Uns acreditam. Outros levam algum

zzafoto definitiva

Definitivamente, não são os números que importam mais.

Logo depois das manifestações de Fora Dilma, Fora PT, Lula na cadeia do domingo, e nos jornais do dia seguinte, falou-se muito de números. Ah, teve mais gente do que no dia 12/4 mas muito menos gente do que em  15/3!

Esgrimiram-se números das PMs, dos organizadores, do Datafolha – esse belo instituto de pesquisa de opinião pública que perde credibilidade quando conta no mesmo espaço da mesma Avenida Paulista 2,5 milhões de evangélicos ou gay e simpatizantes e, em ato político, parcas, miúdas, inofensivas, solitárias 135 mil pessoinhas.

O Datafolha divulgou agora, final da noite da quinta-feira, que contou 37 mil manifestantes pró-Dilma/contra a política econômica de Dilma.

A PM havia contado 40 mil. Uma conta próxima à do Datafolha.

Esquisito, porque, na hora de contar quem é Fora Dilma, Fora PT, Lula na cadeia, o Datafolha se distancia pra cacete da PM. No domingo, a PM avaliou a multidão em 350 mil; o pessoal da Datafolha mostrou carteirinha de estudante, pagou meia e chegou ao número 135 mil.

Então, em São Paulo, no domingo, foram – segundo o sacrossanto Datafolha – 135 mil pelo Fora Dilma, Fora PT, Lula na cadeia. E, nesta quinta, foram 37 mil pró-Dilma/contra a política econômica de Dilma.

Bem, a rigor, como é uma coisa esquizofrênica, contra e a favor, cada cabeça com duas sentenças, o Datafolha deveria ter contado 74 mil cabeças na manifestação pró-Dilma/contra a política econômica de Dilma.

Ou 80 mil, segundo a PM.

Mas, definitivamente, não são os números que importam.

***

Importa mais é o gesto. O símbolo. A qualidade.

Basta olhar para qualquer foto de manifestação contra. E comparar com as fotos das manifestação a favor/meio contra.

O repórter fotográfico Daniel Teixeira, do Estadão, fez uma foto que exprime exatamente o que eu quis dizer quando escrevi sobre a diferença entre as manifestações do Fora Dilma Fora PT e as manifestações chapa-branca.

As nossas são desorganizadas. Cada pessoa veste um tipo de roupa, leva seu próprio cartaz feito à mão. É tudo espontâneo – cada um está ali porque quer estar, quer expressar seu nojo por tudo isso que o lulo-petismo pôs aí.

As deles são organizadíssimas. Marciais. Os cartazes são os mesmos, encomendados na gráfica, paga com dinheiro de todos os trabalhadores do país, em benefício de um grupelho que se estabeleceu no poder.

Os lulo-petistas adoram usar imagens bélicas: vamos pôr nossos exércitos nas ruas, vamos de armas nas mãos.

Pois bem. Foi como eu senti, ao voltar para casa depois de andar pra lá e pra cá na Paulista durante um bom tempo, usando minha voz um tanto poderosa para berrar alto algumas certezas básicas, Fora Dilma, Fora PT: as manifestações fazem lembrar demais a batalha do filme Spartacus, obra-prima espetacular do então jovem (mas já gênio) Stanley Kubrick.

De um lado, estavam os ex-escravos que fugiram do cativeiro e se uniram para lutar pela liberdade. Eram absolutamente desorganizados, cada um se vestia de um jeito, tinha um tipo de arma.

Do outro lado, as centúrias romanas comandadas pelo cônsul Crasso. Impecáveis em seus uniformes limpíssimos, lustrosos.

Eles, os das bandeiras vermelhas, são o exército da Roma Imperial comandados por Crasso. Nós somos que nem as hordas chefiadas por Spartacus, que queriam se libertar do jugo do poder romano.

***

O que eu senti, e tentei descrever em texto escrito ainda sob o calor da emoção de ter estado na Paulista entre milhares de pessoas do bem que gritavam por um país melhor, está sintetizado na foto do colega Daniel Teixeira.

Definitivamente, nós somos o povo oprimido, tomado de assalto, ludibriado, enganado. Eles são a Guarda Pretoriana que defendem os encastelados no poder.

Sempre mais acurada, mais incisiva do que, Mary partiu das mesmas coisas que observamos nos últimos dias para chegar a uma conclusão que demonstra perfeitamente essa minha certeza de que os números não são o que mais importam – quaisquer que sejam eles.

Ela sintetizou com brilho o que de fato importa:

“Mais do que no tamanho e na capilaridade de uma e de outra, a maior diferença está naqueles que têm crença e apostam que podem fazer a História e nos que se deixam manipular pelos que se arvoram a ser – e acham que são – os únicos capazes de fazer a História.”

20 de agosto de 2015

7 Comentários para “Uns acreditam. Outros levam algum”

  1. Os números importam Sérgio, na minha militância petista cansei de ir a comícios e passeatas que reuniam não mais que 2000 pessoas. 2 mil pessoas era a glória.

    “A Proclamação da República foi em 1889, mas a verdadeira fundação da República brasileira se deu em 1984, quando povo foi para a rua. Na proclamação, o povo não foi. Foi uma coisa de meia dúzia, o povo ficou assustado com o que estava acontecendo. E, em 1984, as autoridades ficaram assustadas, o povo tomou o destino na mão”.

