Um retrato na parede

Dois hamsters e três esquilos-da-Mongólia correndo soltos entre as pernas dos deputados abriram de maneira clamorosa o espetáculo do depoimento de João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, à CPI da Petrobrás e ganharam fama internacional.

Nada mal para uma semana política marcada por extravagâncias múltiplas, que vão desde a presidente Dilma entregando o braço esquerdo de seu governo ao vice Michel Temer, depois de ter entregado o direito ao “Chicago Boy” Joaquim Levy, e a trapalhada de Pepe Vargas, vagando perdido entre um ministério e outro, dando uma entrevista coletiva para anunciar que não sabia direito o que anunciar, mas que, por via das dúvidas, topava qualquer coisa.

Os números da economia divulgados na semana também foram implacáveis para o governo, mas como sempre ele preferiu fingir que não era com ele: uma inflação mensal de 1,33% em março, a maior em 12 anos, e a taxa de desemprego chegando a 7,4% no primeiro trimestre do ano.

Enquanto o governo caminha olimpicamente no meio dos números desastrosos da economia, confiando na eficácia do combate corpo a corpo que Joaquim Levy trava com eles, ele produzia seus próprios desastres políticos, empilhando lances de amadorismo que não se admitiriam nem em disputas de diretórios acadêmicos.

O primeiro vexame aconteceu quando o governo deixou vazar que estava preparando a substituição de Pepe Vargas na Secretaria de Relações Institucionais pelo peemedebista Eliseu Padilha, instalado na insignificante pasta da Aviação Civil. O anúncio surpreendeu tanto o eventual substituto como o substituído.

A notícia chegou antes aos jornais e aos portais do que aos dois envolvidos – o que é um lance de primarismo político inconcebível num governo que está iniciando o seu 13º ano consecutivo no exercício do poder. Frank Underwwod, o manipulador de House of Cards, morreria de vergonha diante de tanto amadorismo.

Mas o pior ainda estava por vir: Eliseu, o indicado, recusou. E Pepe, o enjeitado, ficou com a broxa na mão, procurando um porto para atracar seu barco. Dilma teve que deslocar Ideli Salvati para os Correios e abrir a vaga dos Direitos Humanos para Pepe, que numa patética entrevista coletiva (que coletiva ???!!!- esbravejou a presidente, segundo relatos de anônimas testemunhas de suas explosões) anunciou que não sabia direito o que anunciar.

Dilma tirou de sua imprevisível cartola o nome de nada menos que o vice, Michel Temer, para fazer a coordenação política do governo (dizem que por sugestão – ou a mando, preferem os maledicentes – do ex-presidente Lula) Portanto, com Levy na economia e Temer na política, a presidente ficou liberada de duas das mais cansativas atribuições de um presidente, e ficou com tempo livre para dedicar-se, quem sabe, ao corte de fitas inaugurais e aos discursos protocolares de cerimônias oficiais.

Temer agiu rápido e em dois dias conseguiu sepultar duas CPIs que estavam engatilhadas – a do BNDES e a dos fundos de pensão – comandando a retirada das assinaturas de apoio de alguns aliados até então levemente engajados “ma non troppo” na cruzada de “independência” do Legislativo.

Entregue o governo a um “neoliberal” na economia e a um pragmático “mordomo” na política, além de hostilizada por sua própria base no Parlamento, a presidente Dilma parece contentar-se em virar um retrato na parede.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 10/4/2015. 

Um comentário para “Um retrato na parede”

  1. O retrato na parede é bem diferente do original. Os poucos meses de governo transformaram o semblante da presidenta, que apresenta face preocupada, olheiras e rugas ausentes no primeiro mandato. Seu autoritarismo nào tem resistido a politicagem do PT e seu guru.

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