Um divã para Dilma

Não sabemos qual o grau de loucura maior, se a desastrada frase do ministro Joaquim Levy sobre a ineficiência de Dilma, ou o ato do Planalto de vazar a irritação e indignação da presidente com as palavras do seu ministro da Fazenda.

A caneta presidencial, entre outras coisas, está lá para isto: quando o primeiro mandatário do país está indignado com um subordinado, simplesmente o demite.

Ou então não torna pública sua indignação, para não passar recibo de sua fragilidade. Até porque, no dia seguinte, ela se esforçou para esconder a braveza e “entender o ministro”.

No último affaire há mais um agravante: a presidente expõe seu ministro da Fazenda em um momento extremamente delicado.

Diante da sucessão de bate-cabeças no governo e em sua base aliada, uma pergunta se impõe: deu a louca nos governistas?

O episódio Cid Gomes é revelador. Um governo com um pingo de juízo jamais nomearia alguém com o perfil tresloucado do ex-governador do Ceará, com um histórico de protagonizar episódios patéticos. Faz parte do folclore da política nacional.

Na frente política, nem mesmo Freud conseguiria explicar as razões que levaram Dilma e seus estrategistas a eleger o enfraquecimento e desidratação do PMDB como principal objetivo.

Hoje a relação com seu principal aliado não é nem de tapas e beijos. É entre tapas e tapas.

Vejamos. Apuradas as urnas, Dilma sentiu-se forte. Ressuscitou aquela maluquice de convocar uma Constituinte exclusiva, com o objetivo de atropelar o Congresso.

A idéia não foi para frente porque o então aliado de todas as horas, Renan Calheiros (PMDB-AL), deu um chega para lá.

O ensandecimento continuou. A presidente montou seu segundo governo priorizando aliados de outros partidos como o PSD e o Pros, destinando aos peemedebistas um papel subalterno. Eles, claro, jamais topariam ser pinguim de geladeira, peça ornamental.

Na contramão do bom senso, os estrategas oficiais inventaram uma candidatura petista para concorrer contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência da Câmara, envolvendo nessa empreitada ministros e diversos líderes petistas.

Nem o mais ingênuo dos parlamentares acreditou na imparcialidade da presidente. O PT e o Planalto passaram vexame com a derrota acachapante.

Como se fosse pouco, o Planalto insuflou a criação de um novo partido, o PL, para desidratar o PMDB. Onde já se viu tanta esquizofrenia?

Como se os veteranos Renan, Cunha e demais caciques peemedebistas fossem para o matadouro docilmente.

Só não se pode acusar o governo Dilma de monótono. A cada dia há uma crise, um tiro no pé. A presidente é insuperável na arte de ser seu próprio alvo.

São apenas 71 dias do seu segundo governo. Este mandato promete..

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 1º/4/2015. 

3 Comentários para “Um divã para Dilma”

  1. NO BLOG DO NOBLAT!
    por Zuenir Ventura.

    Dói, mas tem cura

    Brasil de hoje é melhor do que o dos militares, tanto quanto Portugal de agora, com ex-primeiro-ministro preso por corrupção e recessão, é melhor do que o do salazarismo

    04/04/2015 – 15h02

    Depois de atuar no Rio por quatro anos como correspondente do “Diário de Notícias”, de Lisboa, o jornalista Hugo Gonçalves escreveu uma crônica-despedida intitulada “O Brasil que dói”, em que lembra sua “revolta” ao ouvir de uma escritora e uma agente literária cariocas a afirmação: “Este país não tem solução”.

    Foi na época das manifestações de 2013, e ele não entendia como as duas, com pouco mais de 40 anos, podiam ser “tão cínicas”, quando o país parecia tão mobilizado. “Elas olhavam-me como se eu fosse um menino ingênuo e idealista”. Rapidamente, Hugo viu os protestos se transformarem em atos de violência e destruição de propriedade, ônibus incendiados e lojas saqueadas.

    “Os protagonistas [eram] grupos radicais, bandidos do tráfico e gente paga pelos partidos. As medidas anunciadas por Dilma? Esquecidas para sempre”.

    Da esperança na chegada ao desencanto na partida foi um pulo. Mesmo reconhecendo que nesse período milhares de pessoas puderam sair da pobreza extrema, o quadro que pinta do país é desalentador: “Quando se olha para a deterioração da saúde, da educação, dos transportes, dos partidos, quando se olha para o conluio do PT com as construtoras, quando se percebe a farsa que foi Lula (o homem que deliciou jornalistas europeus), quando se mora no Brasil e traficantes fecham uma favela e impedem cinco mil crianças de ir à escola durante uma semana, e a polícia continua irremediavelmente corrupta, então é difícil não achar que em 12 anos de governos PT se desaproveitaram demasiadas oportunidades e que o Brasil foi sequestrado por pilhadores que enganaram milhões com plasmas e telemóveis comprados em 12 prestações sem juros”.

    Se, em vez de quatro anos, meu colega tivesse vivido aqui 40 ou mais, como eu, abrandaria seu pessimismo, pois veria que, apesar de tudo, o Brasil de hoje é melhor do que o dos militares, tanto quanto o Portugal de agora — com um ex-primeiro-ministro preso por corrupção e uma grave recessão econômica — é melhor do que o da ditadura salazarista.

    Que o diga a escritora portuguesa Leonor Xavier, que se encontra de passagem pelo Rio, onde foi correspondente por mais de uma década — e, por coincidência, também do “Diário de Notícias”. Queridíssima por aqui, onde teve e tem amigos como Millôr Fernandes, Luiz Gravatá e Chico Caruso, Leonor sabe o quanto sua segunda pátria é capaz de regeneração, ou seja, de dar a volta por cima.

    Hugo Gonçalves tem razão quando fala do “Brasil que dói”. Mas, ao contrário do que lhe disseram, tem solução, tem cura, ainda que a longo prazo. Basta continuar usando como remédio a democracia, coisa que o nosso processo histórico não tem feito de forma continuada.

  2. Miltinho, não posso, na atual conjuntura, crer em “Brasil tem solução”.

    A formação histórica e antropológica do Brasil é péssima – e não é pela “vinda de bandidos e ladrões” (se assim fosse, a Austrália seria o pior país do mundo) – mas pela vinda e preponderância de donatários metidos a barão, os quais estabeleceram as “regras” sociológicas do novo País.

    O Roberto da Matta disse que a classe média quer regalias, e não direitos (Programa Canal Livre). A Anna Muylaert conhece os amigos dela, e sabe que a classe dela combate o PT por conta da manutenção de privilégios.

    Quando eu digo isso, parece uma acusação infundada, mas a Anna convive lá dentro…

    As jornadas de 2013, protestos imaturos de um povo muito pueril, não foram acompanhadas de PLs de iniciativa popular para o transporte, saúde etc., estes sim muito mais efetivos do que simplesmente ir às ruas. Os manifestantes perderam uma ótima oportunidade de obrigar a deputalhada a melhorar o País através dos PLs – com ou sem crise.

    Hoje em dia, no Brasil, 90% do que nós falamos é chamado de “coisa de lulo-comunisto-petisto-anarco-terroristas”, quando eu sou nacionalista!

    Pequeno desabafo. Triste 2016.

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