    O PT, o PMDB e o PDT fizeram um encontro pelas Diretas em 27 de novembro de 1983, no Estádio do Pacaembu (SP), com cerca de 15 mil pessoas O PT, o PMDB e o PDT fizeram um encontro pelas Diretas em 27 de novembro de 1983, no Estádio do Pacaembu (SP), com cerca de SÓ 15 mil pessoas. O povo tomou o destino na mão.

    Mesmo sem grande cobertura da imprensa, as manifestações ganharam corpo – com a divulgação boca a boca e panfletos – e chegaram a reunir milhares de pessoas. Os comícios gigantes, na reta final da campanha, ocorreram no Rio de Janeiro ( 1 MILHÃO), em 10 de abril; e em São Paulo ( 1,5 MILHÃO ), em 16 de abril de 1984. O povo tomou o destino na mão.

    A mobilização contou com o apoio de várias instituições, entre elas, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT).

    Quase todos os setores da sociedade, de todas as classes sociais, participaram.

    Sérgio tenta descrever em texto mas a foto NÃO sintetiza. O texto fala em NÓS e ELES! Quem são NÓS e quem são ELES? Quem são as pessoas do bem? De um lado os centúrias que a foto ilustrativa mostra com as bandeiras verdes e os dizeres VAMOS UNIR O BRASIL, convocados pelas mesmas entidades que um dia fizeram história ao proclamar a república em 1984.

    Os números importam tanto quanto a qualidade destes mesmos números. Quantidade de coxinhas, a direita rancorosa foi às ruas, usando a voz um tanto poderosa para berrar alto algumas certezas básicas como as comparações bélicas. Uma coisa ficou bem clara nas duas datas de manifestações, a quantidade foi sim relevante, mas em uma delas faltou povo, sobrou rancor, ódio, intransigência, faltou condução política, enfim um convescote classe média,para comer pipoca, tomar sorvete, inocente programa de levar crianças em domingo de sol.

    O texto do SERVAZ é uma provocação, uma insensatez, embate desnecessário entre nós e eles. Quando o povo estiver em quantidade nas ruas as mudanças virão. Cairão os reis de copas, de ouros, de espadas, não ficará nada.
    Nem o grupelho que se estabeleceu no poder.

    Quando isto ocorrer o texto será apenas mais um inútil suporte físico a ser descartado.

  2. Desde quando o PT orientou seus blogueiros pagos e jornalistas de aluguel a tacharem de manifestação de ódio todas as críticas e protestos contra a roubalheira dos companheiros e seus asseclas,venho treinando diariamente minha expressão em frente ao espelho, Sérgio Vaz. Não quero passar vergonha nos protestos. É a mesma expressão que uso quando vejo pobres no avião para Maceió. E, por falar em manifestação motivada apenas pelo amor, achei curioso o “protesto” a favor do governo feito pelos petistas. Circulam na internet vídeos de manifestantes ingênuos, com bandeira vermelha nas mãos, revelando que desaprovam Dilma. Alguns, inclusive, achando que estavam participando de um protesto contra o governo.A pesquisa Datafolha mostrou que somente 54% deles aprovam o governo. Ora, se milhões dos que desaprovam não se dispuseram a sair de casa no dia 16 para uma passeata contra, o que terá feito essas pessoas humildes que também desaprovam Dilma engrossarem a passeata a favor dela no dia 20?

  3. Ora, se milhões dos que desaprovam não se dispuseram a sair de casa no dia 16 para uma passeata contra, o que terá feito essas pessoas humildes que também desaprovam Dilma engrossarem a passeata a favor dela no dia 20?
    Boa pergunta LUIZ CARLOS, quer dizer q

  4. Ora, se milhões dos que desaprovam não se dispuseram a sair de casa no dia 16 para uma passeata contra, o que terá feito essas pessoas humildes que também desaprovam Dilma engrossarem a passeata a favor dela no dia 20?
    Boa pergunta LUIZ CARLOS, quer dizer que os MILHÕES que desaprovam não se dispuseram, por que será?

  5. Miltinho, por que você não começa a ver as novelas da Globo?
    Ou ver filmes na TV? Um pacotinho básico da NET te dá direito a um bando incrível de filmes.
    Quer que eu te mande uns livros de presente? Te mando. Aqueles Pensadores, acabei dando para um sujeito que veio aqui pegar.
    Ouça música. Música é de graça!
    Colecione selos.
    Descubra um hobby. Todo mundo tem que ter um hobby.
    Estudar borboletas.
    Em suma, encontre alguma coisa para fazer, a não ser reclamar que nós que somos contra o desastre que é o PT somos direitosos horrorosos que queremos o mal dos brasileiros, caralho!
    Imenso abraço!
    Sérgio

  6. Ao Sérgio Vaz:

    – A queda do PT, por mais benéfica que seja, está acompanhada por um grande horror: o novo governo, que fará os futuros aposentados ganharem menos de um salário-mínimo, dentre outras medidas que eles fazem usando a crise como pretexto!

    (A DRU, historicamente, golpeia o INSS)

    – Reclamar do petismo é típico de cidadãos de bem, mas receber o novo governo de braços abertos (Temer, Maurício Macri) é, sim, típico de “direitosos horrorosos que querem o mal dos brasileiros”.

    Sinto muito.

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