de forma errada. Fui ver Cavaleiro de Copas e minutos depois já nem me lembrava que era de Terrence Malick, porque o filme já era meu. A crítica queixou-se da ausência de história, de narrativa. E eu ali, enterrado na cadeira, esgazeado com o excesso de histórias a entrelaçarem-se, como mil fios de sisal a fazer uma corda grossa e boa para amarrar o raio da narrativa fugidia.

A memória é a gloriosa protagonista de Cavaleiro de Copas: vemos os lugares por onde um homem anda, vemos as coisas que um homem faz, mas o essencial do filme é aquilo que, simultaneamente, um homem recorda. E a coincidência desses diferentes tempos é que faz a pequena maravilha deste Malick. Vemos Christian Bale, o homem, a arrastar o não resolvido trauma do conflito com o pai, a ambígua relação com um irmão, as angústias de luxo da vida em Hollywood, vemos um homem que amou uma data de mulheres, procurando no amor delas uma forma de redenção. É um homem que se aflige, em sofrimento e diletantismo, com o sentido que a vida não tem. Esse é o pano de fundo. Bastaria, talvez, ficarmos a saber a história deste homem que amou tão boas mulheres. Mas Cavaleiro de Copas não é filme para ficarmos a saber, é um filme para sentirmos.

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Dei com as minhas memórias a assaltarem as de Christian Bale. Quando as mãos de Bale tocam, entrelaçam e acariciam as de Natalie Portman, já não são as dele, mas as minhas que estão nas da liricamente bela Portman. E quando ela enfia na boca de Bale os bonitos dedos do pé, de quem é a língua que se passeia pelo polegar do pé de Portman?

Quando aos ouvidos de Bale chegam os sussurros da stripper, que ele vai ver despir-se, é aos meus ouvidos que chega o seu tão nu apelo romântico e quando, no movimento de descida do varão, Teresa Palmer abre amplamente as pernas, já não é de Bale, mas minha, a santa convulsão, agustiniana, que corre, eléctrica e estremecida, do ecrã à plateia.

A Los Angeles em que se mergulha, a lúcida dor do casamento que a veemente Cate Blanchett expõe, as lágrimas do aborto que os olhos castanhos de Portman choram são memórias que descaradamente roubo a Bale. Vi Cavaleiro de Copas como gosto de ver cinema: pela pele, carne e espírito. Nas memórias de Christian Bale reinvento as minhas.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com.

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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